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Raul Brandão - duas obras centenárias (I) - As ilhas desconhecidas

Álvaro Manuel Nunes
Opinião \ terça-feira, fevereiro 24, 2026
© Direitos reservados
A ilha do Corvo, a mais pequena dos Açores, na qual Mouzinho da Silveira deseja que o seu corpo seja sepultado, é a primeira paragem e visita efetiva.

Em 1926, há 100 anos, Raul Brandão publicou duas obras literárias dignas de registo: “As Ilhas Desconhecidas - Notas de Paisagem” e “A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore”. Deste modo, em mais um aniversário do seu nascimento (12 de Março de 1867), recordemos esse legado.

Dedicada “aos meus amigos dos Açores”, nesta obra intitulada “As Ilhas Desconhecidas - Notas e paisagens”, Raul Brandão relata a sua viagem aos Açores e à Madeira, em companhia da esposa Maria Angelina e amigos, como Vitorino Nemésio e Leite de Vasconcelos.  Uma viagem, realizada a bordo do paquete S. Miguel, entre 8 de Junho e 29 de Agosto de 1924, que narra e descreve essa visita afetiva, que apenas seria publicada em 1926, com base nas notas de viagem do escritor, como ele próprio sintetiza “Em três linhas”, na introdução da sua obra:

“Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura à primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial da marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha. Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nos leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos! ...” 

De facto, considerado um dos melhores exemplares da literatura de viagens portuguesa, esta viagem física e literária proporciona-nos a faceta apolínea, solar e otimista de Raul Brandão, em oposição à sua perspetiva mais dionísica, sombria e pessimista que perpassa em “A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore”, publicada neste mesmo ano, que em próximo artigo abordaremos.

Com efeito, duas obras literária e perspetivas do subjetivismo: a primeira de cariz  impressionista e atlântica,  focalizada na captura da luz e cores naturais e impressões momentâneas, por vezes fugazes, em vez  dos detalhes realistas e contornos precisos, que criam uma vibração visual; a segunda mais expressionista, mais focada nos sentimentos e emoções e temas sombrios, como a miséria e a morte,  que em vez  da representação objetiva da realidade busca a sua deformação e o grotesco,  mostrando o pessimismo, a frustração e as angústias existenciais.

Em ambas as obras centenárias, porém, o humanista de sempre e sentido de comiseração pelos desfavorecidos e marginalizados por parte de Raul Brandão, que explora magistralmente em sua criação literária as dualidades luz/sombra e sonho/realidade.

Mas subamos a bordo e zarpemos ...

A obra “As Ilhas Desconhecidas” são uma obra de prosa poética de um certo hibridismo narrativo, que concilia sagazmente o diário, a crónica, a narrativa de viagens e a reflexão filosófica.  Uma narrativa que, como poucas, pinta por palavras coloridas a policromia da beleza açoriana e madeirense, mas também as suas gentes, com os pés assentes na terra e mar à vista, numa simbiose vivenciada entre a natureza mística, mágica e misteriosa, a história e a tradição, quer “retratando” o isolamento quer a singularidade da vida insular e o seu quotidiano.

Uma viagem de cerca de três meses, que tem como primeira etapa a deslocação de Lisboa ao Corvo, com posteriores aportações nesta ilha e na “Floresta Adormecida” (Flores), cuja navegação sulca Atlântico fora até às Hortas, “A Ilha Azul”. Uma rota que desde a partida passa também pelos lugares da interioridade e os sentimentos humanísticos do narrador-viajante, como é evidente nesta passagem em que desce à casa de máquinas do navio S. Miguel, o Hotel Francfort brandoniano:

“A tragédia do navio que se transformou em máquina está aqui:  para que o hotel viva, digira e se mova, é preciso que alguém sofra (...) Enquanto lá em cima todos nós vivemos no Hotel Francfort de Santa Justa, os outros cá em baixo vivem no Inferno.”

A ilha do Corvo, a mais pequena dos Açores, na qual Mouzinho da Silveira deseja que o seu corpo seja sepultado, é a primeira paragem e visita efetiva. Uma ilha na qual “não há mercado nem estalagem. Não há médico, nem botica, nem cadeia e as portas não têm chave”. Um rincão insular onde “não há ricos nem há pobres (...) não há desgraçado sem abrigo e ninguém pede esmola. Se um adoce os outros lavram-lhe as terras”.

Um espaço quase edénico de “leite perfumado” que se ordenha duas vezes por dia - se mama o leite, como eles dizem - em que “é grande a convivência entre estes homens e os animais. Comunicação tão fácil com os bichos que só devia ser assim no princípio do mundo.”

