Evocação de Eduardo de Freitas
A existência de uma personalidade interessada nos vestígios do passado e no seu estudo e preservação, foi um fenómeno habitual em diferentes concelhos do país, entre os finais do século XIX e os inícios do século XX. Eram normalmente figuras da pequena burguesia ou da aristocracia local, profissionais independentes como médicos ou jornalistas, ou personalidades eclesiásticas. Foram, em muitos casos, os primeiros estudiosos do passado desse território e, não raras vezes, os responsáveis pelo único registo de determinado sítio ou peça, desaparecido entretanto.
Se o exemplo vimaranense, Martins Sarmento, é sobejamente conhecido, pelo seu caráter pioneiro, outras personalidades existiram, menos conhecidas fora da sua terra, alguns amigos de Sarmento, outros seus admiradores. É o caso de Eduardo de Freitas, figura destacada do Concelho de Felgueiras, que presidiu à sua Câmara Municipal por várias vezes, no início do século XX e médico local, diretor do sanatório do Seixoso. A sua faceta de arqueólogo é talvez a menos conhecida, entre as pessoas que conhecem o seu nome, nomeadamente em Felgueiras e na Lixa, cidade de onde era natural e onde existe um monumento em sua memória.
No entanto, o seu nome estará sempre ligado à descoberta e estudo de uma peça arqueológica absolutamente extraordinária: o Carro Votivo de Vilela. Achado em 1920, por um grupo de trabalhadores que arrancava a toiça de um pinheiro, na freguesia de Vilela, Concelho de Paredes, a curiosa e raríssima peça de bronze foi guardada por um médico de Paredes, Augusto Cunha Leal, que o entregou a Eduardo de Freitas, sabendo da sua natural afeição pelas coisas do passado.
O Carro Votivo de Vilela. Fotografia de Eduardo Brito
E foi assim que Eduardo de Freitas, em representação da Sociedade Martins Sarmento, instituição da qual era associado, deu a público esta interessante peça, e o espeto também de bronze que a acompanhava, no Congresso Luso-espanhol realizado no Porto, em 1921. Dois anos mais tarde publicará uma monografia das duas peças, que dedica à memória de Sarmento e que é o primeiro estudo acerca destes dois interessantes objetos. Anos após a sua morte prematura, ocorrida em 1926, o seu filho, Luís de Freitas, fará doação do Carro Votivo de Vilela ao Museu Martins Sarmento, onde se encontra desde então.
Assinalando-se, em 2026, o centenário da morte de Eduardo de Freitas, o Município de Felgueiras promoveu uma exposição em sua memória, na Casa da Cultura da Lixa, bem como um colóquio, que ocorreu há dias, explorando as diferentes facetas da sua personalidade. Estiveram presentes os seus descendentes, que continuam a honrar a vida e a obra do médico arqueólogo.
É dentro do mesmo espírito que o Carro de Vilela estará em destaque, no dia 31 de outubro, na segunda visita da iniciativa Tríptico, onde a obra de Eduardo de Freitas será também evocada.
Gonçalo Cruz