Contextile premeia obras do México, Indonésia e EUA na mostra internacional
Inaugurada no sábado, no Palácio Vila Flor, a Contextile já laureou três obras da exposição internacional patente no Palácio Vila Flor até 29 de novembro, no âmbito da oitava edição da bienal internacional de arte têxtil contemporânea de Guimarães.
O júri atribuiu o prémio de aquisição, no valor de 8.000 euros, a Daniel Fernández Carrillo (México), pela obra “Paisaje Revelado” (2024). A indonésia Salima Hakim, com “Week 1: Road to Homo Sapiens?” (2001–2026), recebeu a primeira menção honrosa, e o norte-americano Raul Martínez, com “Parabellum (Mapa n.º 3, 9 mm, Guatemala)”, a segunda menção honrosa.
A atribuição dos prémios encerrou a abertura oficial da exposição internacional que, nesta edição, alcançou uma dimensão inédita de participação. A convocatória aberta da Contextile 2026 recebeu 1.604 candidaturas de artistas e 2.036 obras provenientes de 80 países, o maior número de participações registado pela Bienal. A partir do conceito “By a Thread / Por um Fio”, o júri seleccionou 53 obras de 50 artistas oriundos de 27 países, reunindo no Palácio Vila Flor uma multitude de abordagens sobre o lugar do têxtil na criação artística contemporânea.
Constituído por Lala de Dios, Lewis Biggs, Magali Junet, Magda Sobón, Susana Pires e Cláudia Melo, directora artística da Contextile, o júri avaliou propostas que exploram o têxtil enquanto matéria, linguagem e campo de investigação, cruzando questões como memória, identidade, território, ecologia, transformação e poder.
Uma paisagem quotidiana mexicana que se corrói aos poucos
Em “Paisaje Revelado” (2024), Daniel Fernández Carrillo explora a relação entre matéria, tempo e território através da intervenção numa lona de polietileno recuperada, um material industrial de fibras plásticas entrelaçadas que integra a paisagem quotidiana no México, cobrindo pátios, oficinas ou mercados e mediando entre o espaço doméstico e o ambiente urbano.
O desenho surge através do desgaste da camada plástica. Em vez de acrescentar pigmento, o artista corrói gradualmente a superfície, reproduzindo a deterioração provocada pelo sol e pelo tempo. O gesto revela uma imagem da paisagem urbana visível a partir do pátio onde a lona foi originalmente instalada.
Ao trabalhar a deterioração do material, Fernández Carrillo revela a estrutura do seu entrelaçado e transforma a lona numa superfície onde memória e experiência se cruzam. A imagem emergente traz-nos o vislumbre de uma arquitectura hostil, associada a dinâmicas de separação, controlo e regulação dos corpos no espaço urbano, herdadas de lógicas coloniais.
Daniel Fernández Carrillo desenvolve a sua prática através da instalação, escultura, desenho e pintura, com particular interesse pelas qualidades materiais, plásticas e poéticas dos objectos. O seu trabalho explora processos de urbanização e transformação da paisagem urbana, atentando nas narrativas que emergem do habitar, do movimento e do acto de atravessar a cidade.
Uma versão feminina da evolução humana
“Week 1: Road to Homo Sapiens?” (2001–2026), de Salima Hakim, parte da imagem dos estágios da evolução humana, The March of Progress, para propor uma versão feminina dessa narrativa.
Imitando uma sala de aula, espaço associado à circulação do conhecimento “científico”, a obra utiliza tecido e costura manual para construir uma representação alternativa à dominante história da evolução humana. A instalação apresenta também objectos cosidos à mão, como revistas académicas, livros e espécimes, associados à produção e ao consumo de conhecimento, criando ficcionalmente um contexto educativo dedicado às histórias e descobertas da evolução humana feminina, questionando os processos através dos quais o conhecimento é produzido e a falta de representação feminina nesses processos.
Docente universitária e artista visual, Salima Hakim explora questões de representação de género na história e na arqueologia, utilizando a costura como abordagem técnica e metafórica. A sua prática cruza dados científicos e ficcionais para questionar a produção do conhecimento e imaginar e reconstruir narrativas históricas sobre mulheres.
Uma investigação sobre a circulação global de armas
Baseado em metodologias forenses e noções de concepção de munições, o projecto utiliza as marcas encontradas em milhares de cartuchos usados como conjuntos de dados para traçar a circulação global de armas de fogo. Os vestígios materiais são transformados em mapas de circulação, tornando o têxtil um instrumento de investigação sobre a violência, o poder e os sistemas globais.
Artista e curador, Raul Martinez fundou em 2008 a DETEXT, um colectivo online com colaboradores sediados em Nova Iorque e Berlim. O colectivo utiliza textos encontrados para analisar a masculinidade hegemónica e os aspectos mais sombrios do sonho americano. O trabalho desenvolvido a partir de têxteis tecidos à mão com cartuchos de balas constitui uma investigação crítica sobre a circulação global de armas de fogo e tem sido apresentado internacionalmente em bienais, museus e galerias.
As três obras distinguidas revelam diferentes formas de activar o têxtil enquanto matéria crítica: através da deterioração e da memória territorial, da costura como instrumento de revisão das narrativas históricas ou da transformação de vestígios de munições em dispositivos de leitura da circulação global das armas. Em comum entre elas, o têxtil surge como prática de investigação, construção de conhecimento e questionamento.
O conceito desta edição da Contextile parte da vulnerabilidade do mundo contemporâneo — atravessado por crises ecológicas, políticas, económicas e sociais — para pensar o fio na sua ambiguidade: sozinho, aparenta frágil, mas ao juntar-se a outros cria trama, estrutura e resistência. Simultaneamente símbolo de urgência e reconfiguração, o fio pode ligar, reparar, transformar e criar novas possibilidades de relação.