O verde e a poesia
Março é o mês de nascimento de Raul Brandão (1867-1930) e de Camilo Castelo Branco (1825-1830).
De igual modo, o Dia Mundial da Poesia/Árvore (21 de Março) e Dia o Mundial do Teatro (27 de Março). Igualmente, o mês de falecimento do poeta simbolista Camilo Pessanha (1867-1926), ocorrido há 100 anos e infelizmente, da morte recente do escritor António Lobo Antunes (1942- 2026)
Motivações várias haveria então para cronicar, centrados na Literatura Portuguesa. Optamos, porém, pela poesia, especificamente sobre a Poesia do Verde, a propósito de Guimarães - Capital Verde Europeia e recordar Camilo Pessanha, à laia de celebração da efeméride e de homenagem evocativa.
Efetivamente a natureza e as suas cores, em especial o verde, estão presentes entre nós, na atualidade, embora remontem aos primórdios medievos da fundação. Com efeito, desde a natureza confidente da “flor de verde pinho”, que o rei D. Dinis cantaria na poesia trovadoresca, até aos “Verdes são os campos” da poesia tradicional camoniana, ou “Árvore cujo pomo, belo e brando” da lírica renascentista do mesmo autor, que a poesia está na rua e na magia das palavras naturais, muitas vezes erigida altivamente em forma de árvore , como em Florbela Espanca, nas suas “ Árvores do Alentejo”, “sangrentas e revoltadas” , que tal como a poetisa berram para saciar a sua sede; ou ainda António Ramos Rosa, que no seu poema “Cada Árvore é um ser para ser em nós” , nos relembra que a árvore “ apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas”, com a qual “nós partilhamos o mundo com os deuses”.
“Árvore” que sendo um monumento da natureza é outrossim cantada por Nicolau Sião e “em certos quadros de Cézanne” e que é “um símbolo obscuro, principalmente da nossa vida que não houve”. “Árvore Rumorosa” que o soneto de Ruy Belo, considera explosão de vida e serenidade “e imprimes no coração mais fundo da cidade/a marca do princípio a que tudo remonta”.
Na realidade, temos para nós que cada poeta tem uma árvore e a natureza no seu caminho. Pessoa tem Alberto Caeiro, que afirma “não tenho filosofia, tenho sentidos/Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é/mas porque a amo (...)”. Torga, por seu turno, dirige-se “A um carvalho”, respeitável árvore de “barbas, rugas e veias”, com “gestos solenes duma fé constante”. Por sua vez, José Gomes Ferreira, exorta a que “imitem as árvores dos caminhos/que dão flores e frutos/sem complicações”, crendo, como no “Poema da Buganvília”, que “algum dia o poema será a buganvilia”.
Porém, Manuel Alegre, prefere cantar a natureza “Debaixo das Oliveiras”, no “mês em que a brisa me pôs nas mãos/uma harpa de folhas/e a terra me emprestou/sua flauta e sua lua (...) O mês em que saí dos campos/e me banhei no rio como quem se baptiza/ e cantei debaixo das oliveiras/as mãos cheias de terra. Palavras/ e folhas /de uma vida”.
Termino este apelo das “árvores sangrentas, revoltadas” com dois poemas dedicados aos mais jovens: “Ao Miguel” de Eugénio de Andrade e “Planeta Azul” de Luísa Ducla Soares:
“Vais crescendo, meu filho, com a difícil “- Astronauta, astronauta.
luz do mundo. Não foi um paraíso Que vês tu da tanta altura?
que não é medida humana, o que para ti - Um planeta tão azul
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa, Que parece uma pintura.
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo o homem, todo, Quando desce a minha nave
tem direito e sê-lo inteiramente E a terra se aproxima
até ao fim. Vejo florestas em chama
Com nuvens negras por cima
Terra de sol naduro, de cavalos e maçãs,
terra generosa agora atormentada Ao sol brilham os desertos
no próprio coração; terra onde o teu pai De areia branca, crestada,
e a tua mãe amaram para que fosses Como grandes placas de ouro
o pulsar da vida, tornada inferno Onde nunca cresce nada.
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez, Os rios parecem serpentes
se não for demência apenas a razão; Levam na sua corrente
terra inocente, terra atraiçoada, Venenos turvos, castanhos,
em que nem sequer é já possível Que deixam o mar doente.
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil Mas nas cidades colmeias
besta fardada é tudo o que nos resta, Há sempre, de norte a sul,
Gente que sonha e trabalha
abutres e chacais que do saber fizeram Para ter um planeta azul.
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.
Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que a cegueira e cobardia? “
Quanto a CAMIL0 de Almeida PESSANHA, (CP), licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, escreveria o melhor conjunto de poemas simbolistas portugueses, que em 1920 seriam reunidos por Ana de Castro Osório sob o título de “Clepsidra”, após a sua publicação dispersa pela imprensa regional. Um poeta que integraria o grupo decadenista dos Nefelibatas, em 1890, no Porto, do qual também faria parte Raul Brandão, com quem comungaria a mística e apologia da dor.
Igualmente, uma poesia sobre as inquietações profundas da condição humana, elogiada por Fernando Pessoa, que além de lhe confessar a sua admiração, solicitou a sua colaboração para a revista “Orpheu 3”. Porém, CP apenas acabaria por ser editado posteriormente, em 1916, na nova revista “Centauro”, numa primeira revelação pública da sua criação poética.
Todavia, após a sua formação, Camilo Pessanha deixaria Portugal e passaria a residir em Macau, a partir de 1894, ao que consta em “fuga” motivada por uma crise sentimental e paixão não correspondida por Ana de Castro Osório (1872-1935), irmã do seu amigo Alberto Osório Castro (1968-1945). Seria assim em Macau, sociedade em que nunca se integrou, que CP manteria o seu veio poético, nunca deixando de ser um europeu no Oriente, em contraposição à orientalização de Wenceslau de Moraes (1854-1929), com o qual esporadicamente conviveria. De facto, aí viveria durante três décadas como professor de liceu, no exercício da advocacia e funções de Conservador do Registo Predial e aí faleceria em 1 de Março de 1926. Aí também vivenciaria as suas inquietações e ansiedades de um regresso a Portugal, que, como explica, seriam por vezes expiadas no ópio, preparado pela sua companheira Águia de Prata: “produzia-se pouco a pouco em mim esse delírio lúcido característico da intoxicação pelos hipnóticos, em que, sem perder a consciência da situação em que se está, se evoca no espírito (...) uma outra situação, um outro lugar ou em outro tempo, como se vivesse simultaneamente duas vidas muito distantes uma da outra. A imaginação, já se vê, transportou-me para aí, para a agitação estéril desse meio lisboeta, para esse tumulto agressivo e vão por entre o qual andei”.
O ópio daria assim azo a uma navegação de “delírio lúcido” que, como diria em “Clepsidra”, o levava a alcançar o fascínio da “luz em um país perdido”. Um lirismo que igualmente enveredaria por uma poesia tendencialmente adstrita ao sentimento da fugacidade e caducidade da vida, a inutilidade de qualquer ação humana, bem como o desdobramento do eu, ou a apreensão fenoménica da realidade.: “Imagens que passais pela retina/Dos meus olhos, porque não vos fixais? (...) Sem vós o que são os meus olhos abertos? / O espelho inútil, meus olhos pagãos! /Aridez de sucessivos desertos ...”.
Como diria Óscar Lopes “Pessanha traz à poesia portuguesa toda a dinâmica até então insuspeitada do momento subjectivo no domínio da percepção (...) mobilizando os modos afectivos de reacção à realidade sensorial.”
Efetivamente, “uma poesia que rompeu os condicionalismos dominantes da época” que deslumbra das “imagens que passam pela retina”, a angústia e a frustração de “um coração vazio”, assim como a memória do tempo que foge. Contudo, uma poesia que mereceria o apreço da geração Orpheu e diversos poetas e ensaístas da geração da Presença, bem como por parte de colaboradores dos “Cadernos de Poesia” como Sophia de Mello Breyner. De igual modo, o reconhecimento público, traduzido na sua condecoração com a Ordem de Santiago, em 1919, atribuída pelo Presidente da República António José de Almeida.
“Crepuscular” é quiçá um dos poemas de CP que melhor expressa a ligação da natureza ao estado de alma do sujeito poético. Com efeito, evocando o fim do dia, sempre belo, para metaforizar o fim da vida ou de um amor, o poeta implicitamente transmite-nos também, através das sensações sinestésicas da natureza, numa imagem do esgotamento (“enlanguescer da natureza”), que “sente-se esmorecer como um perfume”. Um cansaço existencial humano, simbolicamente ligado à natureza no “vago sofrer do fim de vida”:
“Há no ambiente um murmúrio de queixume, Sentem-se espasmos, agonias d’ave
De desejos de amor d’ais comprimidos ... Inapreeensíveis, mínimas, serenas ...
Uma ternura esparsa de balidos, - Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas
Sente-se esmorecer como um perfume. O meu olhar no teu olhar suave.
As madressilvas murcham nos silvados As tuas mãos tão brancas d’anemia ...
E o aroma que exalam pelo espaço Os teus olhos tão meigos de tristeza ...
Tem delíquios de gozo e cansaço, - É neste enlanquescer da natureza
Nervosos, femininos,dlicados. Este vago sofrer do fim do dia.”
Esperemos novos dias ...