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O gosto também se aprende

José Bastos
Opinião \ terça-feira, julho 28, 2026
© Direitos reservados
Quando a política deixa de confiar na inteligência dos cidadãos e passa a acreditar que a sua função consiste apenas em confirmar gostos já instalados, abdica da sua verdadeira missão.

Há muitos anos que uma ideia de Rui Vieira Nery me acompanha e continua a resumir aquilo em que acredito sobre o papel da cultura e das políticas públicas: "Uma das consequências mais dramáticas da carência cultural é, de resto, a inconsciência de si própria que ela gera nas suas primeiras e principais vítimas (...) O que é verdade é que não se pode sentir a falta do que não se conhece."

É difícil encontrar uma definição mais clara da missão do serviço público cultural.

A cultura pública não existe para oferecer apenas aquilo que já sabemos que o público gosta. Existe, sobretudo, para tornar possível o encontro com aquilo que o público ainda não conhece; com aquilo que talvez nunca procurasse por iniciativa própria; com aquilo que desafia, inquieta, transforma e faz crescer.

É essa, afinal, a diferença entre uma política cultural e uma estratégia de entretenimento. O entretenimento procura responder ao gosto existente. A política cultural tem também a responsabilidade de formar gosto, de despertar curiosidade, de alargar horizontes e de criar novos públicos.

Foi esse princípio que inspirou, durante décadas, a construção do projeto cultural de Guimarães. Foi essa a ambição que presidiu ao crescimento d'A Oficina, à afirmação do Centro Cultural Vila Flor, do Guimarães Jazz, do Guidance, do Centro Internacional das Artes José de Guimarães e de tantos outros projetos que fizeram da cultura um verdadeiro instrumento de desenvolvimento humano, social e económico.

Esse percurso não resulta de uma teoria. Resulta de uma experiência construída ao longo de décadas, da qual tive o privilégio de fazer parte. E é precisamente por isso que me preocupa assistir ao aparecimento de uma narrativa que procura apresentar esse caminho como sinónimo de elitismo.

As recentes declarações públicas sobre o alegado fim da "cultura do gosto" e a possibilidade de equipamentos como o Centro Cultural Vila Flor passarem a orientar a sua programação por uma lógica de entretenimento justificam uma reflexão séria. Não porque alguém discorde da existência de programação popular. Bem pelo contrário.

A questão é outra.

A questão é que se procura construir uma falsa narrativa segundo a qual Guimarães teria vivido, até agora, fechada sobre uma cultura para poucos, distante das pessoas e incapaz de mobilizar grandes públicos.

Nada está mais distante da realidade.

Guimarães sempre teve programação para todos os públicos, para todos os gostos e em todos os lugares. Houve grandes concertos em espaço público, festivais de verão, animação de rua, programação familiar, iniciativas descentralizadas, grandes espetáculos gratuitos e eventos capazes de reunir dezenas de milhares de pessoas. Não foi nenhum iluminado que descobriu, em 2026, que a cultura também pode acontecer na rua.

Não foi agora que se percebeu que uma praça cheia pode ser um extraordinário espaço de encontro coletivo.

A Noite Branca regressou e ainda bem que regressou.

João Baião apresentou-se no Centro Cultural Vila Flor e isso, por si só, não tem absolutamente nada de errado.

Nem nunca teve.

O problema nunca foi esse.

O problema começa quando se confundem as coisas. Cada programação tem uma missão.

Cada equipamento tem uma identidade. Cada espaço tem uma vocação.

Cada coisa no seu lugar. Cada coisa no seu tempo. Cada coisa no seu contexto.

Um centro cultural não existe para competir com uma festa popular. Um museu não existe para competir com um recinto de espetáculos. Um festival de jazz não existe para competir com um concerto de música ligeira. Cada um responde a objetivos diferentes e é precisamente essa diversidade que faz a riqueza cultural de uma cidade.

George Steiner defendia que a cultura começa precisamente quando aceitamos o desafio daquilo que ainda não compreendemos. A grande obra de arte não existe para confirmar aquilo que já sabemos ou aquilo de que já gostamos. Existe para ampliar o nosso mundo, para nos deslocar do conforto, para nos ensinar a olhar de outra maneira.

