Que coisa é esta do ser-se algo?
Já aproveitei este espaço de opinião para manifestar o apreço que tenho pelos clubes históricos do nosso futebol, aqueles que transportam na sua génese grandes bases de apoio popular e que fazem parte do imaginário dos adeptos do futebol em Portugal. Claro que há três clubes que acabam, pela sua dimensão nacional, por se destacar dos restantes mas depois segue-se um pelotão de outros emblemas que deveriam, para bem da competitividade do futebol em Portugal, ter outra dimensão económico-financeira que lhes permitisse ombrear de forma mais regular com o triunvirato da frente. Serve este introito para refletir sobre o que desta vez queria partilhar consigo.
Em termos comunicacionais somos frequentemente confrontados com novas expressões, novos conceitos que treinadores e jogadores introduzem naquilo a que comummente designamos por ‘futebolês’.
É corriqueiro ouvirmos os protagonistas, essencialmente treinadores, a dizer que a equipa tem de “Ser Vitória”, “Ser Braga”, “Ser Porto”, “Ser Benfica”, “Ser Sporting” ou outro clube qualquer.
Mas, afinal, o que é ser deste ou daquele clube?
Acredito que qualquer um destes treinadores quando usa esta expressão está a dizer que os seus jogadores entrarão em campo com raça, entrega total, vão suar a camisola, nunca desistirão, estarão unidos em campo, etc. etc.
Mas estas características não são intrínsecas a todos os clubes? Será que os adeptos do Arouca, do Moreirense, do Aves, do Farense e dos outros não sentem que o “jogar à” moda desses clubes não é com estes atributos.
Claro que sim. Esta é uma expressão oca de significado porque encaixa em qualquer emblema, desde as ligas profissionais aos jogos de amadores.
Coisa diferente é apelar-se ao espírito de clube no que concerne àquilo que os rodeia. A tal base de apoio que surge nas bancadas. Um jogador do Vitória, por exemplo, que entra em campo com 20 mil nas bancadas ou que joga fora de casa como se estivesse em Guimarães não pode sentir o mesmo que um jogador de um clube que joga em casa com 700 ou 800 adeptos e, fora, com meia dúzia.
Aqui sim, em nome da paixão dos adeptos, deve apelar-se à galvanização dos atletas. Agora o jogar à isto ou aquilo, o ser-se A ou B, encaixa em qualquer cenário e, em termos comunicacionais, de pouco ou nada serve.
O discurso no futebol é muitas vezes redondo mas assim torna-se bastante bicudo.