Tridentes invertidos gravados na pedra (II)
Falámos aqui, no texto anterior, como um tridente invertido gravado numa inscrição latina da Citânia de Briteiros, foi primeiramente interpretado por Emil Hübner, em cuja opinião Sarmento não se fiou. Como também dissemos, em 1880, o arqueólogo vimaranense "tropeçou" numa inscrição com idêntico símbolo, na encosta do monte de Sabroso, voltada ao nascente, perto da Gandra, na Freguesia de Barco.
Era uma inscrição rupestre – portanto, gravada num penedo – que suscitou o seguinte comentário de Sarmento:
"Célebre! Cá temos o tridente que o Hübner imaginou na inscripção da Citânia e que para mim é uma ligadura." (do diário de campo, setembro de 1880)
De facto, Sarmento manteve a sua leitura de que o tridente era um nexo das letras A e I. Isto posto, tal como leu um "AVREI" na inscrição da Citânia, leu aqui, na epígrafe descoberta na encosta de Sabroso, um "CVLCEIV", ou seja, o nome próprio Culceius. A invulgaridade da inscrição, além de ser rupestre, está no local onde foi detetada, aparentemente fora de qualquer povoado, perto de Sabroso, onde não se conhece nenhuma epígrafe latina. Talvez esta invulgaridade tenha levado Sarmento a destacar da rocha a superfície gravada e a guardá-la no seu Museu, onde ainda hoje se encontra.
Inscrição rupestre recolhida por Martins Sarmento na encosta de Sabroso. Fotografia de Patrícia Aguiar
O ímpeto explica-se pela vontade de proteger. Porém, nunca tal se faria nos dias de hoje, à partida, porque o vestígio epigráfico acabou por ser retirado do seu contexto. O que existiria na sua envolvente? Que outros elementos gravados poderia ter a mesma rocha?...
No entanto, cá temos o tridente invertido a seguir ao nome gravado. O olhar atento de Armando Redentor permitiu uma melhor identificação do nome, que parece, afinal, ser o mesmo da inscrição da Citânia: Argius. Eis pois que podemos ter o mesmo nome, com o mesmo símbolo, em duas epígrafes latinas próximas. Serão referentes à mesma pessoa?
Deixando esta questão para diante, há aqui outro aspeto interessante. Foram recentemente divulgados os trabalhos arqueológicos em curso pela equipa do arqueólogo Nuno Gomes, da Civitas Arqueologia, na encosta de Sabroso, próxima do Aveparque. Os resultados são promissores, e revelam a presença humana naquele local em diferentes milénios antes da nossa era!
A inscrição de que aqui falamos pode ter vindo das imediações, no que seria um elemento mais recente, mas ainda assim interessante. No entanto, é possível que a sua retirada no século XIX comprometa uma possível relocalização. "Procurar sempre", como dizia Sarmento.
Gonçalo Cruz