É por isso que o chamado "elitismo" merece ser libertado da caricatura em que tantas vezes é colocado.

Se elitismo significar acreditar que qualquer cidadão, independentemente da sua origem, da sua condição económica ou da sua formação, tem direito ao melhor que a criação artística é capaz de oferecer, então esse elitismo não é um defeito.

É uma utopia democrática.

Porque acredita que todos podem chegar mais longe. Porque recusa tratar o público como incapaz.

Porque confia na inteligência das pessoas.

A verdadeira democratização da cultura nunca consistiu em baixar a fasquia. Consistiu sempre em aproximar todos da excelência.

É curioso verificar que esta falsa oposição entre cultura popular e cultura exigente surge precisamente numa cidade que demonstrou, durante décadas, que ambas podem coexistir.

Guimarães nunca precisou de escolher entre um concerto para milhares de pessoas numa praça pública e um espetáculo de dança contemporânea no Centro Cultural Vila Flor.

Nunca precisou de escolher entre o Guimarães Jazz e uma festa popular.

Nunca precisou de escolher entre programação internacional e participação comunitária.

Nunca precisou porque compreendeu que uma política cultural inteligente não elimina diferenças; organiza-as, valoriza-as e coloca cada uma ao serviço do bem comum.

Levada às últimas consequências, a lógica agora apresentada conduz inevitavelmente ao absurdo.

Se o critério passar a ser apenas aquilo que reúne mais público ou aquilo que corresponde ao gosto mais imediato, então porque não pedir ao Cineclube de Guimarães que deixe de programar O Estrangeiro, de François Ozon, uma reflexão sobre a condição humana, a diferença e a dificuldade de compreender quem vê o mundo de outra forma, Divina Comédia, de Ali Asgari, uma poderosa alegoria sobre a censura, a liberdade artística e a relação entre poder e criação, ou O Bolo do Presidente, de Hasan Hadi, uma sátira sobre o autoritarismo, a propaganda e a forma como os regimes moldam comportamentos, para passar a exibir O Curral de Moinas – Os Banqueiros do Povo, Podia Ter Esperado por Agosto ou Balas & Bolinhos: Só Mais Uma Coisa?

Não porque estes últimos filmes não tenham o seu mérito, têm-no, e o enorme sucesso junto do público demonstra-o, mas porque essa não é, nem nunca foi, a missão de um cineclube.

Há, aliás, uma ironia difícil de ignorar. Vista à distância, quase parece que o programador do Cineclube antecipou este debate. Sem o saber, escolheu três filmes que, por caminhos muito diferentes, acabam por falar precisamente daquilo que hoje discutimos: o valor da liberdade artística, o confronto com o diferente e a necessidade de uma cultura que nos desafie a pensar para além das nossas certezas. Porque não substituir uma exposição de arte contemporânea por uma mostra de cartazes de bilheteira?

Porque não transformar um centro cultural num prolongamento da televisão? O absurdo da pergunta revela o absurdo da resposta.

A cultura pública não existe para eliminar a diversidade em nome da popularidade. Existe para garantir que uma comunidade possa encontrar, ao mesmo tempo, aquilo que já ama e aquilo que ainda não descobriu que pode amar.

O contrário do elitismo nunca foi a democracia cultural. Demasiadas vezes foi apenas a demagogia cultural.

Quando a política deixa de confiar na inteligência dos cidadãos e passa a acreditar que a sua função consiste apenas em confirmar gostos já instalados, abdica da sua verdadeira missão.

A missão de uma política cultural não é seguir o gosto. É formar o gosto.

Não é limitar-se a responder à procura.

É também criar desejo, despertar curiosidade e abrir portas para mundos que o público ainda não conhece.

Porque, como escreveu Rui Vieira Nery, "não se pode sentir a falta do que não se conhece".

É essa a verdadeira missão do serviço público cultural. Não confirmar aquilo de que já gostamos.

Dar-nos a possibilidade de descobrir aquilo cuja falta ainda não sabemos sentir.

O gosto também se aprende.

José Bastos

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