O Desporto Rei: Futebol, história e peripécias
Ainda me recordo quando lhe chamava o jogo da bola, onde um grupo de rapazes, sem número certo, defrontava um outro grupo de rapazes. E o chamamento era sempre o mesmo – Vamos jogar à bola?! Jogávamos nas ruas do Centro Histórico de Guimarães, ou nas suas pracetas e largos mais importantes (Largo João Franco, Largo da Oliveira, Largo Condessa do Juncal, no Passeio da Igreja de São Francisco, no Catorze, hoje Edifício São Francisco…), com a roupa de ir à escola e à missa, e no nosso tempo, sempre com bola. Muita porrada, muita canelada (ainda hoje tenho uma marca no tornozelo esquerdo, que só os caminhos de Santiago e a minha atual prática desportiva me aliviou, se é que não curou), muitos insultos e zangas, que no próximo jogo da bola estariam superados. Mas sempre com algumas vinganças! Ganhar era sempre importante, e, igualmente, reforçar laços de amizade e cumplicidade fazia de nós uma equipa. E, finalmente, ouvir a minha querida mãe, a chamar o seu menino para regressar a casa. E quantas vezes, levar uns tabefes por ter rasgado as calças, ter sido acusado de ter feito isto ou aquilo (e, não raras vezes, injustamente; contas que acertaria mais tarde com o dito meliante da minha boa honra), mas sempre premiado no fim com um lanche que só ela sabia preparar. Que saudades desse futebol, rei do nosso tempo de cachopos, onde o convívio se fazia numa rivalidade de putos a tornarem-se os homens de amanhã. E como em tudo, uns seguiriam caminhos de vida valorada, e outros caminhos com encruzilhadas muito difíceis. De uns e de outros, amigos para sempre, tenho imensas saudades de tudo o que esse tempo – maravilhoso – foi e é para mim.
Diante desta descrição pueril do jogo da bola, do futebol, é possível descortinar os valores fundamentais do futebol, a sua história e as suas peripécias. Um jogo de e em equipa, construindo frátria e laços que possam perdurar para sempre. Quer na derrota, quer na vitória. A sua simplicidade, que, hodiernamente, alguns ditos peritos tendem a complicar, permite que o rico e o pobre, o sábio e o inculto, todos e agora, finalmente, todas o possam jogar e conversar – não raramente, calorosamente – com os mais empenhados e sui generis argumentos. E, por último, qualquer lugar, com mais ou menos condições, com dois paus ao alto ou duas pedras, ou mesmo, 4 sapatos, fazem a baliza que todos procuram para fazer o mais belo do jogo – o golo. E a explosão de alegria, ou a tristeza de uns, resume-se a uma nova marcação de jogo. E, ao fim de tantos encontros, e com os anos a passar, o que fica é uma amizade de recordações que aquecem os corações dos que antes aqueceram os músculos e a mente. O Papa Leão XIV, no discurso aos atletas dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Milão-Cortina 2026, descreveu em alguns pontos estes traços e valores fundamentais de todos os jogos. Assim,
- “o desporto, quando se vive de maneira autêntica, não é somente uma atuação: é uma forma de linguagem, uma história feita de gestos, de esforço, de expetativas, de quedas e de novos começos”;
- “o seu espírito de equipa recorda-nos que ninguém ganha sozinho, porque por detrás de cada vitória existem muitas pessoas envolvidas, desde a família até à equipa, bem como muitos dias de treino, de pressão e de solidão”;
- “contribui para a maturação do nosso caráter, exige uma espiritualidade firme e é uma forma fecunda de educação. Pelo desporto aprende-se a conhecer o próprio corpo sem idolatrá-lo, a controlar emoções, a competir sem perder o sentido de fraternidade, a aceitar a derrota sem desespero e a vitória sem arrogância”;
- “o desporto é autêntico quando se mantém humano, (…) fiel à sua vocação primeira: ser escola de vida e de talento”;
- “é a ‘vida em abundância’ (cf. Jo 10,10) (…), uma vida na qual a corporeidade e a interioridade encontram harmonia”;
- “o desporto pode e deve converter-se verdadeiramente num espaço de encontro”.
Contudo, continua o Papa, o desporto também pode ter um lado negativo, que o apresenta como “o desporto também contém tentações”. E denuncia aquelas tentações que destroçam os valores e a vivência do que antes apelidou de desporto autêntico. Por exemplo, o ganhar e obter resultados ou rendimento a qualquer preço. E para o alcançar usar meios ilícitos como o doping. Ou, outro exemplo, o lucro, “que transforma o jogo em mercado e o desportista num ídolo/vedeta”. E, conclui o Papa afirmando de “que se pode ganhar sem humilhar”, e de “que se pode perder sem perder-se a si próprio”. E assim, o jogo pode converter-se “num laboratório de humanidade reconciliada, onde a diversidade não é uma ameaça, mas uma riqueza”.
Mas, neste tempo em que se aproxima o Mundial 2026, nos Estados Unidos da América, no México e no Canadá, e recordando o dito cineasta português, João Botelho, “estamos numa altura em que os ignorantes são arrogantes e chegam ao poder e mandam”, questiono-me: será que o futebol ainda une o mundo? Neste carpe diem, onde o senhor Trump não quer saber da Paz, mas somente dos seus negócios, e entre eles receber um Prémio Nobel da Paz, e, por outro lado, o senhor dos interesses (e alguns bem obscuros), Gianni Infantino, que em nome da FIFA é capaz de ser tão errático como os poderosos prepotentes que governam as grandes nações nos dias de hoje, como poderão os valores do desporto autêntico, promover os valores e as atitudes do Jogo, quer como desporto, quer como atividade física? Mas o ridículo continua! É possível alguém afirmar que a Itália devia estar neste Mundial – para o qual não se apurou – só porque, segundo os critérios de mérito do senhor Trump, entende que ela lá devia estar? Infelizmente é! E, assim, se confirma o que o filósofo Michael Sandel tem denunciado, a meritocracia, sobretudo na América do Norte, é boa para os ricos e poderosos, originando uma casta de novos privilégios (os mesmos de sempre) e condenando multidões à precariedade e à pobreza. Aquilo que apelida de arrogante e o lado sombrio da sociedade. Trump, na sua vaidade insuportável e na sua banal logomaquia, como que vive numa permanente rede social, ousa apresentar a sua verdade como a verdade de facto: “‘O mundo é um lugar mais seguro’. Hoje, esse mundo assiste a uma guerra iniciada por Donald Trump”, como citava o Expresso de 06 de março de 2026. E o senhor FIFA, na sua realidade paralela, exclamava. “desejo que o torneio seja ‘um momento de paz’”. Só não dá vontade de rir porque a coisa é séria. E conclui o expresso nesse dia – “O Mundial com mais equipas da história arrisca-se a ser o que perde uma seleção por uma guerra iniciada pelo anfitrião”. E este é só a mais recente peripécia do futebol na sua já longa história.
Continua…
Guimarães, 07 de maio de 2026
Pe Doutor Francisco de Oliveira