Os Jogos Olímpicos: a sua promessa e a sua realização
O Papa Francisco, em mensagem enviada ao bispo de Paris (27 de junho de 2024), recordava, dirigindo-se aos cristãos franceses de paris, que “acima de tudo, que abram as portas dos seus corações, testemunhando, com a gratuitidade e generosidade da sua receção a todos, o Cristo que neles habita e que lhes comunica a sua alegria. Valorizo vivamente que não esqueçam as pessoas mais vulneráveis, em particular os que se encontram em situação de grande precariedade, e que o acesso ao festival lhes seja facilitado. De forma mais geral, expresso a esperança de que a organização destes Jogos sejam para todo o povo de França uma bela oportunidade de harmonia fraterna, permitindo, para além das diferenças e oposições, fortalecer a unidade da nação”. Ora, este desafio colocado aos cristãos pode e deve ser alargado a todos e a todas habitantes de Paris e do mundo. Que abram os corações, como lugar do pathos, deixando-se afetar por todas e todos os que participam nos Jogos, quer como atletas, quer como sejam espetadores. Mas destaca, que os frágeis e os vulneráveis tenham um tratamento de acolhimento que facilite aqueles que por norma são excluídos. Ou, como escreve o Papa, que se encontram em situação de grande precariedade. Que a amizade que devem promover, vençam os ódios que tão abundantemente são espalhados nestes tempos. Que a sua organização engrandeça a França, mas sempre como lugar de multiculturalidade e de inclusão. Quer dizer, o mundo todo e toda a humanidade. “O desporto é uma linguagem universal que transcende as fronteiras, a língua, a raça, a nacionalidade e a religião; a sua capacidade de unir as pessoas, de favorecer o diálogo e o acolhimento recíproco; estimula a superação de si, forma o espírito de sacrifício, favorece a lealdade nas relações interpessoais; convida a reconhecer os próprios limites e o valor dos outros”.
As palavras de Francisco, na senda dos valores fundamentais dos Jogos Olímpicos, tiveram algumas concretizações, ou propósitos, que mostraram, inicialmente, que irias regressar ao caminho do Jogo, quer como desporto, quer como atividade física. Nestes Jogos da XXXII Olimpíada da era moderna a inclusão de um programa mais jovem e urbano – com o Breaking, o Skate e o Surf – prometia tempos novos. O Breaking, estilo de dança oriundo da cultura hip-hop, aliando a capacidade física, é a continuação e confirmação de Tóquio, onde o Skate, o Surf e a Escalada já estavam presentes. Por outro lado, uma verdadeira globalização cultural, promovida pelos media e as plataformas de streaming, permitindo que 3 mil milhões de pessoas acompanhem a transmissão dos Jogos. Manifestando que o desporto é um florescente negócio global. E é este negócio que, a qualquer altura, fará perigar as vantagens recolhidas. É sempre o dinheiro a ganhar, a estar na dianteira dos interesses daqueles que deviam promover o jogo, e não tanto o negócio (que sem ingenuidades, sabemos que não é desprezível). Contudo, valorizando o positivo desta manifestação, sabemos, igualmente, que a cultura é a arma mais eficaz contra os isolacionismos, a autocracias e os radicalismos de todos os quadrantes. E que, a festa, dos Jogos Olímpicos celebrem, então, a cultura dos povos em comunhão e fair-play. Slavoj Zizek, numa leitura correta da abertura dos jogos como revelador da natureza profundamente ambígua da ironia hodierna, e de como opera a ideologia nos tempos atuais, que na relação com a ordem social vigente funciona muitas vezes como uma forma pouco disfarçada de conformismo. Nestes tempos, cada vez mais loucos e violentos, a abertura, performativa e artística, do Jogos de Paris revelaram a existência de uma outra forma de ironia, na denúncia dos radicais e extremistas de direita e do conservadorismo xenófobo e nacionalista, bem como do wokismo (ou politicamente correto). E Zizek fala-nos de una “razão universal (que) é o que vimos na cerimónia de abertura. Um raro vislumbre do núcleo emancipador da Europa moderna”. E, mais à frente, escreveu que só “um espetáculo tão irónico e obsceno está o mais longe possível do politicamente correto estéril e sem humor”. Concluindo, que isto “recordou ao mundo que uma cerimónia assim só é possível na Europa. Foi global, multicultural”.
E, em tempos de guerras, urge recuperar as tréguas olímpicas. Valor solidário e dos simples, e, sobretudo, dos que colocam o outro e a outra no primeiro plano dos seus interesses. A lenda do rei Ífito de Élida, seguindo oráculo de Delfos, estabeleceu os Jogos como uma forma de promover a paz e a união entre as cidades-estado gregas, que estavam frequentemente em guerra. O tratado de paz, como gesto sagrado a Ekecheiria (em português, armistício), assinado por todos, comprometeu-os a suspenderem todas as guerras enquanto decorrem os Jogos. Assim, os Jogos Olímpicos são muito mais de que uma simples celebração (e hoje, ocasião de negócios), mas são um testemunho duradouro da busca humana pela excelência e pela superação, e um símbolo de paz e união entre os povos. A trégua olímpica plantou uma semente de paz que atravessou séculos. Que hodiernamente ressurja este espírito, com mais de 2800 anos, como convite a refletir sobre os valores de respeito, amizade e excelência, e sirvam de base para um diálogo construtivo e uma coexistência pacífica. O verdadeiro triunfo olímpico está em superar as barreiras, não em criar barreiras novas. E que a paz não seja um simples intervalo, mas um desiderato permanente e universal.
Continua...
Guimarães, 13 de março de 2026
Pe Doutor Francisco de Oliveira