Habitação e não só
Há anos que o baixo crescimento dos salários tem coincidido com o alto crescimento do preço das casas. Congelar os preços e controlar as rendas tem sido a sugestão de alguns para reduzir a distância entre a capacidade financeira das pessoas e o custo de acesso à habitação.
A instabilidade legislativa sobre o mercado imobiliário aumenta o risco do investimento e desincentiva a construção e a oferta de arrendamento. Menos casas disponíveis significam uma fila de espera cada vez maior para quem procura habitação permanente. São jovens que saem cada vez mais tarde de casa dos pais; imigrantes para compensar uma demografia deficiente e responder às necessidades laborais do país; agregados familiares mais dispersos por habitações; mais separações de casais. O normal, em qualquer caso, seria arrendar até investir em habitação própria e assim libertar um imóvel para alguém a aguardar na fila, mas o ciclo não flui. Ninguém sai de onde está porque não é concebível comprar a estes preços e por isso não libertam as casas onde se encontram. As pessoas vão-se remediando: vivem em quartos, dividem casa com mais gente para reduzir despesas e preferem pagar rendas antigas, desatualizadas face ao mercado, em vez de procurar condições melhores e sair. Desenrascam-se como lhes é permitido. Para agravar, há muitas habitações que são utilizadas como arrendamento turístico, sendo que outras são adquiridas como investimento, incluindo por compradores estrangeiros, em vez de serem colocadas no mercado de habitação permanente. Gente que se intromete na fila de espera onde outros aguardam a oportunidade de conseguir um bem de primeira necessidade.
As condições de acesso ao crédito tornaram-se mais exigentes. Falta mão de obra – gerações cada vez mais letradas e digitais, cada vez menos disponíveis para trabalhar nas obras. Também os materiais encareceram, e com as dificuldades criadas por legislação e complicações impostas ao setor, muitas empresas de construção, reabilitação e promoção foram desaparecendo ao longo dos anos. Com os preços que o mercado passou a praticar, construir devia ser, ainda assim, um negócio atrativo, não fosse a urticária que o mar de burocracia provoca aos investidores. Entre o capital empatado desde que adquirem um terreno até à aprovação de um projeto que permita iniciar a construção, podem ser anos de espera por licenças, autorizações e aprovações. Será sempre um desafio a longo prazo estabilizar este mercado. É preciso mais altura e densidade onde existe procura, assim como transportes públicos que permitam tornar apelativas outras zonas com potencial de construção.
O direito à habitação merece apoio e é grave o ponto a que se chegou, mas estas acampadas não são só sobre habitação. São também sobre uma minoria radical que se aproveita de uma causa do povo para conseguir a relevância que esse mesmo povo não reconheceu em eleições democráticas. Quem as promove inclui ativistas anticapitalistas e organizações políticas que veem na polícia a força repressiva e opressora de um regime que existe para lhes retirar as liberdades individuais. Vivem com a ideia de que as pessoas que aceitam essa democracia, que apelidam de burguesa, são intelectualmente inferiores e só por isso rejeitam eleitoralmente o seu brilhantismo. Aproveitam a adesão para promover as suas bandeiras e sugerir de fininho a ideia de que o que se passa é uma revolução contra o regime, tentando fazer passar por representativas as ideias que têm para a sociedade.
É diferente ser solidário com uma causa que merece apoio de defender as ideias de uma minoria radical como solução para o problema.