Sai texto. Mesa 5.
Ainda não dá para lhes perder a conta, mas é daquelas contas que, como raras vezes se sabe de antemão, serão perdidas. Não perdidas como derrotadas (é engraçado como essa ideia não deixa de me assombrar), mas simplesmente desencontradas. Desmedidas, flutuantes, esquivas, como se algo as procurasse. A verdade delas é que ninguém as quer. Essas contas; escapam como areia entre os dedos de uma mão que nunca se quis fechar para as agarrar. São contas que fazem reféns. Que amarram e lembram, com o avanço da contagem, de que somos vulneráveis. Precisamos de mais para continuarmos bem com o que temos. Não é suficiente. A vontade de parar debaixo da sombra da bananeira surge de mansinho, mas é mesmo morrer. Não temos direito incondicional ao que somos, e se nada fizermos não ficamos iguais, perdemos.
É mais sobre medo de perder do que vontade de ganhar. No meu caso, não sei o que é sentir estar bloqueado desde que entrei nesta cisma de que não bloqueio.
– Nunca bloqueio.
A página em branco desaparece à velocidade do que encontra o que observo. E disso sou um servo, desde que experimentei o bloqueio. Só quem nunca o provou julgará mal a minha servidão. A ignorância dessa opinião vale o que me ensinaram na escola sobre como escrever qualquer texto: introdução, desenvolvimento, conclusão. Como pode valer alguma coisa qualquer tempo perdido a atrasar conclusões? Se se vê o que se vê, conclui-se o que há para concluir. O resto, o texto resolve. Mas é exigida rebeldia para essa façanha, e nisso conclui-se apreço à coragem.
Há força na eloquência, mas o que escrevo não é uma ilha. Quem me rodeia aparece comigo nos meus textos. Quem não me rodeia também haverá de se encontrar. Numa contagem desta estirpe, inexorável e sem fim à vista, ao conseguir sair ileso apresenta-se um humanoide, porque de outra forma significaria a falha da minha observação.
Nada fiz para escrever assim. Nada fiz pela enorme listagem de coisas que me permitem fazê-lo. Ver como vejo. Lembrar, mais tarde, o que se viveu. Às vezes muito mais tarde e com muito mais força. É aí que examino os traços, os gestos, o tom e a vibração. Depois lembro-me que nunca bloqueio e atiro para o papel o dom que me foi dado por elementos que não quero explorar agora.
Por isso sei que esta contagem nunca vai parar. Nesta ou noutra plataforma, tenha ou não plataforma, escreverei crónicas e mais o que me apetecer. Não para os leitores, mas pelo autor, que não tem outro remédio.