Os Jogos Olímpicos: a sua promessa e a sua realização
No outono de 2014, após o The New York Times ter publicado um breve ensaio sobre a estrita necessidade de renovar os Jogos Olímpicos, muitos reagiram ao mesmo, mas fazendo o de sempre: vamos ouvir! E quais as consequências desse “vamos ouvir”? Eis a questão…O de sempre – precisamos de prudência e cautela, pois os interesses são mais que muitos, e sem dinheiro nada se faz. Este é o famoso jogo de empurra, onde tudo fica como desde dos tempos imemoriais…. Sim, o do costume, o dinheiro, o poder e a vaidade. A democracia e a transparência não jogam com os interesses dos que presidem e organizam os Jogos Olímpicos, e, igualmente, muitos outros jogos. Começa, logo, na elaboração de falsos e reduzidos orçamentos, com o único propósito de apoio público, que assegura a candidatura da cidade ou cidades anfitriãs. E, como se vem repetindo, os valores previstos são sempre (muito) abaixo do realizado e as promessas, sociais e ecológicas, e outras, ficam sempre (muito) aquém do desejado. Uma autêntica economia do rascunho. Embora, e sejamos justos, o COI está sempre mais disposto às reformas que os pântanos da FIFA e da UEFA. Mas uma coisa são as intenções e outra as ações. Logo, a questão é saber que tipo de ações estão dispostos a levar a cabo os barões dos Jogos Olímpicos hodiernos. Talvez, e escrevo-o com profunda infelicidade, tenha de concluir com Jules Boykoff que “os dirigentes desportivos farão tudo o que estiver ao seu alcance para reduzirem o leque de possibilidades de reforma, avançando com as alterações de grau mais superficial possível. A aparência de mudança pode ser suficiente, permitindo que o modelo de negócio predatório e extrativo continue inabalável” (p. 271). Ou, como escreveu no The Guardian, Owen Gibson – “o caldo superficial e banal daquilo que se designa por diplomacia desportiva internacional”.
Esta suposta hegemonia, que favorece sempre os mesmos e os negócios opacos, urge ser vencida. E, quando Tony Estanguet anunciou que os Jogos de Verão de 2024 em Paris seriam completamente diferentes dos anteriores, estava, quer explicita, quer implicitamente, a reconhecer que como as coisas estavam até essa data não eram as melhores e que tínhamos de enfrentar um sério problema de relações públicas. Será que isto significa, ou poderá vir a significar, que iremos inverter a lógica do negócio, focada no lucro e no enriquecimento das instituições organizadoras e dos ses sequazes? Ou, será mais do mesmo? Que esta proposta de romper com o passado seja, de facto uma rutura com o passado mais recente, e um real retorno aos valores do jogo, como entendidos desde a Grécia Antiga, e vivenciados com o espírito da Modernidade, promotor da igualdade, da liberdade e da fraternidade dos povos, dos homens e das mulheres, onde nem o sexismo, nem o racismo ou todas as outras fobias que hoje se colocam diante de nós, impeçam a vivência real e ideal do espírito do jogo. E que os anéis olímpicos, entrelaçados das cores diversas, expressão gráfica da sua universalidade, sejam a promessa e a realização cumprida no jogo, quer como desporto, quer como atividade física. Nós sabemos que o orçamento de Paris 2024 foi superado, pois a economia de rascunho continua, e a dívida deixada à cidade e aos cidadãos será da sua responsabilidade. Será que não percebem, ou não querem perceber, que estão a matar o espírito olímpico?! Talvez a frase de Tony Estanguet seja emblemática: “Quando decidimos candidatar-nos aos Jogos, tínhamos uma ideia, uma visão: ‘Queremos que o legado seja diferente’”. Contudo, desde o salário deste senhor, às competições que se realizaram em lugares distantes da França continental, aos desportos no rio Sena, tudo deixava esperar o pior. Portanto, o legado parece ser igual a tantos outros, que, ao longo dos tempos, vão desprestigiando os Jogos Olímpicos. Ou, será que a resposta está no que Stuart Hill apelidou de resistências imaginativas, nesta sociedade onde o capitalismo, que deu tanta riqueza ao Ocidente, hoje mata (a famosa economia que o Papa Francisco denunciou, ou seja, o “novo” capitalismo financeiro)?!
O jornal Expresso, de 26 de julho de 2024, apelidou estes jogos, num suplemento especial de VIII páginas, de Luzes e Sombras dos Jogos do Regresso, que pela terceira vez se realizam em Paris. Os primeiros foram em 1900 e os segundos em 1924, depois da I Grande Guerra. O diretor-executivo, Étienne Thobois, pede que seja uma grande festa, onde tudo concorra para que sejam os “Jogos do retorno da normalidade, de uma pureza desportiva e, lá está, festiva” (p. I). E a nova doença do mundo, os ataques terroristas, que servem para tudo ser permitido a quem organiza, com a subsequente resposta de um estado policial, de alta segurança e em estado de sítio, e os atropelos ao estado de direito para garantir o suposto risco zero. Para quem? Para os atletas, para o público, ou, para salvaguardar o lucro do negócio a repartir pelos do costume?! Mas todos sabemos que é para calar os que contestam (apelidados de ativistas) os Jogos pela forma como se organizam e se realizam, traindo a sua promessa de sempre. E a guerra da Ucrânia? E os direitos humanos violentados desde a poderosa China aos países do Golfo Pérsico? E o ataque às populações indígenas no Brasil e na restante américa latina? E as políticas erráticas do sr. Trump e companhia limitada? E os maus tratos dos animais em todo o planeta? E, e, e… São tantos os assuntos a que o COI continua a virar as costas, com o falso pretexto de que tem de ficar à margem da política! E as alterações climáticas, também é política? Claro! Mas tudo é política, e até o desporto é política! Porém a hipocrisia é o guarda chuva dos que ganham qualquer (melhor, muita) coisa com o negócio do jogo. Veja-se o caso escandaloso de doping da equipa chinesa de natação. Bastou desculpasse com a comida estragada do hotel, e, logo, a Agência Internacional Antidoping, aceitando estas explicações – de meninos que não fizeram os trabalhos de casa –, e com a promessa por parte da Agência de que haverá controlo mais apertado em Paris, 11 dos 23 nadadores apanhados estarão presentes no Jogo Olímpicos de Paris. Como diz o ditado português, quem pode, pode. Ah, não esquecer, o negócio é agora o valor maior dos Jogos.
(Continua...)
Guimarães, 13 de fevereiro de 2026
Pe Doutor Francisco de Oliveira