O Desporto Rei: Futebol, história e peripécias (continuação)
O último Mundial de Futebol 2026 provou, à saciedade, em que se tornou este jogo feito negócio, e que o Mundial de Futebol 2022 já antes o tinha confirmado no Catar. E quase que nos faz esquecer o que o Papa desportista, João Paulo II, em 12 de abril de 1984 proclamava – “O desporto é confronto leal e generoso, lugar de encontro, vínculo de solidariedade e de amizade”. Mas este Mundial, o mundial de Trump, com as restrições de viagens e a possível violência do ICE, manchou o futebol, como desporto, e mesmo com espetáculo, pela política de quem se julga um senhor absoluto. O Irão, o Haiti, Senegal e Costa do Marfim, os seus adeptos nem vistos puderam solicitar. Membros da equipa técnica, treinadores, jornalistas e árbitros viram a sua vida muito dificultada, ou mesmo cancelada, com o árbitro FIFA, Omar Artan, considerado um terrorista. Restrições que violam as regras mais elementares da FIFA, mas, Infantino, qual chefe da cosa nostra, assobia para o lado e premeia o seu amigo Trump com o prémio recém-criado da Paz. Ou, o caso surreal do Trump card, onde um telefonema bastou para suspender a execução de um cartão vermelho ao jogador estado-unidense, Folarin Balogun, e confirmando a expressão do Daniel Oliveira: “Os grandes eventos desportivos não foram corrompidos pela política. Sempre foram seu instrumento”. Poiares Maduro, em artigo no Expresso de 12 de junho de 2026 (completado com outro em 10 de julho de 2026), já nos tinha relembrado (como se fosse necessário) como funciona a governação mafiosa e cheia de cumplicidades turvas da FIFA, tornando este desporto popular proibitivo para o povo. E concluía, mas espero que não seja um analgésico, que “aos adeptos resta esquecer o mundo em redor do futebol para continuarem a vibrar. Quão belo é este desporto para nos fazer esquecer tudo o resto em volta”. O dinheiro e os interesses são o motor deste organismo promotor de espetáculos de Futebol, que ganhou o hábito de ficar com as receitas e deixar a fatura para os anfitriões. Catar foi um buraco financeiro e uma lavagem de imagem, e neste Mundial 2026 ao todo serão 7,7 mil milhões de receitas. E isto à custa do futebolista e do adepto. E de um novo estratagema de venda de bilhetes – dynamic pricing. Exatamente como o fazem as empresas de aviação, ludibriando os adeptos que estarão dispostos a pagarem o que lhes pedirem para poder ver a sua seleção. Mas também afirmo, este quisto da FIFA parece não ter remédio, pois no dia em que Infantino sair será substituído por alguém que partilha a mesma cultura de poder e do lucro.
No mês que o antecedeu, e no qual se iniciou, o Mundial de Futebol 2026, o Papa Leão XIV deixou-nos uma preciosa oração. Cito somente a parte central, como um sumário extraordinário do que se espera de todo o Jogo, seja como desporto, seja como atividade física. Eis as palavras que compõem o que quero destacar como Suma do Desporto para a atualidade, e que me fazem continuar a sonhar: “pelo dom do desporto, por aqueles que glorificam a Deus com o exercício dos seus corpos, pelas amizades que nascem no campo e pela alegria de jogar em equipa. / Tu ensinas-nos que na vida, como no jogo, ninguém se salva sozinho. Precisamos dos outros para crescer, para aprender a respeitar, superar limites e celebrar juntos as vitórias alcançadas. / Pedimos-Te que o desporto seja sempre escola de fraternidade e não de rivalidade vazia, espaço de encontro e não de exclusão, caminho de paz e não de violência. / Faz que aqueles que praticam, treinam e apoiam descubram no desporto uma linguagem universal que aproxima cultura, une povos e semeia respeito, solidariedade e superação pessoal”.
Em 2005 um grupo de adeptos do Manchester United queixavam-se do esquecimento a que os sócios e adeptos eram votados pela direção do clube, permanente vetados pela primazia absoluta dada às televisões e a excessivas comercialização. Bem como a manifestação que promoveram contra a compra do emblema por Rupert Murdoch. E mais, eram claros na afirmação de que as classes operárias eram as grandes vítimas deste negócio, tornando um desporto popular, em algo para os poucos que tem poder aquisitivo deste espetáculo, a que se reduzia o futebol. E, para agravar, ainda mais, a família norte-americana Glazer comprou o Manchester United em 2005, pedindo um empréstimo para o efeito. Depois de ficarem com os red devils, os Glazer recorreram a dinheiro do clube para pagar a dívida que contraíram para o comprar. Enfim, e recentemente os casos multiplicam-se, sem ligação a Manchester, apropriavam-se de um bem cultural centenário e valioso para a comunidade. A resposta, como o vimos com o Belenenses em Portugal, algo similar, foi criado pelos sócios e adeptos um clube sob o lema dois United, a mesma alma, surgindo, assim, o FC United of Manchester, entidade totalmente detida pelos sócios. É sempre dúvida um grito a favor de um futebol que coloca os adeptos e sócios, e a comunidade em que se insere, no centro das prioridades. E mais, numa união de forças, continuando a serem Manchester United, demonstraram a ligação profunda entre o futebol, as pessoas e as terras em que ele acontece. Não é contra o dinheiro no futebol, pois ninguém é ingénuo, mas sim contra a sobrecomercialização e a indiferença reinante face aos sócios e adeptos do clube.
