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24 junho 2026
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A Capital Verde Europeia do amianto

Francisca Sousa
Opinião \ quarta-feira, junho 24, 2026
© Direitos reservados
Ser Capital Verde Europeia seria um grande feito, considerando o contexto atual, de um mundo marcado pelas alterações climáticas que impactam a vida de todos e de todas.

O ano de 2026 começou com a promessa de que Guimarães assumiria o compromisso de, em modo de citação do que surge no site da Câmara Municipal, “um futuro mais sustentável, mais justo e com melhor qualidade de vida”. Ser Capital Verde Europeia significa isso mesmo, assumir o compromisso de sustentabilidade ambiental e neutralidade carbónica, sem deixar para trás a qualidade de vida dos cidadãos e das cidadãs. O galardão atribuído pela Comissão Europeia destaca, então, o envolvimento da cidade em práticas ecológicas urbanas pioneiras. Desde janeiro que têm vindo a ser promovidas diversas iniciativas e eventos na cidade, focadas na consciencialização para a sustentabilidade e na cultura; do mesmo modo, tem-se verificado a transição para meios de transporte mais verdes. Isto observa-se no centro da cidade – onde os eventos dão a sensação, para quem vem de fora, que Guimarães é uma cidade sustentável – mas e a vida na periferia?

Por detrás do centro da cidade, a realidade altera-se. Em visita ao Bairro da Emboladoura, num local mais afastado do centro da cidade, nomeadamente na freguesia de Gondar, a vida é diferente do que se esperaria para uma Capital Verde Europeia. Os moradores do bairro vivem em condições insalubres e a aguardar o fim das obras que prometeram o básico: a retirada de amianto dos edifícios. Apesar do final destes trabalhos estar marcado para o final do mês de maio, o bairro ainda hoje tem lá presentes os materiais das obras, inacabadas, e um ambiente cinzento, não só pelas obras mas marcado pelas difíceis condições de vida de quem lá habita. As obras inacabadas obrigam muitos moradores, que não têm persianas, a colocar panos nas suas janelas – o que torna os invernos mais frios e os verões ainda mais quentes. A falta de manutenção da Câmara Municipal é, também, evidente para quem observa os edifícios.

Ainda mais grave do que meros problemas de manutenção dos edifícios é o que está a acontecer às pessoas. Muitos dos moradores do bairro, sobretudo aqueles que têm graves problemas com a humidade do apartamento onde habitam, dispõem de graves problemas de saúde, como cancro ou problemas respiratórios. Recordo um rosto específico, a dona Amélia, cuja casa fui visitar. A dona Amélia é uma doente oncológica, pouco esperançosa na sua recuperação, dado ao ambiente em que habita. Após a obrigatória subida de três andares de escadas – visto que nenhum dos edifícios dispõe de elevador – os problemas começam logo à porta da sua casa. Dado que vive no último andar do prédio, é observável à porta da casa da dona Amélia a entrada para o sótão do mesmo, que está repleta de dejetos de pombas. Ao entrar no apartamento, o cenário piora: as paredes repletas de manchas pretas de humidade tornam o ar irrespirável e a água da chuva concentrada nos telhados escorre pelas as fichas de eletricidade. A verdadeira questão que se coloca é: e se o Bairro da Emboladoura estivesse localizado no centro da cidade? Esta situação aconteceria se estivesse visível aos olhos daqueles que visitam o centro da cidade?

Ser Capital Verde Europeia seria um grande feito, considerando o contexto atual, de um mundo marcado pelas alterações climáticas que impactam a vida de todos e de todas. Deveria ser a função de todos os órgãos locais e nacionais a promoção de políticas que passem, por exemplo, pela diminuição da emissão de dióxido de carbono – algo que não se faz apenas com uma frota de autocarros elétricos, mas também pela melhoria de vida dos que habitam na cidade. O que se verifica no Bairro da Emboladoura não vai ao encontro do que é a Capital Verde Europeia – casas com amianto, fortemente poluente, cancerígeno, e pessoas com condições de habitação e de saúde deploráveis. Esta não é apenas uma questão ambiental, é uma questão da garantia de direitos básicos como a saúde e a habitação, ainda para mais considerando que o bairro dispõe de 50 casas livres e remodeladas, mas sem nenhum habitante. A questão inerente ao Bairro da Emboladoura é urgente. Ganhar o título de Capital Verde Europeia é uma grande conquista para Guimarães, todavia, uma cidade também se faz de políticas de habitação, de solidariedade e, claro, com todas as freguesias.

 

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