Solstício de Inverno: Das Trevas para a Luz
A dança geométrica que o nosso planeta executa no vazio do espaço é de uma precisão silenciosa e avassaladora. Enquanto caminhamos distraídos pelas ruas, a Terra inclina-se no seu eixo cerca de vinte e três graus, ditando, sem alarde, o ritmo das nossas vidas. Nesse movimento exato, há um instante em que um continente se entrega por inteiro ao abraço solar — como acontece com o Brasil — enquanto a Europa se retrai, mergulhando na sombra da sua própria inclinação.
É o solstício de inverno: o momento da noite mais longa e do dia mais curto, quando os raios solares chegam oblíquos, quase sem força para aquecer o solo. No entanto, é precisamente neste ponto de máxima escuridão, neste gélido domingo, 21 de dezembro de 2025, que ocorre o milagre da inversão: a luz, que parecia derrotada, começa — ainda que timidamente — a regressar.
Ao longo da história da humanidade, esta mecânica celeste nunca foi vista apenas como um dado científico, mas como um acontecimento vital de renovação. O Sol, enquanto divindade central em inúmeras culturas, determinava a sobrevivência das colheitas e da própria vida. De povos ancestrais a grandes civilizações, nasceram mitos, rituais e narrativas para celebrar este renascimento cíclico.
Não é por acaso que muitas das doutrinas que hoje conhecemos se estruturaram a partir destes ciclos astronómicos, usando a passagem das trevas para a claridade como poderosa metáfora de esperança. Como escreveu Albert Camus, é no coração do inverno que descobrimos o nosso “verão invencível” — essa força interior que nos impele a procurar a luz mesmo quando os dias são curtos e frios.
Este fenómeno funciona, assim, como espelho da condição humana, convidando-nos a uma mudança profunda do olhar. Tal como o planeta necessita deste recolhimento para voltar a florescer, também nós carecemos de um tempo de interiorização. É precisamente quando a luz exterior escasseia que ganha maior relevância a reflexão, o autoconhecimento e a procura da sabedoria.
Esta é, por isso, uma ocasião propícia a um balanço honesto: o que fizemos, o que ficou por cumprir e o que urge transformar. Platão lembrava-nos que podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a verdadeira tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz. Não devemos temer o conhecimento nem a verdade, mas usá-los como guias para o aperfeiçoamento individual que, inevitavelmente, se projeta na comunidade através da fraternidade.
Até porque o novo ciclo que se aproxima exige de nós um esforço renovado. Vivemos tempos de inquietação, marcados por conjunturas geopolíticas preocupantes, onde as trevas da intolerância parecem, por vezes, mais densas do que nunca. Estes desafios recordam-nos o dever moral de combater a ignorância, o preconceito e a indiferença, oferecendo ao mundo uma resposta fundada na justiça, na dignidade humana e na solidariedade.
Que este advento da luz não seja, pois, apenas um fenómeno astronómico, mas uma prática quotidiana. Ao celebrarmos este ponto de viragem, deixo os meus votos de um excelente Solstício de Inverno e de Boas Festas. Que o simbolismo deste momento se cumpra em cada um de nós: que a luz vença as trevas, que o conhecimento supere a ignorância e que a esperança no futuro se traduza em ações concretas de humanidade. Que o regresso gradual do Sol ilumine não só os nossos dias, mas também o caminho para um mundo mais justo e verdadeiramente unido.