Os Jogos Olímpicos: a sua promessa e a sua realização
Aguiar-Conraria, cronista habitual do Expresso (e que gosto de ler com muita atenção),escreveu um artigo sobre o investimento olímpico, no dia 30 de agosto de 2024, p. 73 do Primeiro Caderno do mesmo semanário. Neste defende que os atletas e as coletividades devem encontrar as suas próprias receitas e fazer os seus investimentos. Será mesmo assim?Começando por escrever que de 4 em 4 anos “percebemos o pouco que investimos no desporto que não o futebol”, e descreve este sentimento como uma “lamúria (d)o desporto nacional”. E,com o mercado (que parece servir para tudo), apresenta a via para valorizar “quem é bom em atividades que ninguém quer saber”. Por exemplo o Madison e o Omnium. E, com aquilo que entendo ser a sua conclusão – “O que não faz sentido é fazermos de conta que valorizamos muito estas atividades e depois achar que é o Estado, com o dinheiro obtido coercivamente junto dos contribuintes, que as deve apoiar generosamente”. Porém, o desporto não é, segundo a constituição portuguesa de 1976, um bem a promover? Nós abemos que o “Orçamento de Estado é um jogo de soma nula”, mas não dá ele para tanta coisa, mais ou menos importante que o desporto, e ninguém quer saber se os portugueses sabem ou não onde o gastaram? Ser humanidade não se esgota em comer e beber; ser humanidade é também música, literatura, arte, …, e desporto. De sobremaneira quando são fautores de valores que humanizam o homem e a mulher concretos. A utilidade do inútil, que não se soma em valores numerários, mas sim em sociedade e convivência. E, por isso mesmo, concordo com a sua afirmação final – “Do ponto de vista da utilidade social, investir nos Jogos Paralímpicos é” muito importante, contudo não exclui que os investimentos no desporto, olímpicos ou não, sejam um desperdício do bem público e social, constituídos pela individualidade de cada ser humano, que os praticam e deles usufruem. Veja-se o caso da Noruega, que com uma filosofia essencial que define o desporto para todos e todas, e nas suas comunidades locais, obtém para a sua sociedade uma mais-valia. Aqui, mais do que a competição, promove-se um ambiente de alegria, de inclusão e de desenvolvimento a longo prazo. Quer na sua vertente lúdica, quer na sua vertente formativa, pois é um direito básico.
Todos os desportos, como Jogo que são, são mais-valias para a pessoa humana e para a sociedade. Os desportos e a prática de atividade física, sejam quais sejam, promovem a saúde física, mental e social. Desde do futebol, desporto por excelência em Portugal, à modalidademais desconhecida da grande maioria, são promotores de valores que constroem o lugar comum em que somos chamados a morar. E o Olimpo é uma altíssima montanha para escalar, com muito esforço e resiliência, pois a morada dos deuses define-se pela inacessibilidade. Equem lá consegue entrar sabe que será sempre efémera e seletiva a sua estadia. Enfim, uma luta no sentido do que mais nobre significa o conceito em si – em latim lucta, combate/esforço, e historicamente refere-se a um confronto físico ou verbal entre duas ou mais pessoas, podendo mesmo ser praticada como jogo, ou desporto e atividade física; mas também como forma de resistência e de protesto, e hoje pode compreender esforços mentais, morais e sociais, e mesmodesafios pessoais e coletivos. Ora baixar os braços nunca será opção para os praticantes e atletas portugueses dos diversos desportos e modalidades. Em todas as suas formas isto é verdade, mas de sobremaneira o é nos desportos e modalidades paralímpicas, onde sacrifício, dedicação e cedências, como compromisso, são desenvolvidos ao longo de semanas e anos de treinos intensos, e de entrega com esforço e perseverança. Os Jogos Olímpicos ou Paralímpicossão o momento do auge dos atletas, física e mentalmente preparados para a glória (morarem com os deuses). E na vertente do desporto adaptado, que é o que celebra os Jogos Paralímpicos, revela como é um a mais-valia para Portugal, e pra os portugueses, praticantes ou não de desporto e atividade física. E aqui o desporto cresce e os seus praticantes conseguem objetivos que antes pensávamos reservados ao do costume. Estas são mulheres e homens que enfrentamdificuldades acrescidas, pois terão de ultrapassar obstáculos estruturais, monetários e de acessibilidade. Barreiras a que, não raras vezes, encontram na família e nas escolas. Ou na sociedade em geral.
Nas últimas décadas o desporto português revela uma vitalidade que, em geral, comprova uma nova visão sobre o valor humano, cultural e social do Jogo, como desporto e atividade física. Um valor fundamental na construção de uma sociedade mais saudável e mais convivente. A vitória da Seleção Nacional de Futebol, sobretudo no Europeu de 2016, e o aumento de medalhas em todas as modalidades, quer em Campeonatos Europeus, do Mundo e Jogos, sejam competições diversas, quer Olímpicos ou Paralímpicos, são, igualmente, prova do crescimento e maior valoração do Jogo entre nós. E o trabalho das federações, e organismos nacionais, têm feito um labor meritório que permite estes resultados, que mesmo que não sejam económico-financeiros, nos levantam o ânimo e o ego. Tem combatido, com esta cultura desportiva, como mais nada o tem conseguido, o pessimismo e derrotismos de tantos e tantas portuguesas. Nós também somos inteligentes, e capazes de resultados bons e excelentes, e o desporto, cumprindo o seu papel desde a Grécia Antiga, prova à saciedade que também somos vencedores na epopeia da história da nossa Pátria. Bem o dizia o Presidente da Confederação de Desporto de Portugal, Daniel Monteiro, em março de 2025 – “A verdade é que o nosso país tem talento em muitas áreas, mas particularmente no desporto”. E o inútil manifesta, então, a sua profunda utilidade, exigindo de Portugal uma mais e melhor projeção e investimento (um investimento sólido na base, que cabe ao erário público, para promover o bem-estar dos seus cidadãos, alcançando um universo de praticantes mais alargado). Bem como as escolas, desde e nas escolas, sejam o lugar por excelência da prática desportiva e da atividade física, que promovam o bem-estar de uma secular Pátria, que, infelizmente, ainda resta nela muitos descendentes do velho do Restelo. O olimpismo, que em 1906, no Dr. António Leandro, médico da Casa Real Portuguesa, e primeiro português nomeado para o Comité Olímpico Internacional, foi alguém que soube perceber a mais-valia do desporto para a sociedade. OComité Olímpico Português, que de facto em 1912 se tornou uma realidade, já na República (em 1992 foi rebatizado de Comité Olímpico de Portugal), é quem gere e promove o espírito olímpico entre nós, constituindo, organizando e dirigindo a delegação portuguesa nos Jogos Olímpicos. Bem como a ajuda do Instituto Português do desporto e o Comité Paralímpico de Portugal devem promover e organizar esta cultura desportiva. Fernando Gomes, ex-presidente da Federação Portuguesa de Futebol, é em 2026 o presidente do Comité Olímpico de Portugal, e aguardo que ele cumpra as suas promessas das eleições de 2025: a rede do olimpismo em Portugal, os sistemas de apoio personalizados física, mental, social e educacional, e criar o ecossistema de alta performance que permita aos atletas competir e vencer em qualquer palco internacional. O desporto merece, como dado cultural essencial, os apoios que as leis portuguesas definem em democracia.
Guimarães, 10 de março de 2026
Pe Doutor Francisco de Oliveira