Espantalhos vs. Soluções
No Jornal Guimarães, Agora!, o membro da Iniciativa Liberal (IL) de Guimarães, Rui Plácido, decidiu responder ao meu último artigo com a crónica ‘Os espantalhos do meu quintal’, disponível em https://guimaraesagora.pt/os-espantalhos-do-meu-quintal/. Infelizmente, o Rui fê-lo sem me identificar nem identificar o meu artigo, o que em Democracia não me pareceu a opção mais leal.
Neste artigo Rui Plácido diz ‘Acabar com o turismo, por exemplo, não transforma automaticamente os seus trabalhadores em engenheiros ou investigadores.’ Mas alguém aqui na sala falou em acabar com o turismo? E que acabar com o turismo, per se, aumentaria a qualificação dos trabalhadores?
Sobre a crise na habitação diz ‘Precisamos de construir mais habitação (…) estabelecer regras nas zonas de maior pressão.’ Ora, eu até fui ler o programa eleitoral da IL e não vi nenhuma referência a estabelecer regras em zonas de maior pressão, isto significa exatamente o quê? Tetos? O estado a condicionar o mercado? Fico feliz por ler isto, significa que o caminho da esquerda se vai fazendo, até entre os liberais.
Sobre a exploração dos recursos naturais o Rui diz: ‘Recusar qualquer exploração em Portugal não elimina a necessidade desses recursos. (…) Os buracos ficam no quintal dos outros e a nossa consciência fica limpa.’ O que se recusa não é a mineração em si, mas sim a mineração a qualquer custo. Portanto, sim, pode ser feito aqui e sim, concordo que é melhor aqui que no Congo, mas sob as nossas condições e garantido o máximo de impacto económico positivo para o país e, sobretudo, para as regiões afetadas.
‘Qualquer descida de impostos deve ser financeiramente explicada, tal como qualquer aumento permanente da despesa pública.’Rui, pode então explicar a IL como vai descer os impostos? O dinheiro que vai deixar de entrar vai deixar de pagar o quê?
Por fim, o Rui finaliza ‘Não basta dizer que queremos uma economia verde, inclusiva, tecnológica e com salários altos. Tudo isso é desejável, mas são características, não são atividades económicas.’ Se isso tudo é desejável que atividades económicas é que vão sustentar isso? A mineração de lítio por empresas estrangeiras? O turismo? A privatização de setores estratégicos?
Deixo aqui alguns exemplos de medidas que o governo pode tomar para termos uma economia vibrante que sustente salários altos, boas condições para os trabalhadores e crescimento sustentável.
- Política industrial: Apoiar projetos em setores estratégicos que combinem investigação, desenvolvimento de produtos, produção e exportação – já aplicado em Portugal na área do têxtil com bons resultados e que permitiu salvar este setor após a entrada do mercado asiático. Apoio de projetos que contribuíssem, por exemplo, para a entrada de Portugal na corrida das baterias de iões de sódio, diminuindo a necessidade de mineração em lítio.
- Aumento dos salários: promover, como acontece nos países nórdicos, a definição dos salários através de acordos coletivos de trabalho. isto resulta numa pressão constante sobre as empresas para não sustentarem o lucro em salários baixo, resultando no favorecimento de uma massa trabalhadora mais diferenciada. Para além disso, mais dinheiro nas mãos dos trabalhadores promove uma maior procura.
- Criar serviços tecnológicos partilhados: laboratórios, apoio à digitalização, eficiência energética e melhoria da gestão. Permite às empresas adotar equipamentos e processos que, isoladamente, não conseguiriam desenvolver ou pagar.
- Investir na melhoria dos determinantes sociais de saúde: maior e melhor mobilidade e melhorar acesso à saúde e redes de apoio social, por exemplo – promove maior motivação, menor absentismo e maior produtividade.
Recomendação Cultural:
Saíram os resultados da nova edição do PISA e, a par da maioria dos países europeus, Portugal teve resultados desastrosos. Nessa senda recomendo um livro que ainda não li – Gente como Nós, do Miguel Herdade, o agora diretor executivo da Fundação Jerónimo Martins. Vindo de quem vem, tenho a certeza que trará uma visão do país bem estruturada, com soluções para alguns dos problemas que trouxeram os alunos portugueses até aqui.