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O Desporto Rei: Futebol, história e peripécias (continuação)

Francisco Oliveira
Opinião \ sexta-feira, julho 03, 2026
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Será assim tão arbitrário assumir a vida nas nossas mãos, por mais que saibamos das nossas fragilidades, quer nas vitórias, quer nas derrotas?!

O futebol, desporto rei entre nós, apesar de toda a verborreia que o acompanha é, sem dúvida, a atividade desportiva mais democrática. Aqui, o doutor e o operário, estão dotados da mesma capacidade de falar e entender o jogo, mesmo que a linguagem possa ser diversa. Porém, hodiernamente, o futebol já não cumpre o ideal que Georg Simmel nos apresentava: “o verdadeiro jogador não é motivado principalmente pelo ganho de determinada soma de dinheiro, mas sim pelo jogo em si mesmo, a violência do sentimento oscilando entre felicidade e desespero, a proximidade quase palpável de forças demoníacas que decidem entre um e outro, também o atrativo da aventura é muitíssimas vezes feito da intensidade e tensão com que nos faz sentir a vida” (in Filosofia da Aventura e Outros textos. Lisboa: Relógio D’Água, 2019, p. 79). Que bonito seria se assim ainda o fosse, mas o negócio futebol, com a FIFA à cabeça e todo o merchandising, tornaram este sonho uma impossibilidade. Manda o dinheiro e quem o tem. E a realização máxima do desporto, e neste caso, em particular, do futebol, é o dinheiro e o mercado. A mercantilização do jogo da bola. Só nos grupos de amigos e amigas, que jogam futebol pelo jogo em si e pela ocasião de estarem juntos, se aproximam deste propósito que o filósofo da Estética nos propõe. Como encontrar um ethos nesta balbúrdia de um mercado especulativo e onde a regra maior é fazer dinheiro?!

O corpo (do atleta ou não), ou seja, a verdade do corpo, um desafio para a filosofia, é politicamente situado, logo, objeto de uma construção histórica e social. E, como propõe Arianna Sforzini, é preciso “abalar as nossas certezas mais enraizadas sobre a naturalidade desse vivo pedaço de carne a que chamamos ‘corpo’. (…) (E) cada vez mais nos põem diante do espelho de um corpo que não é apenas um dado biológico, mas também, e simultaneamente, o lugar onde construímos – e até desafiamos – a experiência da existência singular” (in Electra, nº29 de 2025, p. 86). Ora, e perante esta nossa vivência do corpo humano e da realidade onde está situado, urge questionar o corpo no desporto e o lugar do desporto, ou o desporto como lugar, para a vivência plena do ser humano. Mesmo para a filosofia foi, e é, difícil determinar esta questão do corpo, que sustenta a nossa existência. Vivemos no nosso corpo, ou melhor ainda, vivemos o nosso corpo. Nesta deriva económico-financeira em que o desporto se envolveu, o corpo perturba e desafia todas as tentativas de o determinar. No tempo em que vivemos ele é uma dimensão central, mas enquanto algo a ser treinado, modificado, gerido, domesticado, conformado aos padrões de desempenho estético e técnico, ou desportivo. Talvez estes 4 itens sejam o cume da sua determinação hodierna – saudável, jovem, magro e eficiente. Um corpo doente é um fardo. E falamos do corpo encarnado e sexuado, natural e cultural, e sempre politizado. E, sempre conscientes, que o corpo é antes de tudo esse lugar impossível que somos e que nunca poderemos objetivar completamente. Portanto, como é possível, nesta cultura corporal e neste capitalismo desenfreado, que se apoderou do jogo, reduzir o corpo do atleta, amador, e sobretudo, profissional, a uma mera mercadoria que podemos trocar no mercado do futebol e do desporto em geral? Para vencer esta mercantilização, estética ou técnica, do corpo, urge voltar a colocá-lo no centro da vida e da filosofia, onde nos determinamos como somos corpo, lugar e tempo da nossa dignidade, e, por excelência, espaço de um discurso anárquico que desafia as convenções dos signos. E sempre lugar e tempo de uma experiência do limite, mas que não seja o seu recalcamento, mas a sua aceitação criativa, mesmo nos seus aspetos mais dolorosos, trágicos e frágeis. Assim, o corpo rejeita todas as manipulações políticas, religiosas e económicas, etc, mesmo que o seja em nome de um desporto de alto rendimento que muitos querem conduzir a um alto lucro financeiro. Como escreveu Michel Foucault, o corpo é um lugar outro, que perturba e interroga todos os abusos que dele se querem aproveitar. E neste caso, do praticante de desporto amador ou profissional.

