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Um Maio sem grandes rosas

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ sexta-feira, junho 05, 2026
© Direitos reservados
Por cá, tudo como dantes no quartel de Abrantes: anúncios de obras e iniciativas, fotografias fotogénicas às carradas, a aposta em encontros e visitas e pequenas e inteligentes obras pelo concelho.

Maio foi há um século atrás, concretamente a 28 de Maio de 1926, a data do golpe militar que abriu as portas à longa noite salazarista e que em Guimarães levou ao “annus horribilis” de perdas, nomeadamente a retirada do seu Regimento de Infantaria 20 e sua banda musical. Cem anos praticamente divididos em duas metades, que o 25 de Abril de 1974 baliza, entre repressão e a liberdade.

De facto, nestes últimos 50 anos, temos usufruído da liberdade não obstante alguns tiques mais ou menos esconsos de algumas ditas reformas, pouco consensualizadas, se não mesmo falaciosas e às arrecuas, a merecer contestação a vários níveis. Falamos, por exemplo do Pacote Laboral que uma sondagem recente aponta que dá prioridade ao que não devia, ou seja, concede mais flexibilidade às empresas em detrimento da proteção da estabilidade, horários e direitos dos trabalhadores. Situações que se ajuntam as aventadas e discutíveis “reformas” no visto prévio o Tribunal de Contas, susdevia, ou seja, concederupção, ou a possibilidade de não divulgação dos subsídios individuais aos partidos, pondo em causa a transparência.

A ajudar à missa, em contrapartida, as más notícias do costume às quais as “reformas” tardam e que as parangonas jornalísticas exemplificam. De facto, lemos, ouvimos e vemos que faltam 14 mil enfermeiros ao SNS, mantendo-se a instabilidade na carreira profissional com contratos de 6 meses. Lemos, ouvimos e vemos que em dez anos os alunos com Necessidades Educativa Especiais aumentaram 29%, enquanto as escolas se confrontam com falta de recursos. Lemos, ouvimos e vemos nas conclusões do relatório da Fundação Francisco Manuel dos Santos que as famílias portuguesas gastam mais do dobro do que as europeias para formação académica dos filhos. Lemos, ouvimos e vemos que os cuidados continuados perdem milhões de fundos europeus. Lemos, ouvimos e vemos que avaliação bancária sobe as habitações para o valor mediano de 2.714 euros/metro quadrado, mais 23% do que o registo observado em Março e mais 16,5% do que Abril de 2025. Além disso, uma subida que certamente será complementada pela possibilidade de o Banco de Portugal avançar na atualização das regras no crédito à habitação, para mitigar os riscos no crédito e que obviamente se traduzem na alteração da taxa de esforço de 50% para 45%, com as decorrentes implicações nos prazos dos créditos. Constatações que passam ainda pelo incumprimento da promessa de Montenegro, em 9 de Fevereiro de 2024, que entre outras medidas assegurava “que até ao final de 2025 conseguiremos garantir uma resposta de médico de família a todos os portugueses”.

Poderíamos multiplicar os exemplos entre a verdade e as promessas e a treta de rábula nestes tempos de calor e de casos e casinhos, uns antigos outros emergentes e imergentes entre as gentes. Relevo a este propósito a operação Imergente a imergir com muitos pontos comuns com a emergente operação Tutti Fruti e outras situações a ainda por esclarecer, plausivelmente a serem remetidas para arquivo ou calendas...

Mas também os tempos de pôr os pontos nos is, como António José Seguro vincou no relatório da Presidência Aberta nas zonas afetadas pelo “comboio das tempestades”. Um documento que obviamente abre precedentes nas relações institucionais e na forma de exercer a denominada magistratura de influência. Porém, um relatório que apesar de constituir um “contributo e agenda estratégica de resiliência  territorial, institucional e social”  deixa um grande caderno de encargos para o governo e para o parlamento em prol  de uma atuação (mais) imediata, mostrando cabalmente  que o governo não teve capacidade,  chegou tarde, a resposta foi insuficiente ou incompetente, mal-grado a tentativa  do useiro e vezeiro  passa-culpas, neste caso do poder central para as autarquias, à laia de sacudir a água do capote. E, ademais, apesar da apresentação com toda a pompa e circunstância do PTRR (Plano Transformação, Recuperação e Resiliência) ...

Mas como não bastasse, saltam ainda para a liça os casos de caos nos aeroportos, a colocar em causa uma da galinha dos ovos de ouro da nossa economia e outras” reformas” discutíveis, em detrimento das reformas reais. Outrossim, como não bastasse, acrescem ainda  as preocupações do Presidente da República, expressando a  falta de vontade política e de cultura da ação governamental, como na saúde, área em pretende contribuir para um pacto social. Curiosamente, atitudes interventivas secundadas por Passos Coelho, em registo e tom diferenciados,  que afirma que , “o que é autêntico e genuíno sempre se manifesta e de uma forma muito mais eficaz do que o que é postiço, e então o postiço fica sem nada: fica sem integridade, fica como um prostituto sem carácter”...

