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Um sinal dos tempos

Francisco Brito
Opinião \ terça-feira, novembro 03, 2026
© Direitos reservados
É evidente que a PSP esteve mal. É justo protestar, mas não é legítimo esperar que em 2 anos se resolva o que ninguém resolveu em 10.

A cada 15 dias, nas cidades onde há clubes de futebol com alguma dimensão, a via pública fica impedida por centenas de automóveis mal estacionados. Há garagens bloqueadas, carros estacionados em cima de rotundas, de passadeiras, de passeios, etc. O transtorno causado pela ocupação indevida da via pública é evidente. A título de exemplo, diga-se que, por vezes, até a circulação de ambulâncias é afectada. Nesses dias, raramente se vê um desses veículos com uma multa, bloqueado ou, muito menos, em cima de um reboque. Ocasionalmente, nesses sábados e domingos de bola, as coisas correm mal e há confrontos entre adeptos que duram horas e deixam um rasto de destruição nas cidades e até ao longo do trajecto que as claques percorrem no regresso a casa, pela madrugada dentro. A paciência que, por regra, a polícia tem demonstrado nessas ocasiões deixaria São Francisco de Assis envergonhado. Mas, no que diz respeito aos delitos menores, essa paciência tem uma explicação terrena e racional: a polícia tem instruções para, nestes casos, ponderar a relação custo-benefício e a relação causa-efeito das suas acções.

Vem isto a propósito da actuação das forças de segurança nas manifestações mais recentes. O que se passou foi incompreensível. E, politicamente, foi pouco inteligente, pois o Governo em funções é o principal prejudicado por uma actuação excessiva e desproporcionada da PSP. Como salta à vista, trata-se precisamente do oposto daquilo que as forças de segurança fazem nos estádios e nas suas imediações em dias de jogo. É, portanto, importante perceber o motivo pelo qual agiram desta forma e tirar as devidas consequências. Se a PSP actuou desta forma por ordem do MAI, é evidente que a demissão de Luís Neves é o mínimo que se pode exigir ao Governo.

Passemos agora ao problema principal: a habitação (a que se junta o custo de vida).

A preocupação com este tema é mais do que legítima. A situação de uma grande parte dos portugueses é desesperante e merece toda a atenção e solidariedade.

Infelizmente, não vai ser possível resolver o problema da habitação a curto prazo. Muitos dos dados que faziam antever este problema são conhecidos há mais de dez anos. Contudo, até agora, pouco ou nada se fez. Governos e oposições foram incapazes de tratar este tema com seriedade. Por isso, se é justo protestar, não é legítimo pedir a este Governo que resolva, em dois anos, o que os anteriores governos não resolveram em dez — ver manifestantes ao lado de Marina Gonçalves e Pedro Nuno Santos cheira a síndrome de Estocolmo.

Sabemos que, recentemente, foram adoptadas algumas medidas eficazes pelo Governo e por algumas câmaras municipais (como a lei sobre as heranças indivisas, o Porta 65, a redução da burocracia, o agravamento do IMI para imóveis devolutos, etc.). Sabemos também que a oposição apresentou propostas válidas. Mas, muito provavelmente, nenhuma medida ou proposta terá um efeito significativo este ano ou no próximo.

A excepção parece ser a rápida disponibilização de imóveis levada a cabo pela Igreja Católica, que, segundo se diz, terá efeitos antes do final de 2027. Curiosamente, foi também da parte de um responsável da Igreja, D. Roberto Mariz, que se ouviu uma das posições mais sensatas sobre este assunto, quando afirmou que este problema não pode ser «silenciado nem instrumentalizado». Um sinal dos tempos...

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