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O Desporto Rei: Futebol, história e peripécias (continuação)

Francisco Oliveira
Opinião \ quinta-feira, agosto 27, 2026
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O futebol é brincadeira e seriedade, ceticismo e fanatismo, identidade e transferências, mas igualmente sentimentalismo e mercantilismo.

Com resposta, ou mesmo sem resposta, se a razoabilidade habita o futebol, ou melhor, os que fazem o futebol (dirigentes, atletas, adeptos, e toda a panóplia de sponsors e afins), as marcas que mais quero realçar são a sua história e peripécias ao longo do jogo da bola que tantos (e hoje, tantas) fazem dele o desporto preferido, o desporto-rei. Foi a 22 de janeiro de 1927 que, pela primeira vez, se ouviu um relato de futebol, transmitido pelo BBC. E sempre à espera de ouvir o relatador gritar – Goooooooooolo! Hoje vibramos com as imagens dos ecrãs e, podemos, ao pormenor repetir se a falta existe ou não, se o golo foi espetacular ou só mais um. Mas o fascínio de um relato de futebol, julgo eu, nunca será superado. Os olhos do locutor da rádio colocava-nos no relvado e, como jogadores o fossemos, participávamos com gemidos e comentários, e celebrávamos o golo como se tivesse saído dos nossos pés. De facto, estar a ouvir um relato do jogo da bola é algo de único, mas mais único é estar num estádio de futebol. E este nunca é um mero acontecimento desportivo, mas é igualmente um facto social total, quer num processo económico, quer numa mitologia cultural, que se regista em momento único de história coletiva e pessoal. Mas é igualmente uma sessão de psicoterapia e de fraternidade, gerando uma catarse ao estilo do teatro grego, e, simultaneamente um culto místico e ritual, mesmo uma cerimónia litúrgica de uma celebração totémica de litania mágica. De tal forma que quem gosta de futebol e não pode estar no estádio quer estar no estádio, mesmo sem lá estar – quantas vezes, longe do nosso mítico estádio Dom Afonso Henriques, nos colocamos junto de um rádio ou televisão como ser estivéssemos lá: não falta a camisola e o cachecol, os comparsas e a cerveja… e tudo decorre com a mesma alegria (agravada pela saudade) do nosso Santuário do Afonso! De facto, e esta é uma verdade que quem sente o futebol expressa: o que se passa num campo de futebol, verdadeiramente magnético, é uma linguagem universal que fala as línguas todas e se define como um valor global.

O futebol é brincadeira e seriedade, ceticismo e fanatismo, identidade e transferências, mas igualmente sentimentalismo e mercantilismo. E, por outro lado, é memória e expetativa, concentração e exaltação, que umas vezes nos expande e outras vezes nos reprime, é lugar e tempo de catarse e de sublimação, quer com exaltação, quer com delírio. Contudo, se pode promover a convivência, também pode favorecer a violência. E aqui, é com alegria que partilho os momentos de beleza que as claques criam nesta liturgia do futebol, mas igualmente denuncio a sombra de delinquência e de maldade que geram neste desporto tão democrático e que tanto podia contribuir para a fraternidade universal e local, feita em prosa ou em poesia. Talvez, recordando a Metafísica do Amor de Schopenhauer, poderíamos falar da metafísica do futebol que faz perguntas, questiona, o que está para lá do que é físico e que busca o motor imóvel que, como nos pretendeu ensinar Aristóteles, busca o princípio fundador/primeira causa e a finalidade última, bem como a relação entre matéria e mente, substância e atributo, necessidade e contingência, absoluto e relativo, bem como permanência e mudança, possibilidade e livre-arbítrio, realidade e imagem, espaço e tempo, imanência e transcendência (quer na perspetiva aristotélica, quer na perspetiva kantiana, e mesmo da filosofia escolástica e/ou religiosa), e, finalmente, ser e ente (como Heidegger nos presenteou e o existencialismo nos desafiou). O futebol é, sem dúvida uma epistemologia, com um copioso e prolixo discurso do método e uma disputa entre crença e verdade, hipótese e modelo, experiência e certeza, etc, sempre entre o racionalismo e o experiencialismo. Todavia, é, igualmente, um grande objeto fenomenal, numa fenomenologia de um fenómeno planetário, cósmico e universal, que aproxima todos e todas, mesmos os que se julgam afastados – todos conhecemos gente que diz não gostar, mas fala tanto de futebol, e vibra como nós quando chegam os grandes momentos do futebol.

