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06 julho 2026
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Guimarães não se submete

Luís Lisboa
Opinião \ segunda-feira, julho 06, 2026
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A Batalha de São Mamede ensinou Portugal que a liberdade começa quando um povo recusa destinos impostos. Novecentos anos depois, essa memória começa com uma nomeação política. Eis o paradoxo.

Há cidades que marcam a geografia de um país. Guimarães marcou-lhe o destino. Quem aqui nasce cresce a saber que Portugal começou neste lugar. Não como uma frase feita para consumo turístico ou um chavão repetido em cerimónias oficiais, mas como uma responsabilidade transmitida de geração em geração. Desde criança aprendemos que São Mamede não é apenas uma batalha. É o instante em que um povo decidiu escrever a sua própria História. Aprendemos que aquele campo não pertence apenas ao passado; pertence também ao futuro de todos quantos aqui vivem e continuam a dar sentido a este lugar. Foi ali que se colocou a primeira pedra da liberdade sobre a qual Portugal começou a erguer-se.

Imagino muitas vezes a manhã de 24 de junho de 1128. A poeira levantada pelos cavalos. O ferro a embater no ferro. O medo. A coragem. A incerteza. Homens que combatiam sem poder imaginar que estavam prestes a alterar o destino de um território. Quando o combate terminou, não nasceu apenas um vencedor. Nasceu uma ideia, a de que nenhum povo deve aceitar que o seu destino seja decidido por interesses que lhe são exteriores. Foi essa ideia, antes ainda de ser um reino, que começou a transformar um território numa nação.

Talvez seja precisamente por tocar nessa primeira pedra da liberdade que a recente decisão do Governo de Luís Montenegro me provoque um desconforto que vai muito além da discordância política. Ao nomear Paulo Portas como comissário-geral das comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede, numa decisão anunciada em Conselho de Ministros realizado no Paço dos Duques, o executivo parece ter confundido a celebração de um símbolo fundador com um exercício de gestão política do presente.

Na ciência política, a apropriação da memória histórica constitui um dos mecanismos clássicos de legitimação do poder. Os acontecimentos fundadores oferecem identidade, pertença e autoridade simbólica. Quando deixam de pertencer ao povo para responder às conveniências dos partidos, deixam de ser celebração para se transformarem em instrumentalização.

É difícil interpretar esta nomeação fora desse contexto. Paulo Portas não foi escolhido por ser historiador da fundação da nacionalidade, investigador da Idade Média portuguesa ou personalidade particularmente ligada a Guimarães. Foi escolhido enquanto uma das figuras mais marcantes da história recente do CDS-PP, parceiro da coligação governamental, num momento em que o partido procura recuperar relevância política. A decisão parece responder menos à dignidade simbólica da efeméride do que à necessidade de preservar equilíbrios internos da coligação, reforçada pela presença do atual e de antigos Presidentes da República na Comissão de Honra, procurando conferir-lhe uma aparência de consenso institucional.

E é precisamente aqui que reside o maior paradoxo.

A Batalha de São Mamede simboliza a recusa da submissão. Simboliza uma comunidade que decidiu não aceitar que o seu futuro continuasse condicionado por interesses exteriores. Simboliza a afirmação de uma vontade própria. Contudo, a celebração desse espírito nasce através de uma decisão tomada de cima para baixo, sem debate público significativo e sem que a comunidade que guarda esta memória tenha sido verdadeiramente chamada a participar.

Na ciência organizacional, esta lógica é conhecida como modelo top-down. Trata-se de uma forma de decisão em que o centro define e a comunidade executa. Pode produzir rapidez administrativa e uniformidade institucional, mas dificilmente cria aquilo que nenhuma estrutura consegue impor por decreto: sentido de pertença. Quando aplicada à memória coletiva, esta lógica acaba frequentemente por privilegiar a arquitetura institucional em detrimento do envolvimento das pessoas. Multiplicam-se as comissões, distribuem-se cargos, organizam-se cerimónias, mas perde-se aquilo que verdadeiramente mantém viva uma memória: a participação de quem a sente como parte da sua identidade.

Porque há memórias que são como uma casa. Podemos abrir-lhes as portas a todas as pessoas, mas nunca aceitamos que alguém entre para reorganizar o lugar onde guardamos as fotografias da família sem primeiro escutar quem ali vive. A memória coletiva obedece à mesma lógica. A primeira pedra da liberdade pertence a todos os portugueses, mas tem em Guimarães a sua porta de entrada. E é precisamente por isso que a forma como a celebramos nunca pode ser indiferente.

Os povos escolhem cuidadosamente aquilo que celebram. Ao fazê-lo, ensinam às gerações seguintes quem foram e quem desejam continuar a ser. As comemorações nunca são neutras, são também uma forma de educação cívica. Talvez por isso seja tão importante quem as representa.

Guimarães não possui apenas património histórico. Vive dentro da sua própria História. Há cidades que vivem da História. Guimarães continua a viver para ela. As muralhas, as ruas e as praças não são apenas vestígios de um passado distante, são testemunhos permanentes de uma decisão fundadora. Quem nasce nesta cidade aprende cedo que a liberdade não começou como um conceito abstrato. Começou como uma escolha concreta de homens que recusaram aceitar um destino imposto por outros.

Independentemente da avaliação política que cada um faça de Paulo Portas, o seu percurso público permanece inevitavelmente associado a algumas das mais marcantes controvérsias da democracia portuguesa. O processo relacionado com a aquisição dos submarinos marcou a perceção pública da sua passagem pelo Ministério da Defesa, embora não tenha resultado na sua condenação. Mais tarde, a retirada e digitalização de dezenas de milhares de documentos daquele ministério voltou a suscitar intensa polémica pública, terminando igualmente sem consequências criminais.

Há ironias que a própria História escreve melhor do que qualquer cronista.

Depois da controvérsia em torno das dezenas de milhares de fotocópias do Ministério da Defesa, é agora ao mesmo protagonista que se entrega, simbolicamente, a guarda do mais precioso arquivo da nossa memória coletiva.

Portugal não tem falta de historiadores, investigadores, escritores ou personalidades profundamente ligadas a Guimarães capazes de assumir esta missão. Tem, felizmente, muitos. O problema nunca foi a falta de escolhas. Foi a escolha feita.

Não deixa de ser significativo que tenha sido precisamente um vimaranense, José Mattoso, um dos maiores historiadores portugueses, quem mais contribuiu para explicar que Portugal não nasceu num único dia, mas através de um longo processo de construção política e identitária. Ainda assim, poucos momentos possuem a força simbólica da Batalha de São Mamede. Porque foi ali que começou a erguer-se a primeira pedra da liberdade e a convicção de que um povo deve ser senhor do seu próprio destino.

Quando caminho por Guimarães não vejo apenas pedras antigas nem edifícios classificados. Vejo um compromisso. Cada rua, cada muralha e cada praça recordam-nos que houve homens que recusaram aceitar um destino escrito por outros. Caminhar por esta cidade é caminhar ao lado dessa memória. É lembrar que a liberdade nunca foi uma herança garantida, foi sempre uma conquista renovada por cada geração.

Talvez seja por isso que me custa tanto aceitar que a celebração desse legado comece precisamente com uma nomeação política. Há símbolos que pertencem ao Estado e há símbolos que pertencem à consciência de um povo. A primeira pedra da liberdade pertence à segunda categoria.

Os governos passam. Os partidos transformam-se. Mas a Batalha de São Mamede continua a lembrar-nos que há memórias demasiado grandes para caberem numa nomeação política.

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