Os espantalhos da Iniciativa Liberal
No último artigo na Sapo, o deputado da Iniciativa Liberal, Carlos Guimarães Pinto (CGP) defende que os problemas do crescimento do país se devem aos entraves causados nalguns setores da economia, que tornam impossível que haja um crescimento económico sustentado.
Reconheço aos CGP muita honestidade intelectual, inteligência e visão, pelo que fiquei estupefacto quando li este artigo.
Em todos os temas que cita projeta um espantalho que não existe, ninguém defende aquela caricatura que ele apresenta no artigo (esta técnica é muito usada pela extrema-direita, o tal valor que reconheço ao CGP fez-me ficar admirado com a utilização deste tipo de retórica).
Mas, pelos vistos, na ótica do CGP e da Iniciativa Liberal, só podemos ter um crescimento económico sustentado se:
- mantivermos uma economia baseada no turismo com salários baixos;
- tivermos turistas e nómadas digitais a expulsar todos os habitantes dos centros da cidade e a contribuírem grandemente para os preços da habitação;
- mantivermos o incentivo ao uso abusivo de combustíveis fósseis para alimentar a indústria automóvel;
- rebentarmos aldeias, cuja população não quer ser rebentada, para minerar lítio por uma empresa estrageira. Lítio esse que depois será tratado no estrangeiro e cujos lucros reverterão muito residualmente para o país (se é que irão reverter de todo);
- explorarmos países pobres/miseráveis obtendo os seus recursos através de trabalho escravo;
- vendermos os setores estratégicos nacionais a investidores internacionais.
No meio disto levanta mais uns espantalhos, como se alguém fosse veementemente contra a aposta na indústria farmacêutica (até temos a Bial, uma empresa com escala e algum peso internacional), ou contra a criação de cursos direcionados para alunos estrangeiros. Quando falou do negócio da saúde esqueceu-se foi de referir que quase 50% da faturação dos hospitais privados corresponde a transferências do Estado.
Não podia faltar o clássico espantalho relacionado com os milionários, como se a esquerda tivesse alguma coisa contra a sua existência – basta olhar para o que acontece à nossa volta no Mundo - não queremos é que sejam eles a mandar no país nem que continuem a acumular riqueza exorbitante enquanto um trabalhador nem uma vida digna tem. Mas, aparentemente, o CGP dorme bem com as desigualdades sociais absurdas e cada vez maiores que vemos na nossa sociedade.
Pelo que se percebe pelo artigo, a Iniciativa Liberal não vê alternativas ao crescimento económico que não passem por manter os baixos salários, esburacar aldeias do interior do país com património ambiental incalculável, vender o país a estrangeiros pela via do turismo massificado ou da venda de empresas estratégicas ou explorar trabalho escravo de países miseráveis. Isso e baixar impostos, claro. Sem depois dizer se para compensar essa baixa de impostos vão diminuir o salário dos médicos, dos polícias, dos professores ou dos enfermeiros.
No próximo mês trarei algumas soluções defendidas pelos partidos de esquerda, nomeadamente pelo Livre, para que o país tenha um crescimento económico sustentável, com salários altos e que possa oferecer às pessoas uma vida digna e não um mero ato de sobrevivência dia após dia.
Recomendação cultural:
Festas da aldeia – já vamos avançados em agosto, mas a recomendação é esta: vão a todas as festas da aldeia que conseguirem. Ouvir bandas tributo aos Santamaria ou os próprios Santamaria. Beber, comer e dançar. Grandes histórias se vivem nessas festas e elas mantêm-se bem vivas, longe dos holofotes de algum centralismo urbano que persiste no nosso país.