De proscrito a Presidente: O novo chão comum de Portugal
É oficial, estamos perante um novo capítulo na história de Portugal. O resultado de António José Seguro é nada menos do que esmagador. Superar os recordes de figuras como Mário Soares e Ramalho Eanes não é apenas ganhar uma eleição, é receber uma procuração histórica para estabilizar o país. Com 66,8% e 3,4 milhões de votos, este é o melhor resultado da história democrática portuguesa, num momento em que a poeira da primeira volta assentou para revelar que a única surpresa real foi a abstenção ter ficado abaixo do esperado, tal como os votos em branco e nulos.
Em Guimarães, Seguro venceu com 69% contra os 30% de André Ventura. Curiosamente, na freguesia da Costa, onde resido, chegou aos 73% dos votos, sendo que na primeira volta tinha sido Cotrim de Figueiredo a ganhar ali. Esta transferência de votos revela a vitória de um homem que passou de proscrito no seu próprio partido a Presidente de todos os portugueses. É também o triunfo de um perfil decente, cordato e sereno, que se apresenta como um porto de abrigo para um país que olhou para o abismo e decidiu recuar.
Depois de um ciclo de nove meses de sobressaltos políticos, com três eleições e quatro idas às urnas, Seguro defendeu que a sua prioridade absoluta é o equilíbrio. Afirmando-se como um homem livre e sem amarras, jurou lealdade à Constituição e nomeou-a como o nosso chão comum. Prometeu uma posição oposta à de Marcelo Rebelo de Sousa ao garantir que a legislatura não será interrompida por sua causa. Indiretamente, citou ainda o Papa Francisco para saudar todos, todos e todos os portugueses, reforçando a natureza inclusiva de um mandato que nasce com a missão de unir.
Por outro lado, o elefante na sala continua a ser André Ventura, o candidato que tentou desmobilizar o eleitorado e adiar as eleições, mas que, em rigor, pretendia era adiar a própria democracia. Afinal, no fim da noite, a única vitória que conseguiu foi mesmo a do Benfica ao cair do pano. Todavia, o mestre do incêndio continua a adaptar a sua comunicação, tendo introduzido a palavra movimento por quatro vezes no discurso e insistindo na tecla de uma elite corrupta sem nunca concretizar ou provar. Trata-se de uma ferramenta retórica e propagandística que copia o que Mussolini fez há cem anos para manipular a opinião pública.
Apesar da derrota, Ventura conseguiu 33,28%, o que representa mais 400 mil votos do que na primeira volta. Cresceu sobretudo fora dos grandes centros, nas regiões que se sentem marginalizadas pela política nacional, alimentando-se de uma aritmética perigosa que as instituições não podem ignorar.
Já Luís Montenegro surge como o derrotado da noite. Pela primeira vez na história, não só o candidato do Governo não passou à segunda volta como, nesta fase final, o próprio Primeiro Ministro foi incapaz de tomar uma posição política clara. Agora, limitou-se a vincar que ainda tem três anos e meio de mandato, sonegando que tem apenas maioria relativa e que não deve chantagear a oposição atirando-lhes a batata quente.
Olhando para o futuro, e sabendo que a tradição política portuguesa dita a renovação dos mandatos presidenciais, António José Seguro deverá habitar Belém durante a próxima década. Estes dez anos serão fulcrais. Se as instituições democráticas falharem na resposta aos problemas urgentes da habitação, da saúde ou da mobilidade, e se a radicalização da sociedade continuar a ganhar terreno, Seguro poderá vir a ser o Presidente que terá de gerir a chegada da direita radical ao Governo. O populismo é apenas o sintoma, não a doença. Portugal escolheu a serenidade para agora, mas o sistema tem o tempo contado para provar que ainda consegue resolver a vida das pessoas. A contrarrevolução está, efetivamente, aí à porta.