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Os Jogos Olímpicos: a sua promessa e a sua realização

Francisco Oliveira
Opinião \ quarta-feira, dezembro 31, 2025
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A sacralização do Jogos Olímpicos é do mais laico que há, o lucro e as finanças são os novos deuses, subjugando todos os valores do jogo

Já sabemos que hodiernamente a sacralização do Jogos Olímpicos é do mais laico que há, o lucro e as finanças são os novos deuses, subjugando todos os valores do jogo, como desporto e atividade física, a um mercado de interesses, os novos estádios. Agora o jogo é um espetáculo, ou seja, tudo o que atrai o nosso olhar e a nossa atenção, jogando com diversão e contemplação, mas igualmente, escândalo ou capaz de provocar escândalo. E porquê? Porque agora é o negócio do jogo, do desporto e da atividade física que se tornou o valor maior. A promessa dos Jogos Olímpicos está comprometida pela sua realização concreta, de olimpíada em olimpíada, ou melhor, de empreitada em empreitada. Ou, como o historiador Tony Collins apelidou o desporto contemporâneo, capitalismo em movimento. Quer dizer, os Jogos Olímpicos são particularmente úteis enquanto forma de mapear o território do capitalismo, e de um capitalismo de celebração. Tornou-se, enquanto força motriz do mundo económico-financeiro, não só o símbolo e refletor do capitalismo, mas produzem-se diligentemente. De tal forma que, os Jogos Olímpicos, são um acontecimento impulsionado pelas elites, e, consequentemente, são escassas as oportunidades de participação ativa das massas e do público, e, não raras vezes, das instituições públicas. E quando os estados e as instituições estatais, ou outras, são chamadas a participar, fazem-no como parceiros estratégicos. Em rigor, fragiliza a democracia, a igualdade e a liberdade.

     Hoje, não fruto da ideologia woke, o uso da terminologia imprecisa e diplomática (versão cool para hipocrisia), e que não é inócuo, pois permite que os interesses dos parceiros mais fortes sejam protegidos sob o pretexto de proteger os mais fracos, de cuidar da natureza, da economia e do bem-estar das populações, da promoção dos direitos humanos, etc, etc. Autênticas encomendas de impactos económicos como o intuito de legitimar os interesses instalados e políticos. Ou, os interesses das chefias das organizações internacionais do COI, da FIFA, da UEFA, etc, e dos patrocinadores, que nunca são os inocentes nesta história que destrói a promessa dos Jogos Olímpicos na sua realização. Estes estudos de impacto, com a realização dos Jogos Olímpicos, parecem feitos à medida de quem os encomenda, como para que possam sustentar uma posição pré-determinada, ou estarei errado? Quem ganha, e a que preço, com a realização dos Jogos? O fator de afastamento dos Jogos modernos e o efeito de deslocação turística não serão provas desta desvirtuação dos Jogos Olímpicos? E o aumento exponencial, sempre justificado com o ataque à delegação israelita ou do terrorismo em geral, da segurança e da vigilância, com vista a proteger o espetáculo desportivo não serão, igualmente, um vetor denunciador desta tendência moderna dos Jogos? E que permite, por outro lado, colocar do lado dos decisores os que são a autoridade policial e/ou militar das nações onde se realizam os Jogos?

     Vejamos o caso da China, escolhida em 2001, pelo COI, para acolher os Jogos de Verão de 2008. E a China é somente a ditadura mais feroz, que não poupa os seus próprios fautores, onde todos os direitos são negados e violados. Na candidatura, e na linguagem imprecisa e hipócrita do COI, fala-se de abertura da China aos valores e princípios dos Jogos e da democracia, promoção económica, abertura para as liberdades civis e políticas, e melhoramentos da vida social, educativa e médica da sua população. Bastaram estas vagas promessas, que todos sabiam ser a treta da diplomacia, e a China foi aplaudida, enquanto oprime o seu povo (ou povos da China) e as elites do regime enriquecem. E mais, os responsáveis do regime opressor deixaram claro que não seriam tolerados quaisquer protestos relacionados com os Jogos, bem como criaram zonas especiais onde as pessoas se podiam reunir para protestar. Parece incrível, não parece?! Contudo, foram aplaudidos pela sua inédita abertura! Mesmo que tenham dito explicitamente que não seriam tolerados quaisquer protestos, os media foram dissuadidos, quer nacionais, quer internacionais, a não relatarem verdades inconvenientes, e criariam, mesmo, zonas especiais onde as pessoas se reuniriam para se manifestarem. É mesmo incrível o nível de hipocrisia a que chegaram os Jogos Olímpicos. Concluiu Jules Boykoff, em Jogos de Poder. Uma história política das Olimpíadas, que “por detrás da conveniente cortina de fumo da prevenção do terrorismo, o governo chinês gastou milhares de milhões para reequipar o seu aparelho repressivo. Instalou um sistema de televisão em circuito fechado de 5500 milhões de euros. Por forma a localizar os participantes nos Jogos, incorporou etiquetas de identificação por radiofrequência (RIFD) nos bilhetes” (p. 196). Contudo, não contentes e sem vergonha, os Jogos de Inverno de Sochi de 2014 comprovam como o ditador Vladimir Putin e seus algozes, num autêntico paraíso de vigaristas, que com uma despesa de 48 mil milhões de euros, suplantou a soma de todos os anteriores Jogos de Inverno. A corrupção russa e seus ditaduras e oligarcas apoderaram-se dos Jogos e fizeram o que mais apreciam – fortuna pessoal, e nunca a favor do povo ou da nação. E, antecipadamente, o ditador libertou-se de um futuro escrutínio público.

     “A era do capitalismo de celebração converteu os Jogos Olímpicos num espetáculo exorbitante que deixou atrás de si um rasto de dúvidas, desalojamento e repressão. As pessoas comuns, um pouco por todo o mundo, começando a aperceber-se do lado negro dos Jogos. Até mesmo os seus defensores mais entusiastas tiveram de reconhecer que os Jogos Olímpicos tinham entrado em crise”, escreveu Jules Boykoff na obra citada (p. 241). E, assim, se continuou a confirmar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, tornado uma autêntica festa debutante, onde o dinheiro público se converteu em divertimento privatizado. A lógica comercial apodera-se cada vez mais, e aprofunda-se, como o mote fundamental para a sua realização. E juntam-se, numa lógica macabra, o urbanismo e habitação, bem como a turistificação e mercantilização das cidades. Sofrem aas periferias e os pobres, lançados num apartheid social e cultural, e o nível de vida que é francamente inflacionado.

Continua

Guimarães, 18 de dezembro de 2025

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