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A engenharia da insubmissão, cem anos de Eduardo Ribeiro

Luís Lisboa
Opinião \ sexta-feira, junho 19, 2026
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Guimarães assinala hoje o centenário de Eduardo Ribeiro. Engenheiro e resistente antifascista, recusou o silêncio cúmplice e fez da sua vida um estaleiro de liberdade e justiça social.

Assinalar o centenário de Eduardo Ribeiro, a 19 de junho de 2026, é mais do que um ato de memória local, é um imperativo de higiene democrática e um exercício de resistência cívica. Num tempo em que o esquecimento e a manipulação da história se tornam armas políticas, recordar um dos homens que ajudou a desenhar caminhos de liberdade em plena escuridão é devolver a Guimarães, e ao país, a certeza de que a democracia não foi uma dádiva do acaso, mas uma conquista arrancada ao silêncio, à dor e à crueldade do fascismo.

Dessa forma, recordar o legado de Eduardo Ribeiro é um dever do nosso tempo, pois ele nunca aceitou o papel de mero espetador, escolheu ser o autor do seu próprio traço na história. Em 1958, ao cerrar fileiras com o "General Sem Medo", Humberto Delgado, demonstrou compreender que, como advertiu Gramsci, tudo é político, inclusive o silêncio conivente disfarçado de neutralidade. Assim, ao recusar a cumplicidade com o regime, Eduardo não apenas fortaleceu o mítico grupo dos "Democratas de Braga", como ajudou a lançar as fundações da resistência nortenha. Em verdade, ao lado de vultos como Santos Simões, Lino Lima e do seu irmão António Ribeiro, ajudou a edificar uma oposição de estrutura granítica, sólida e, acima de tudo, profundamente humanista.

Em consequência, a sua fibra moral foi testada nos calabouços da ditadura, onde o cálculo de resistência deixou de ser uma fórmula técnica para se tornar uma prova de sobrevivência humana. Mesmo submetido à tortura do sono e ao isolamento em Caxias, Eduardo Ribeiro transformou a sua cela num estaleiro de liberdade. Com uma lapiseira que a PIDE, na sua miopia, deixou esquecida num bolso, traçou, em pleno cárcere, as cotas e os alçados da casa de Santos Simões. Este gesto foi a prova definitiva de que o seu espírito se mantinha a prumo, resistindo à pressão de um regime que tentava, obstinadamente, demolir a sua dignidade. Pois, tal como na poesia de resistência de Manuel Alegre, Eduardo sabia que "mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão" era preciso lançar os alicerces do futuro. Por isso, manteve uma determinação inabalável que hoje nos recorda que o civismo é, de facto, a viga mestra de qualquer sociedade livre.

Com efeito, a sua vertente política nunca foi um anexo da técnica, era a sua própria fundação. Nos Congressos da Oposição Democrática, as suas teses sobre habitação não foram meros estudos de cálculo, mas manifestos pelo direito à cidade e à vida digna. Para Eduardo, a democracia não era um conceito abstrato ou uma utopia suspensa, mas uma edificação concreta, erguida com os tijolos da justiça social. E, ao recordarmos o seu deslumbramento com o 1.º de Maio de 1974, percebemos que Eduardo Ribeiro lutou para que a felicidade deixasse de ser um privilégio clandestino e passasse a ser um bem comum.

Hoje, ao assinalarmos o seu centenário, fazemo-lo com a convicção de que o esquecimento é a única derrota definitiva da liberdade. Guimarães afirmou-se como solo de resistência porque antifascistas como Eduardo Ribeiro e o seu irmão recusaram a curvatura da submissão, mantendo a sua estrutura ética inviolável. Que a sua "Insubmissão" continue a ser o prumo que orienta o nosso norte cívico e a viga mestra da nossa memória coletiva.

 

Nota: Texto originalmente publicado na edição anual do Fanzine do Círculo de Arte e Recreio (abril de 2026).

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