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O Espelho da Luz: O Racismo e o Conforto do Nosso Silêncio 

Luís Lisboa
Opinião \ sexta-feira, fevereiro 20, 2026
© Direitos reservados
O racismo sobrevive do nosso medo de ficarmos desconfortáveis. No caso de Vinícius Júnior, o futebol português preferiu proteger o silêncio do passado à voz que nos obriga a olhar para o espelho.

O que aconteceu no Estádio da Luz, no play-off da Liga dos Campeões, foi mais do que um episódio de futebol. Foi um confronto direto com o espelho. E, muitas vezes, a forma como reagimos diz mais sobre nós do que sobre o evento em si. O incidente entre Vinícius Júnior e Gianluca Prestianni, transmitido para todo o mundo, deixou rapidamente de ser um alegado insulto racial entre jogadores para se tornar um teste coletivo sobre como lidamos com o inaceitável. 

É aqui que o conceito de "fragilidade branca", explorado por Robin DiAngelo, ganha relevância. Descreve a reação defensiva que surge quando o tema do racismo nos retira da zona de conforto. Em vez de escutar, justificamos, em vez de refletir, negamos. Contudo, precisamos entender que não se trata de uma acusação individual, mas de um padrão social reproduzido e normalizado.  

Quando uma instituição como o Sport Lisboa e Benfica se apressa a proteger um atleta antes de um esclarecimento cabal, ou quando figuras como José Mourinho centram o debate no comportamento do denunciante em vez de condenarem o ato, o que se instala não é apenas uma defesa institucional. É um desconforto coletivo. Os factos exigem rigor, mas a premissa deve ser clara: a responsabilidade nunca é de quem denuncia. Questionar a vítima é a forma mais subtil de fugir à pergunta e negar a evidência. 

Mourinho evocou ainda o nome de Eusébio como quem convoca um fantasma para silenciar um homem vivo. Tentar usar o Pantera Negra como escudo de "bom comportamento" é um anacronismo perverso. Eusébio brilhou sob um regime ditatorial que não tolerava dissidências. Na verdade, o seu silêncio foi, muitas vezes, a sua única armadura de sobrevivência. Usar essa memória hoje para descredibilizar a voz de Vinícius Júnior é o exemplo perfeito da nossa fragilidade: preferimos a imagem do ídolo que não incomoda à do jogador que nos obriga à reflexão. O tempo de aceitar a humilhação em troca de uma estátua acabou. Vinícius não é obrigado a usar uma máscara branca de Fanon para nos deixar confortáveis. Ele tem o que a muitos faltou no passado: o direito e a coragem de ter voz. 

 Importa, por isso, dizer isto com serenidade: o racismo não é um penálti duvidoso que o VAR resolve, nem um mal-entendido de ocasião. É um fenómeno estrutural, cinzelado ao longo de séculos para moldar instituições, mentalidades e, acima de tudo, relações de poder. Podemos debater conceitos, mas não podemos fingir que o campo onde jogamos é neutro. 

É aqui que a nossa 'fragilidade' costuma saltar: na dificuldade em distinguir o insulto individual do racismo estrutural. O preconceito pode ser mútuo, mas o racismo exige poder e história. É por isso que chamar 'preto' a uma pessoa racializada não tem o mesmo peso, nem a mesma medida, do que chamar 'branco' a um europeu. Na palavra 'preto' ecoam séculos de dor, de escravatura e de uma tentativa sistemática de retirar a humanidade à outra pessoa.

Essa herança está viva no automatismo da nossa linguagem. A língua é um mapa: quando usamos termos como "lista negra" ou "ovelha negra" para descrever o que é ilegal ou indesejado, estamos a sedimentar a ideia de que o "negro" é o lugar do erro. Não se trata de policiar o dicionário, mas de reconhecer que as palavras não são neutras, elas carregam o peso do mundo que construímos. 

Quero acreditar que o Benfica é maior do que qualquer comunicado infeliz. Mas é precisamente essa grandeza que exige responsabilidade: negar o problema à partida não protege a instituição, pelo contrário, expõe a sua fragilidade. Este episódio é o espelho de um tempo em que discursos políticos assentes na divisão ganharam palco, normalizando a suspeita sobre imigrantes e corpos racializados. A discriminação que antes se dizia em surdina é agora gritada abertamente, no relvado e nas bancadas. Instalou-se a perigosa sensação de que o ódio pode circular de forma gratuita, basta que, no momento de disparar a alegada ofensa, se use a camisola do clube para tapar a boca e esconder a prova.

Por isso, este combate não pode ficar pelo gesto simbólico. Precisamos de aplicar de forma consistente e transparente o Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação, de rever manuais escolares, questionar narrativas históricas incompletas e retirar o preconceito dos espaços onde ele ainda se disfarça de tradição ou opinião.

Convém, por isso, dizer o óbvio: o racismo não é uma opinião, é um crime contra a humanidade. No entanto, na lei portuguesa, o racismo raramente encontra o castigo que a sua gravidade exige. Apoiar iniciativas como a petição pública do Grupo de Ação Conjunta deixa de ser, então, um mero gesto de solidariedade para passar a ser uma exigência de coerência. É preciso que a lei deixe de ser um papel cego e passe a criminalizar, de forma efetiva e sem ambiguidades, quem insiste em desumanizar a outra pessoa.

No fim, resta-nos o espelho. Podemos continuar a proteger o conforto de quem insulta, escondendo-nos atrás de burocracias e clubismos, ou podemos escolher a dignidade. Está na hora de decidirmos o que queremos salvar: o sistema que nos separa ou a humanidade que nos devia unir.

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