Tridentes invertidos gravados na pedra (I)
No verão de 1876 levava Sarmento alguns amigos a visitar as escavações na Citânia de Briteiros, prática que lhe ia sendo recorrente, sobretudo na primeira fase das escavações, que muito atraíam amigos, investigadores, jornalistas, que de vez em quando arribavam ao monte de São Romão, para "ver a cidade" (expressão de Sarmento). Um dos excursionistas, António Leite Fernandes Proença, deu com umas letras num dos blocos de pedra, numa das casas que ladeiam a rua principal. Era de facto uma inscrição latina, que tinha passado despercebida ao arqueólogo.
Sarmento começou por ler um "A", depois um "R", depois um "M"... Mais tarde, vislumbrou um possível "V", entre o "A" e o "R" e convenceu-se que o "M" seria um nexo, que desdobrou como "EI", formando a palavra "AVREI". Não devemos estranhar este raciocínio, pelo qual ainda hoje passam os epigrafistas ao lerem inscrições antigas, apesar dos avanços tecnológicos, que também não fazem milagres. Foi daqui que veio a leitura desta inscrição como sendo o nome "Aureius", assim desdobrada, mais tarde, pelo Abade de Tagilde e por Mário Cardozo, sempre fiéis às leituras de Sarmento*.

Inscrição latina da Citânia de Briteiros, com tridente invertido. Fotografia de Patrícia Aguiar.
No entanto, pouco tempo depois de atopada esta inscrição, o investigador alemão Emil Hübner, lendo sobre as várias novidades arqueológicas lá longe, em Berlim, ia escrevendo sobre elas na histórica revista Hermes, onde publicou, em 1880, dois artigos consagrados à Citânia de Briteiros. Sobre esta inscrição, Hübner interpretou antes o nome, assim declinado, "Aureli", após o que escrevinhou "ein umgekehrter Dreizack"! Um tridente invertido, gravado a seguir ao nome... Coisa estranha e inédita.
Sarmento, cético como sempre, concluiu que o tridente invertido era fruto da imaginação do alemão, conforme anotou no seu diário de campo, nesse mesmo ano. E não mudou de opinião, mesmo quando, procurando antigualhas na encosta do monte de Sabroso, encontrou outra inscrição com um tridente idêntico gravado, que também interpretou como o nexo "EI", com o "E" invertido...
Sobre esta outra inscrição, falaremos no próximo texto.
Gonçalo Cruz
* A inscrição foi recentemente interpretada por Armando Redentor como o nome "Argius", em nexo.