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O fim da civilidade

Francisco Brito
Opinião \ terça-feira, maio 19, 2026
© Direitos reservados
A civilidade parece ter sido substituída por formas de agressão mascaradas de “sinceridade”, a que se juntam indignações seletivas, moralismos doentios e o alarde permanente de supostas virtudes.

Ao longo do século XIX, foram publicados diversos manuais de “civilidade”. Muito embora os manuais diferissem no conteúdo, o intuito destas publicações era o de difundir os princípios básicos deste conceito à população, com o objetivo de promover códigos sociais comuns. Numa edição de 1831 do outrora célebre “Dicionário da Língua Portugueza”, de António de Morais e Silva, podemos encontrar a seguinte definição da palavra: “Civilidade hoje significa cortesia, urbanidade; oposição à rusticidade e grosseria”. Daqui se infere que “civilidade” é aquilo a que hoje chamamos comummente “boa educação” e que, em tempos mais recuados, se misturava com a “etiqueta”.

Muito embora contivessem uma série de indicações hoje caídas em desuso, estes manuais tinham um propósito claro, como se percebe ao ler a introdução do “Manual de Civilidade e Etiqueta”, publicado em 1845 pela Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis:

“A etiqueta (…) é um muro que a boa sociedade levantou para se acobertar de quaisquer ofensas ou faltas de respeito graves, cuja pena se não acha estabelecida nas leis que regem os diferentes povos — ou, para melhor dizer, é um escudo impenetrável contra a invasão de tudo quanto é impertinente, grosseiro e vulgar; a etiqueta é, numa palavra, um seguro amparo contra os ataques de gente incivil e ignorante, que, por falta de educação, de luzes e delicadeza.”

Destes princípios gerais, extraíam-se facilmente algumas lições que agora começam a rarear na convivialidade e no debate público, das quais deixo três exemplos:

- Nunca interrompais quem estiver falando, a menos que se não apele para o vosso testemunho.”

- “Sede condescendente e benévolo para com quem falar e evitai contrariá-lo em suas opiniões, uma vez que delas vos não provenha descrédito ou prejuízo; mas, ainda quando este caso se der, usai sempre de prudência e circunspecção.”

- “Nunca façais alarde de virtude, honestidade, saber e riqueza que presumais ter; não vos dirijais aos outros em tom de autoridade (…)”.

Muito embora nunca tivessem sido inteiramente respeitadas, estas ideias básicas sobre civilidade (e etiqueta) fizeram parte e formaram as regras do convívio e do debate no espaço público. A sua difusão foi uma aposta clara num mundo mais inclusivo e aberto a todos. Hoje, este modo de estar em sociedade parece ter sido substituído por formas de agressão mascaradas de “sinceridade”, a que se juntam indignações seletivas, moralismos doentios e o alarde permanente de supostas virtudes. Isto em nada está relacionado com as falhas ocasionais próprias do ser humano (todos já as tivemos). É uma prática reiterada que constitui uma nova forma de afirmação social.

Se, nos próximos tempos, alguém se atrever a publicar um novo manual de civilidade, será, na melhor das hipóteses, classificado como “morno”, podendo depois ser desqualificado como sendo alguém “politicamente correto” ou, pior ainda, “bem-educado”. Nos dias de hoje, estes são riscos que poucos querem correr.

 

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