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A narrativa está do nosso lado

Pedro von Hafe
Opinião \ sexta-feira, outubro 16, 2026
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O poder político não tem de ser implacável com manifestantes, tem de ser implacável com os responsáveis que originam a crise na vida dos trabalhadores e das suas famílias.

Estive na manifestação de 10 de outubro no Porto, saí de lá de coração cheio, como sempre, mas com algum desconforto por achar que a luta podia e devia mobilizar mais pessoas. Há, de certeza, mais pessoas mobilizáveis. Temos de alterar algumas dinâmicas para as conseguir mobilizar. Ainda assim aquelas pessoas que lá estiveram e, sobretudo, as que lá ficaram nos dias subsequentes enchem-me de orgulho. A tenda para quem não consegue pagar renda é um símbolo. Um símbolo do agravamento das condições de vida que se está a tornar insuportável. E que resulta, em grande medida, de guerras provocadas pelo governo dos Estados Unidos com o respaldo do governo português. Na última semana Montenegro e até Ventura já vieram tentar virar o bico ao prego e criticar, levemente, Trump, mas nós não esquecemos.

Temos de pugnar para que um trabalhador tenha uma vida digna, que um trabalho seja ele qual for, seja suficiente para conseguir ter tempo livre com a família, férias e descanso. Temos, até, por muito utópico que hoje possa parecer, de lutar para que o trabalho seja uma percentagem cada vez menor da nossa vida, que não nos mate e que nos deixe usufruir dos prazeres da vida. Aquilo que mais ouço dos meus doentes com idades mais avançadas nas minhas consultas é o arrependimento por terem trabalhado demais, juntado dinheiro que agora não conseguem gastar, sem puderem ter aproveitado a vida, os filhos, ter passatempos, etc.

Nos dias que correm um trabalhador vê a esmagadora maioria do seu rendimento ser comido pela renda/empréstimo bancário, combustível e alimentação. Se for da ‘classe média’ ainda tenta pôr o filho no colégio porque não confia no estado da escola pública, resultado das políticas neoliberais que destruíram este serviço, ou ainda tem de pagar seguro de saúde para não esperar 10 meses por uma consulta no SNS. Enquanto isto, as desigualdades aumentam e os ricos acumulam cada vez mais riqueza.

Estamos a quebrar o contrato social básico das sociais-democracias: cargas fiscais altas, mas serviços públicos inatacáveis. Temos, por isso muitas coisas a fazer: baixar impostos sobre o trabalho, medidas para tornar o peso do IVA progressivo, melhorar a gestão dos serviços públicos, tetos às rendas, cooperativas de habitação, construção de habitação pública, por exemplo.

Isto leva-me de volta à Praça D. João I no Porto. Aquela manifestação é justa e pacífica, é triste e até assustador que o movimento não consiga mobilizar mais pessoas como disse anteriormente. Mas aí entra a Polícia de Segurança Pública e sua ação completamente desproporcionada. 37 feridos, bastonada por todo o lado, sem um único ato de desordem que o justificasse. Um traço clássico dos regimes fascistas é a utilização das forças policiais como braço repressivo e parece-me que foi isso que aconteceu na madrugada de 15 de outubro no Porto. Horas antes, o Xerife Pedro Duarte tinha dito que seria ‘implacável’ com os manifestantes. Implacável com duas centenas de pessoas com tendas montadas numa praça, sem qualquer momento de desordem pública. O poder político não tem de ser implacável com manifestantes, tem de ser implacável com os responsáveis que originam a crise na vida dos trabalhadores e das suas famílias. E o poder político tem sido bastante manso com esses responsáveis. Aliás, pouco depois, o inenarrável Montenegro, já sem o seu sorriso idiota, veio pedir aos Partidos e aos Movimentos que não sejam ‘egoísticos’ porque o país não tem instabilidade nenhuma. Montenegro leva à letra aquele ponto de vista que defende que os governantes são o reflexo do povo e, portanto, acho que o povo deve ser mansinho e estúpido.

Infelizmente, os movimentos de esquerda ainda não conseguiram recuperar a pujança e a ligação ao movimento de rua. Tenho a certeza que muitos dos votantes dos partidos de direita/extrema-direita votarão nos partidos de esquerda quando conseguirmos ser a resposta na rua e na Assembleia da República que estas pessoas necessitam.

E, quando escrevo estas palavras, estão milhares de pessoas na Praça D. João I - o Porto pode, mais uma vez, ser o início de uma nova mudança na sociedade portuguesa. Façamos por isso. Partidos, Movimentos, pessoas.

 

Recomendação Cultural

Este sábado 17 de outubro o Porta-Voz do Livre, Jorge Pinto, vem apresentar o seu novo livro ‘Passo a Passo’, editado pela zigurate. Será na Rimas e Tabuadas às 11 horas. Um livro muito a propósito na cidade em que se preferem construir novas estradas (só para caçar votos, porque cientificamente já se sabe que isso não resolve problemas de mobilidade) do que manter ecopistas.

 

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