Tudo isto, numa altura em que, para além da pressão de Seguro e as palavras agressivas de Passos Coelho, concomitantemente com as sondagens mais recentes revelam que a popularidade de Montenegro está em queda e que o PS recolhe a confiança de 24% dos inquiridos, contra 21% da AD e 17% do Chega. Queda que, contudo, não se verificaram nas eleições partidárias internas antecipadas do PSD, nas quais Montenegro se alcandora, por falta de comparência de pretensas alternativas.

 

Por cá, tudo como dantes no quartel de Abrantes: anúncios de obras e iniciativas, fotografias fotogénicas às carradas, a aposta em encontros e visitas e pequenas e inteligentes obras pelo concelho fora, a corresponder às inquietações circunstanciais dos fregueses, uma vez que parece não existir e dinheiro para obras de fôlego, até porque algumas foram revertidas, procrastinadas ou tão-somente anunciadas.  

Não obstante e dentro da política que por vezes assume a fórmula romana do pão e circo, alguns mimos de entretenimento parecem indiciar essa via “gastadora”, que mais do que cultural são lúdicos e caros, que emergem do habitual supermercado nacional da especialidade, em detrimento de apostas internas mais criativas. Com efeito, como se enuncia no excelente artigo de Paulo Lopes Silva, ex-vereador camarário, publicado na edição do “Comércio de Guimarães” de 20 de Maio último “o MIMO é um evento importante (...), mas que não pode significar o esvaziamento do restante programa cultural de Guimarães, sob pena da cultura vimaranense se reduzir a um mimo”

E, por falar em cultura, mais uma vez, a exemplo dos anos anteriores, verificamos que os Festivais Gil Vicente estarão em palco sem uma única peça do mestre, apesar da sua atualidade e adaptações modernas e da sua permanência nos currículos escolares do 3º. ciclo e secundário.

Aproveitamos até o ensejo para recordar antecipadamente, que para o ano, há três peças teatrais centenárias de autores que nos dizem algo: o “Auto da Feira”, do próprio Gil Vicente com a linda soma de 500 anos de “idade”; e ainda “Eu sou um homem de bem” e “Jesus Cristo em Lisboa”, com 100 anos de publicação, ambas de Raul Brandão, esta última em parceria com Teixeira de Pascoaes. Outrossim, lembremos, que passam 120 anos do casamento de Raul Brandão com Maria Angelina, na Igreja de Nespereira.

Ficam os lembretes, uma vez que neste ano de 2026, o Festival Húmus ficou a dever ao autor o lembrete de duas obras centenárias brandoninas: “A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore” e “As Ilhas Desconhecidas”. Agenda que esqueceu também os centenários de nascimento de José Cardoso Pires e de Luís de Sttau Monteiro, enquanto pioneiros do teatro épico em Portugal.

Acertada  porém a indigitação de Amaro das Neves para a assunção do cargo  de representante do município vimaranense no Comissariado Nacional dos 900 anos da Batalha de S. Mamede, que certamente vai ser uma mais-valia na matéria.Recordo também à colação,  a sugestão de implantar na Colina Sagrada um” monumento” citando as estrofe 31 e 35 do canto III d’ Os Lusíadas” , que abordam essa batalha e o cerco de Guimarães por Afonso VII.  De facto, quantas cidades se orgulharão de constar na nossa epopeia!?

No entanto, ainda que apenas enunciadas, são de bom-grado as inquietações nos domínios habitacionais e a gratuitidade nos transportes públicos, esta última dando sequência lógica à aquisição dos autocarros elétricos, no mandato anterior. Igualmente, de bom tom, a postura de correção nas irregularidades na assunção de cargos das empresas municipais e funções autárquicas, de acordo com um parecer externo recolhido que aponta no sentido de obstar a acumulações.

Para finalizar, de destacar ainda o aumento de efetivos da Polícia Municipal.  Será que desta feita vamos ter polícia na rua, em especial nos pontos críticos (que todos conhecem), que tantas vezes atrasam os transportes públicos e causam inúmeros constrangimentos? 

 

Entrementes, a nível mundial também tudo como dantes no quartel dos mandantes, com a China a assumir-se como país de charneira, a receber Trump e Putin, enquanto a Europa já está a aprender com os chineses inovadoras tecnologias do sector automóvel, ora criando dependências ora parcerias.

Assim vai o mundo entre guerras no terreno e/ou verbais, que já chegaram ao papa, ou entre ameaças de surtos de ébola, trumpices ,  putinices e outras chico-espertices , sacanices e chatices.

Salve pelo menos, a despeito de pertencer ao gentio, a encíclica “Magnifica Humanitas”, do papa Leão XIV, que pretende ser um roteiro para os desafios atuais e colocar alguma ordem na lei da selva ...

Um Maio sem grandes rosas, por vezes espinhosas, e até poucas cerejas ...

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