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O futuro já não é o que costumava ser

Francisco Brito
Opinião \ terça-feira, dezembro 30, 2025
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A esperança da paz na Europa e no mundo, e do rápido fim dos conflitos que assolam a Ucrânia, Gaza, o Sudão e outras regiões do globo, não é previsível.

Aquilo que todos desejamos para 2026 não se vai realizar. A esperança da paz na Europa e no mundo, e do rápido fim dos conflitos que assolam a Ucrânia, Gaza, o Sudão e outras regiões do globo, não é previsível.

No que diz respeito à Ucrânia, na melhor das hipóteses teremos uma espécie de congelamento do conflito (e das suas fronteiras) o que criará uma situação de instabilidade permanente na Europa. A invasão da Ucrânia, muito embora tenha falhado os seus objetivos iniciais, representa a materialização da possibilidade de anexação de territórios pela força. O exemplo poderá ser seguido pelas grandes potências regionais e mundiais, pondo fim a um período que não foi perfeito, mas em que ainda havia algum pudor em violar o Direito Internacional e em que a conquista de territórios pela via militar era mal vista.

Para além da guerra na Ucrânia, da destruição de Gaza e das tensões crescentes em Taiwan e na Venezuela, não devemos esquecer o continente africano, onde, para além do conflito no Sudão (o pior do século XXI — com raízes antiquíssimas) e do possível recrudescimento da guerra no Tigré (Etiópia), poderá seguir-se um período de grande instabilidade em certas regiões daquele continente, com tentativas de redefinição de fronteiras, afirmação de novos nacionalismos de base étnico-religiosa, etc. Finda a colonização e a influência europeia, muitos dos países africanos são agora vítimas dos interesses russos e chineses que, a pretexto de garantirem o desenvolvimento, a estabilidade e a segurança em certos países ou regiões, exploram os recursos naturais sem que ofereçam boas contrapartidas. A recente intervenção dos EUA na Nigéria poderá indicar que os americanos se preparam para seguir o mesmo caminho.

Numa situação em que a ameaça da guerra é uma constante global, perguntamo-nos como será possível garantir a qualidade de vida das pessoas e como se desenvolverão a economia, o comércio e o acesso a dois recursos vitais (água e energia). Neste ponto, suponho que só depois de a situação entre os EUA e a China estabilizar é que poderemos perceber qual será o futuro das relações comerciais e se estas poderão ser feitas com normalidade ou apenas aproveitando ciclos curtos de estabilidade.

A tudo isto juntam-se grandes migrações de milhões de pessoas, provenientes de diferentes partes do mundo, vítimas de perseguições, da guerra e do clima, que procuram refúgio em diversas regiões do globo onde, por diversos motivos,  não são devidamente recebidas e integradas. Todo este mundo novo é cada vez mais dependente da IA e de outras inovações tecnológicas. Todos estes factores estão a fazer a mudar a relação das pessoas com trabalho, com a família e com a comunidade. Talvez por isso seja cada vez mais evidente (e talvez inevitável) o ressurgimento de um nacionalismo identitário que coloca as democracias liberais e a liberdade individual em risco.

O futuro já não é o que costumava ser (como dizia uma música antiga). Espero e desejo que, pelo menos, seja um espaço de possibilidades e não uma qualquer imposição definitiva.

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