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Caturo cumpre o seu múnus (I)

Gonçalo Cruz
Opinião \ sexta-feira, janeiro 23, 2026
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Romano, sim, quer pelas características da pasta e da cozedura, quer pela existência de um texto em latim, onde reside a principal novidade.

Corriam os meses de setembro e outubro de 1951 – época considerada como mais propícia para os trabalhos de campo, por estar mais fresco – e Mário Cardozo coordenava trabalhos de escavação na Citânia de Briteiros, "atacando", como dizia na sua linguagem militar, um sector da encosta nascente do monumento.

Surgiram, no meio do desaterro, vários fragmentos de um grande recipiente cerâmico, que, além da dimensão (a boca teria um diâmetro que rondaria os 30 cm), impressionou pela sua vistosa decoração e por ter, na face externa da respetiva pança, uma inscrição latina em quatro linhas. As marcas alfabéticas nas peças cerâmicas até então recolhidas na velha Citânia, costumavam conter apenas algumas letras, ou até duas palavras, que normalmente se interpretam como marcas de oleiro ou de proprietário, feitas antes da cozedura da peça. Também existem casos de grafitos, feitos após o fabrico dos recipientes. Mas não se conhecia uma inscrição tão extensa num contentor em barro.

Os consideráveis fragmentos do vaso foram aparecendo –  uns colando, outros não – crivaram-se as terras daquela camada, foi recolhida uma moeda de bronze junto dos cacos do grande vaso, mas nada mais. Já ali não estavam todos os fragmentos que tinham integrado a peça.

Notável o vaso, cuja decoração com caneluras e pequenas protuberâncias recria as placas e rebites de que se fabricavam os caldeiros e caldeirões (literalmente, um caldeirão feito em cerâmica), cuidadosamente recoberto com um engobe alaranjado. Romano, sim, quer pelas características da pasta e da cozedura, quer pela existência de um texto em latim, onde reside a principal novidade.

Pormenor do vaso com inscrição, recolhido em 1951, na Citânia.

O conteúdo do texto, ao qual deverá faltar uma letra em cada linha, que estaria na parte hoje inexistente, foi alvo de algum debate entre investigadores ao longo das décadas, começando pelo próprio Mário Cardozo, que consultou epigrafistas seus contemporâneos, como o padre catalão Battle Huguet, o professor Adolf Schulten, o professor aragonês Beltrán Martínez, entre outros, o que acabou por propiciar a internacionalização do achado. Mais recentemente, também Armando Coelho Silva, Helena Gimeno e Armando Redentor se debruçaram sobre a curiosa peça, cujo texto "apresenta interpretação sibilina"*, no dizer deste último investigador, a quem se deve a interpretação mais conclusiva da epígrafe.

A problemática incidiu sobretudo na identificação do primeiro nome mencionado e do caso em que estaria declinado, pois que a leitura ganha significados completamente diferentes consoante a terminação que o autor da peça terá dado à palavra.

Temos pois, sem observar as regras técnicas da epigrafia, "Maxuminis Caturo figulus hoc munus dedit", em português, em tradução adaptada, "O oleiro Caturo, filho de Maximino, doou esta oferenda". Parece que alguém terá feito este objeto como testemunho do cumprimento de uma obrigação...

No próximo mês, tentaremos explicar que ato seria este, para que serviria e onde estaria este vaso, tarefa esta na qual Cardozo não nos ajudou muito, mas algo se conseguiu aferir.

 

* Armando Redentor, A Cultura epigráfica... (pág. 358)

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