Tridentes invertidos gravados na pedra (III)
Não querendo entrar em contradição com o título que escolhemos para este conjunto de pequenos textos, o terceiro e último caso que aqui trazemos não é, de facto, gravado na pedra. É, contudo, mais um tridente, mas marcado no barro fresco, antes da cozedura.
É um fragmento de vaso de cerâmica comum que, sem qualquer outra decoração atualmente visível, conserva um tridente invertido. Formado por ângulos retos vincados, o objeto representado é, em tudo, idêntico aos que foram gravados no granito, nos dois casos que anteriormente referimos. A peça foi recolhida na campanha de 1943, na Citânia de Briteiros, dirigida por José Luís de Pina, sem informação clara quanto à zona onde terá sido encontrada, infelizmente.
Temos, assim, três representações ─ contemporâneas, que tudo será datável do século I da nossa Era ─ de um mesmo objeto, um tridente, ferramenta que não é propriamente comum nos motivos decorativos usados nesta região, quer em cerâmicas, quer na epigrafia. Este aspeto peculiar, bem como a correspondência do nome ─ Argius ─ nos dois casos gravados sobre pedra, levou Armando Redentor a convocar um oleiro da velha Citânia, conhecido desde as primeiras escavações. Em várias marcas cerâmicas alfabéticas aparece referido como Argius Camali, ou seja, com uma filiação concreta; noutro caso, numa recolha efetuada por Ricardo Freitas Ribeiro, em 1930, surge a marca Argi officina, mencionando diretamente uma olaria.
Tridente invertido marcado num vaso cerâmico da Citânia de Briteiros. Fotografia de Patrícia Aguiar.
Se conciliarmos estas marcas escritas, com as duas inscrições graníticas acompanhadas do tridente e ainda com o tridente que aparece como marca de oleiro na peça que aqui mencionamos, estaremos a falar da assinatura do mesmo personagem? Um artesão? Ou um proprietário de uma oficina? Ou, ainda, um artesão que viu crescer a sua empresa e este crescimento fez-se acompanhar de uma evolução do que hoje chamaríamos a sua “assinatura gráfica”?
Esta ideia, bem como uma possível explicação para as inscrições sobre granito, é desenvolvida de forma pormenorizada por Redentor, que procurou assim colmatar uma lacuna que os investigadores mais antigos não aprofundaram*.
Subsistem, contudo, muitas questões, sobretudo relacionadas com o contexto de achado de cada um destes elementos. Suspeitamos que neste, como noutros enigmas arqueológicos, a chave apenas se conseguirá obter com novos contextos. E aqui voltamos à máxima Sarmentina: “Procurar, procurar e procurar, principalmente debaixo dos grandes montões de pedras." (do diário de campo, 9 de julho de 1875).
Gonçalo Cruz
* Em concreto, nas páginas 354 a 358, da obra “A Cultura epigráfica no Conventvs Bracaravgvstanvs (Pars Occidentalis). Percursos pela sociedade brácara da época romana”, Coimbra, 2017.