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Solidariedade hoje, competitividade amanhã

Pedro Carvalho
Opinião \ quarta-feira, fevereiro 04, 2026
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Enquanto os grandes não perceberem que sem um campeonato forte o seu próprio domínio se esvazia, a palavra “solidariedade” continuará a ser apenas um incómodo no discurso oficial.

A posição assumida pelo Vitória Sport Clube sobre a distribuição das verbas de solidariedade provenientes da UEFA aos clubes da II Liga deve ser saudada, não por romantismo ou condescendência, mas porque introduz racionalidade num debate que o futebol português insiste em empobrecer. Ao admitir repartir a sua quota caso a proposta volte a ser chumbada, o Vitória limita-se a reconhecer um facto elementar: sem um segundo escalão minimamente sustentável, todo o edifício competitivo do futebol profissional português fica fragilizado.

O problema começa quando este princípio básico colide com a postura dos chamados “grandes”. Sport Lisboa e Benfica, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Portugal têm sido claros, sobretudo no processo de centralização dos direitos televisivos: não estão dispostos a abdicar de nada que possa afetar diretamente a sua vantagem competitiva imediata. A redistribuição só é aceitável se não beliscar o seu quinhão. Tudo o resto é secundário.

Esta lógica revela uma visão estreita do futebol. Vencer “a qualquer custo” tornou-se um fim em si mesmo, desligado da qualidade global da competição. O palmarés, e não o campeonato enquanto produto coletivo, passou a ser o verdadeiro critério de decisão. Pouco importa se a Liga se torna previsível, desequilibrada ou pouco atrativa; desde que o título continue a circular no mesmo eixo, o sistema parece satisfatório para quem manda.

O problema é que um campeonato fraco não fortalece ninguém. Clubes médios e pequenos asfixiados financeiramente não elevam o nível competitivo, não criam pressão desportiva real e não acrescentam valor ao espetáculo. A médio prazo, até os grandes perdem: menos receitas globais, menor atratividade internacional e piores prestações europeias face a ligas que compreenderam, há muito, que competitividade interna é um ativo estratégico.

O contraste com modelos como o da Premier League é evidente. A força do campeonato inglês não resulta apenas do poder dos seus gigantes, mas da qualidade média elevada, construída com redistribuição, regras claras e visão de longo prazo. Em Portugal, prefere-se preservar privilégios históricos, mesmo que isso condene o campeonato a um papel cada vez mais periférico.

Há ainda um efeito colateral que raramente é assumido: um futebol interno pobre acaba por ter reflexos no rendimento da Seleção Portuguesa de Futebol, que depende de competição exigente e regular para formar e testar jogadores.

A posição do Vitória não resolve o problema estrutural do futebol português, mas expõe uma clivagem essencial: entre quem percebe que o futuro passa pela cooperação e quem continua refém de uma lógica de curto prazo, obcecada com troféus e indiferente à degradação do todo. Enquanto os grandes não perceberem que sem um campeonato forte o seu próprio domínio se esvazia, a palavra “solidariedade” continuará a ser apenas um incómodo no discurso oficial.

Pedro Miguel Carvalho

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