Outrossim, uma ilha da solidariedade. De facto, como conta o narrador-viajante, “quando um corvino morre, quatro vizinhos encarregam-se de lhe abrir uma cova e levar o caixão - que serve para todos - até ao cemitério (...) Nunca vi como nesta ilha tão extraordinário sentimento de igualdade. O Corvo é uma democracia cristã de lavradores”. Democracia, como adiante especifica, em que “toda a gente se submete às deliberações dos velhos e do padre”, na qual, porém “o sentimento de propriedade é levado ao último extremo, até ao ponto de se dividirem as ruas por cancelas e os campos de meia dúzia de metros quadrados por muros de pedra solta. Só há um vestígio de comunismo (...) a lã, que foi comum, ainda hoje é tosquiada em comum. E o dia do fio subsiste. Na última segunda-feira de Abril e e na última semana de Setembro”    

O Corvo dá ainda azo ao voo e conversa com os seus moradores, que recordam os tempos da fome, quando a ilha “andava avexada e pagava quarenta móios de trigo e oitenta réis em dinheiro ao senhorio de Lisboa”. Tempos em que “o mais que se comia era junça, uma planta que dá uma semente pequena debaixo de terra, de que se alimentavam os porcos” 

De facto, como conta o velho açoriano Manuel Tomás, “não havia dinheiro. Não se vendia nada nada, trocava-se tudo. Quem tinha uma casa a fazer, tocava o sino e a casa fazia-se num instante”.

Logo, anotações que para além da beleza da paisagem, deambulam antropologicamente pelo casamento, pelo mundo do trabalho (“os rapazes embarcam no contrato de baleia e as mulheres e os velhos é que faziam as terras”) ,  pela emigração, pela fauna piscícola, pelos cantos:

“Ó minhas vacas lavradas

Quando vão pr’a sarradela

Dão meia canada de leite

Mas não cabe na panela ...

E bem gordos bem formosos

Os bezerros atrás delas... “

 

De facto, como diz o narrador-viajante “o Corvo é um mundo”.

Mas há outros mundos no arquipélago e na viagem. Há “A Floresta Adormecida”, ou a ilha das Flores, dos campos de milho, de batata-doce e inhames e fundamentalmente do pasto, regado pelo céu, que dá leite e manteiga. Uma ilha de devoção pelo Santo Espírito, que como a denominação indicia é também santificada na beleza paisagística, panteística e singular.

Entrementes, quinze dias depois, o gajeiro gritaria “Horta à vista”! É a “Ilha Azul” do arquipélago em cujas colinas “alguns moinhos holandeses batem suas asas” , enquanto nos vales se espraiam os campos como mantas de retalhos de verdes de várias cambiantes e tonalidades e nos caminhos percorridos e floridos se sente sinestesicamente os tons de azul-ferrete das hortenses e a frescuras da sua fragância,

É, porém, no Pico que o narrador-viajante atinge a êxtase e o pico da emoção, considerando a ilha a mais bela e extraordinária. Aliás, escreve hiperbolicamente: “é mais do que uma ilha -, é uma estátua erguida até ao céu e moldado pelo fogo -, é outro Adamastor como o do cabo das Tormentas.

Ademais, como é lógico na ilha baleeira, assume também proporções épico-picarescas “A Pesca da Baleia”. Assim, nos conta o narrador-viajante:

Nas Lajes, noutro dia, saía o enterro dum baleeiro morto no mar, quando do Alto da Forca anunciaram o bicho. Ia tudo compungido (... ) e logo a marcha compassada parou e mudaram instantaneamente de atitude: ficou só o padre com latim engasgado e o caixão no meio da rua”.

De seguida, a viagem pausaria assim um pouco para recuperar o fôlego e ouvir histórias de “Homens e Barcos”. Estórias de “homens excelentes” que ficaram pelas ilhas ou emigraram para as Américas, ou ainda navegavam de cabotagem entre ilhas, enfrentando os ciclones e os maus ventos como o” vento de leste que não dá nada que preste”. Homens simples, mas robustos, crentes que “casar tarde, enviuvar cedo, não comer salgado nem azedo” são condições “sine qua non” para manter a força juvenil.

A navegação prossegue posteriormente em finais de Julho pela Ilha de S. Miguel e pelas maravilhas das “Sete Cidades e Furnas” que  deslumbram o narrador-viajante, ao ponto de quase ter medo de falar do que vislumbra,  por lhe parecer irreal; e avança seguidamente  pelo Atlântico fora pelo canal revolto do Faial para o Corvo, rumo à Madeira.  Uma ilha de deslumbrante “azul magnético”, que, contudo, na perspetiva do narrador-pintor “é um cenário e pouco mais que que cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo que lhe não cheira a inglês (...) Estou muito longe daquela gente simples, daqueles homens são de quem me apartei com saudade.”

O narrador-viajante deixara a alma noutras águas, que mais tarde Manuel Alegre assim cantaria:

Atlântico até onde chega o olhar

E o resto é lava

E flores  

Não há palavras

Com tanto mar

Como a palavra Açores.”

Açores, recordo, é também a terra de José Silveira Júnior, jogador futebol e defesa-central do Vitória Sport Clube durante 12 épocas, entre 1952 e 1964, conhecido pela alcunha de “Chinchinha”. Caoitão da equipa efetuou entre nós 339 jogos e faturou 17 golos, notabilizando-se como um excelente central que o levaria a uma convocação para seleção nacional em 1959.  Curiosamente, um açoriano nascido em 26 de Setembro de 1926, também há 100 anos, acarinhado na cidade, na qual além de jogador de futebol foi também funcionário camarário.

Prometemos voltar a estas duas obras centenárias brandonianas, na circunstância “A Morte do Palhaço”.

Boa leitura e/ou boa viagem, que se recomenda .... 

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