Hoje, qual tentação totalitária, muitos ousam controlar a liberdade de imprensa, e, logo, de expressão, trave mestra da democracia ocidental. Pela primeira vez, pelo menos depois do 25 de abri de 74, uma jornalista, Rita Latas, da SportTV, viu um processo disciplinar aberto, no ano de 2022, na sequência de uma pergunta feita ao treinador do Sporting na flash interview, após o jogo com o Desportivo de Chaves. A queixa foi apresentada por um delegado do Sporting ao delegado da Liga, referenciando que a mesma tinha colocado uma questão em aparente desconformidade constitucional da norma. Sim, a norma estabelece, no artigo 91º, que a duração máxima é de 90 segundos e o conteúdo versa exclusivamente sobre as ocorrências do jogo. Contudo, não havia memória de um caso destes ter chegado à avaliação do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol. Este mesmo regulamento que tem a fama de ser conhecido, mas que poucas vezes, ou mesmo raramente, terá sido levado à letra. Nós sabemos, pois não somos néscios, que a liberdade está sujeita a restrições regulamentares e contratuais. Mas pergunto, porquê a jornalista e não a SportTV? E esta, e outras situações conhecidas, devem-nos preocupar, pois transmite a ideia de que é possível condicionar o trabalho de uma jornalista, e esta será sempre uma ameaça à liberdade de expressão das democracias liberais e plurais que habitamos. E quando este desporto, tornado empresa e negócio, e um espetáculo, então tudo se agrava. Por este negócio tem meandros que nem os mais atentos às vezes conseguem suspeitar. Já alguém teve a ousadia de participar ou assistir ao Thinking Football, promovida pela Liga de Portugal, onde os temas são – Desafios para o Futuro, Equilíbrio Competitivo, Fan Engagement e Dia de Jogo, Transformação Digital, Governação, Jogo Técnico e Gestão Desportiva, Marketing e Patrocínios, Saúde e Performance, Futebol Feminino… Mas, abordando temas tão importantes – e mais uma vez sem ingenuidades da nossa parte – sabemos que tudo desagua no negócio e na mercantilização do jogo futebol. E o dinheiro é muito importante, mas não pode, melhor, não devia ser o mais importante. E é por aqui, nesta brecha tão velha quanto a humanidade, que a podridão entra neste jogo do povo e se torna, infelizmente de alguns.
O Papa Leão XIV dizia, a 25 de junho de 2026 que o “caraterístico dos eventos desportivos internacionais, oferece um sinal de esperança, um sinal do mundo que desejamos; contribui para o encontro pacífico entre os povos e a fraternidade”. O último Mundial foi tal? Ou, foi um mero espetáculo, bem à maneira dos estado-unidenses?! Mas como terminou o Papa essa mensagem: “Por isso vos peço que continueis praticando e difundindo os valores do desporto. Porque a etapa de competição passa, mas esses valores permanecem”. Mas, se no cristianismo encontramos este apelo, na literatura, portuguesa e estrangeira, os apaixonados pelo futebol também deixaram o seu contributo humanizador e recreativo do jogo da bola. Carlos Oliveira vibrava com as partidas de futebol, como muitos outros vibraram ou vibram com a bola a rolar no relvado. Este é o jogo mais democrático que possamos imaginar. Francisco José Viegas deixou-nos um outro retrato do futebol, a tragédia, recriada e relata no seu texto Morte no Estádio (1991). Ou, Ruy Castro, e hoje muitos outros, deixou-nos a biografia de Garrincha. As crónicas de Nelson Rodrigues e a sua frase mais icónica – “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. A poesia de Carlos Drummond, Quando É Dia de Futebol, ou, Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina e O Futebol ao Sol e à Sombra. Em Espanha o Nobel Camilo José Cela escreveu Onze Contos de Futebol, e as crónicas do El País de Javier Marías e que publicou a obra Salvajes y Sentimentales. E Almudena Grandes, Jorge Valdano (argentino que escreveu Cuentos de Fútbol com Miguel Delibes, Mario Benedetti ou Alfredo Bryce Echenique). O romance do italiano Pino Cacucci, San Isidro Fútbol, e o de Peter Handke, A Angústia do Guarda-Redes Antes do Penalty, e a trilogia policial de Philip Kerr. Igualmente, Entre Vândalos – O Futebol e a Violência e O Sol dos Scorta de Laurent Gaudé. E muitos mais poderia citar. Mas cito esta frase magnífica de Luís García Montero – “Os futebolistas sonham com os pés e os poetas correm com a cabeça”.
Termino com o artigo de António Cabrita, Cultura e pontapés, na E – A Revista do Expresso, edição 2803, de 17 de julho de 2026, onde apela a uma educação em delta, inclusiva e não restritiva, afirmando que o futebol e as artes/cultura são ambas necessárias e complementares. Contudo, denuncia a simetria “entre o relevo excessivo que o futebol ganhou como manifestação social e o interesse político em relegar a cultura (as Artes Performativas ou a Representação) para um papel secundário, ornamental”. E, questiona-se: “deve o futebol financiar a cultura?” E não isenta o jornalismo, e muito bem, desta pasmaceira em que se deixaram embrulhar. Ou seja, a “baba discursiva que se autorreproduz como as metástases de um cancro”. Perdemos a razoabilidade da Teoria da Justiça de John Rawls?!
Continua…
Guimarães, 30 de julho de 2026
Pe Doutor Francisco de Oliveira