Muitos escritos, filosóficos e sociológicos, e outros se têm escrito sobre o futebol. N’O Processo Civilizacional, Nobert Elias celebrou o desporto, e Elias Dunning, seu discípulo, desenvolveu a teoria do seu mestre na observação do desenvolvimento e da metamorfose do Jogo moderno, quer como desporto, quer como atividade física, e de sobremaneira o Futebol, na sua vertente violenta. Em rigor, algo nunca ausente do mesmo, e daí as regras que se vão aperfeiçoando e alterando; contudo, e como lamento o escrevo, hoje mais em função do negócio do que em prol do desporto e dos atletas. Assim, em A Busca da Excitação, numa avaliação certeira da sociedade global, quer do desporto, quer do futebol, como indiciadoras de algo fundamental da sociedade do gozo e do prazer em que vivemos na busca da excitação. Já Johan Huizinga em Homo Ludens: Ensaio sobre o elemento lúdico da cultura, defendendo o Jogo, quer como desporto, quer como atividade física, como um instinto primordial, e como uma das forças mais originárias e com raízes mais profundas na nossa animalidade, que o processo de hominização não resolve, mas o processo de humanização do homem e da mulher realiza. O homo ludens é o pináculo de um triângulo, e sendo um dos vértices do mesmo, cujos os outros vértices são o homo sapiens e o homo faber. Defende, igualmente, que o Jogo é a origem da cultura, e que a humanidade partilha com os restantes animais, mas na humanidade dá-se sob a forma de rito e de sagrado, de linguagem e de poesia. “O jogo é um facto mais antigo do que a cultura, pois esta, mesmo nas suas definições mais rigorosas, pressupõe sempre a sociedade humana; mas os animais não esperaram que os homens os iniciassem na atividade lúdica”.

Se para alguns, este jogo popular, provoca adesões fervorosas, para outros gera rejeições dolorosas, apelidando-o de irracional e primário. Um sintoma de incultura e de primarismo, ou mesmo primitivismo, e sempre de efeitos paradoxais. Contudo, não faltam ilustres intelectuais que revelaram e revelam o gosto apaixonado pelo futebol. Jorge Luís Borges sentenciou o futebol como a estupidez mais popular – “o futebol é popular porque a estupidez é popular”, ou mesmo, “o xadrez é hoje substituído pelo futebol, que é um jogo insensato e não intelectual”. Ou, recuando a William Shakespeare, no Rei Lear, exclama – “Tu, vil futebolista”. Mas para outros, mesmo que o vejam como o sucedâneo da guerra por outros meios, é uma arte tão criativa como as outras e um modo de cultura popular com um poder solidário de sedução que mais nenhum tem – e daí ser o jogo mais democrático –, e outros intelectuais se deixaram encantar pelo seu brilho e popularidade. Pierre de Ronsard e Henry de Montherlant fizeram poemas ao jogo da bola, e Mário Cesariny, no seu poema Pastelaria, escreveu: “Não é verdade, rapaz? E amanhã à bola / antes de haver cinema madame blanche e parola”. Ou, a crónica de Clarice Lispector, sobre a sua ignorância apaixonada por futebol e o desejo de um dia, mesmo que seja velhinha, aprender o que não sabe, pois, o futebol faz parte e representa a vida. Ou, mesmo Cecília Meireles no seu poema O Jogo de Bola, a bela bola / rola…, e até, entre outros, Manuel Bandeira, também participei no delírio coletivo e desde o começo do campeonato fiquei chumbado ao meu rádio a escutar as partidas dos brasileiros…. E Albert Camus, que foi guarda-redes, adorava futebol e partilhava, e não raras vezes, o que aprendeu sobre a moral humanas, os deveres e obrigações nas relações humanas. Já Jean-Paul Sartre falava dos onze em fusão no relvado, e que a presença da equipa adversária complicava esta fusão. E o grande escritor russo, refugiado nos EUA, Vladimir Nabokov falou do guarda-redes como águia solitária, o homem do mistério, a última muralha. E Pierre de Coubertin falou do futebol como a emulação sendo a essência do futebol, e Claude Lévi-Strauss, em La Pensée Sauvage, escreveu como os missionários cristãos ensinaram este jogo segundo os valores e costumes dos povos dos Gahaku-Gama da Nova Guiné, e o tempo do jogo demorava o necessário para que o equilíbrio entre as equipas, afim de não prejudicar os que perdiam e exaltar os que ganhavam.

Razão tem o historiador britânico, Eric Hobsbawm, de que o futebol é o desporto que o mundo fez seu, e isto deu-se por ser simples e elegante, não perturbado por regras e/ou equipamentos complexos, e por ser praticado em qualquer espaço aberto, e tal fez dele um jogo universal, o desporto-rei. Ainda me recordo de jogar no passeio largo e inclinado da Igreja de São Francisco, no Catorze – hoje, São Francisco Centro – e mesmo nas ruas do Centro Histórico de Guimarães: um grupo de rapazes contra outro grupo de rapazes, uma bola ou o que servia de bola, casacos/camisolas/pedras/paus… no chão e as balizas estavam feitas. E jogar até que as forças nos faltassem. Eis como comecei a jogar, a ver e a perceber o futebol. Mas hoje, o santo negócio do futebol, e os seus diversos interesses, as regras que jogam em função desses interesses, e muitas outras coisas, tudo parece desaguar num futebol que já não é só aquilo que se passa no campo de jogo. Mas como dizia Alexandre O’Neil – “o que perde o futebol não é o jogo propriamente dito, mas todo o barulho que se faz à volta dele”.

 

Continua…

 

Guimarães, 26 de agosto de 2026

Pe Doutor Francisco de Oliveira

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