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Uma História (de Amor ao Serviço Público)

Vítor Oliveira
Opinião \ sexta-feira, março 27, 2026
© Direitos reservados
Devia de ser obrigatório homenagear quem dedica a sua vida a trabalhar exclusivamente pela vida dos outros. Bastaria apenas um gesto. Ou uma palavra. O coração ficava cheio. E alma lavada.

Há histórias de Amor que mais parecem ter o futuro fadado. Nasceu em 1936, justamente na casa que, mais tarde, viria a receber a primeira Câmara Municipal de Guimarães. Ainda hoje, com bastante frequência, para não dizer todos os dias, vai ao Centro Histórico contemplar a “sua” janela virada para a Praça de S. Tiago.

Este é o início de uma crónica sobre quem acabou de completar 90 anos, a 19 de março, Dia do Pai! A Dona Rita Sousa, a “Ritinha da Câmara”, como é mais conhecida, trabalhou mais de 40 anos ao serviço do nosso Município.

Mal terminou o curso do Liceu, em 1953, muito antes da Revolução dos Cravos, entrou para a Secretaria Geral da Câmara Municipal. Os serviços ainda estavam concentrados na casa onde nasceu Martins Sarmento, no Largo do Carmo. Só havia homens colaboradores. Tinha 17 anos e ainda trabalhou gratuitamente uns meses, até atingir a maioridade.

Conheceu Alfredo Pimenta. O primeiro diretor – que empresta o seu nome ao atual Arquivo Municipal de Guimarães – andou com “Ritinha” ao colo. Mais tarde, o destino colocou-a a trabalhar com ele.

Ao longo do seu percurso, lidou com 7 (!) Presidentes de Câmara. Começou com o médico Castro Ferreira e terminou com António Magalhães, já no antigo Convento de Santa Clara. Entre outros cargos, foi Chefe de Divisão, Notária e Arquivista. Para esta função, inscreveu-se num concurso público nacional onde participaram mais de 800 concorrentes. Ficou em 1º lugar!

Filha de um pai de família monárquica e de uma mãe com raízes republicanas, “Ritinha” seguiu a carreira dos passos paternos. E o Senhor Lourenço (Ribeiro da Silva) também trabalhou mais de 40 anos na Autarquia…

Acompanhava os Presidentes de Câmara a Lisboa nas reuniões com ministros. E também se fazia acompanhar do irresistível Toucinho do Céu de Guimarães, como lembrança doceira do Berço da Nação.

Nas procissões, era igualmente o Senhor Lourenço quem levava, firme e emproada, a bandeira de Guimarães. Na Páscoa, no Enterro do Senhor, fazia questão de colocar nos ombros uma capa preta de seda natural. Não era um pormenor. Era uma questão de respeito.

E o Senhor Lourenço era uma das pessoas mais respeitadas na Câmara de Guimarães. Tanto assim é que, no dia do seu funeral, muitos julgavam tratar-se do luto por um Presidente – tamanha foi a dimensão do cortejo fúnebre! Tinha “Ritinha” cerca de 40 anos.

Do Pai, herdou não só a imensa sabedoria pela História de Guimarães, como também os botões da farda que o Pai usava como colaborador da Câmara Municipal, hoje transformados em brincos que “Ritinha” faz muitas vezes questão de usar nas orelhas. Para continuar próxima do Pai Lourenço e do Amor ao serviço público que ambos partilharam.

Aos 90 anos, tem 2 filhos, 3 netos e 2 bisnetos. E tem 3 livros publicados. Segue-se mais um! Em breve. Um livro de prosa e poesia, em memória do Pai e da sua Mãe. “Tudo O Que Me Ensinaram” é o nome da mais recente obra literária, de quem se dedica igualmente à pintura e que coleciona, até ao momento, mais de meia centena de quadros por si pintados.

Se voltasse a nascer, “Ritinha” não hesita! Escolhia novamente o dia 19 de março. Os olhos ficam humedecidos quando fala do Pai, a sua inspiração e referência de vida. Tal não será alheio o facto de terem um percurso de vida muito comum e de dedicação à causa pública.

Já leu aqui que ambos trabalharam mais de quatro décadas no Município. O que provavelmente (ainda) não sabia é que o Senhor Lourenço nunca foi homenageado pelos serviços públicos que prestou. Sem olhar a cores ou militâncias partidárias. Em prol do bem comum. A nossa “Ritinha da Câmara”, de 90 anos, também (ainda) não…

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