O Papa Leão XIV, por ocasião dos Jogos Olímpicos de Inverno, de 6 a 22 de fevereiro de 2026, e dos XIV edição dos Jogos Paralímpicos de Inverno, de 6 a 15 de março, recordou que “a prática desportiva é uma atividade comum, aberta a todos e saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano”. Procura mostrar como o corpo, ou seja, a pessoa humana, é um todo e não fracionado em partes distintas e separadas, e que é no e pelo corpo que se realiza o ser humano. E o jogo, como prática desportiva ou desporto, é uma excelente ocasião para a determinação do corpo como lugar de encontro e de convívio, de realização de humanidade. Michel Montaigne escreveu que “não educamos uma alma, nem educamos um corpo: educamos uma pessoa. Não devemos dividi-la em duas partes”. Mas o dualismo de hoje não acontece neste tempo dos dualismos de séculos da filosofia e teologia, mas no negócio em que se tornou o desporto, e, neste caso, particularmente o futebol. O dinheiro ou a fama não pode, nem deve, ser o motivo principal da prática desportiva. E por isso, se cuida do corpo como uma ferramenta e ou mercadoria, desprezando outras realidades do todo da pessoa, levando ao desgaste físico, mental (e espiritual) e social dos praticantes. Finalmente, quando tal sucede, abandonados e esquecidos. Os seus praticantes, amadores ou profissionais, que antes de tudo são pessoas, podem, e devem, experimentar alegria e recompensas intrínsecas às atividades que realizam, realizando-as e apreciando-as pelo seu próprio valor. E, assim, crescem como pessoas, excluindo todos os egoísmos e isolamentos, estando com outras e outros, nesta casa comum em que habitamos com a restante criação. Como proclamou o Papa Francisco – “encontrar e estar com os outros, para se ajudar, para competir na estima recíproca e crescer na fraternidade”.

O desporto nasce como uma experiência de proximidade, de vizinhança, e coloca em contacto corpos, histórias, pertenças e diferenças, mas, igualmente, ultrapassa barreiras sociais, linguísticas e culturais, favorecendo relações sociais entre comunidades que ele próprio gera, educa para as regras e ensina que o resultado nunca é fruto de um caminho solitário. A competição, do latim cum (juntos) petere (pedir), pedimos juntos a excelência, não nos torna inimigos mortais, e antes, durante e depois, talvez, tenhamos ocasião para nos conhecermos mais e melhor. A “competição desportiva – escreveu o Papa Leão XIV –, quando é autêntica, pressupõe um pacto ético comum: a aceitação leal das regras e o respeito pela verdade da disputa. A rejeição do doping e de qualquer forma de corrupção, por exemplo, é uma questão não só disciplinar, mas que toca o coração mesmo do desporto. Alterar artificialmente o desempenho ou comprar o resultado significa quebrar a dimensão do cum-petere, transformando a busca comum pela excelência numa prepotência individual ou de um grupo”. Mas quando o capitalismo financeiro se apodera do jogo, e os desportistas se transformam em ativos financeiros, e o desporto uma bolsa de valor, como será capaz o Jogo, neste caso, o futebol, de continuar a ser um lugar e um tempo de encontro e de vizinhança? E como pode ser o corpo, ou seja, o pedaço vivo de carne, lugar e tempo da individualidade de cada pessoa e que permite o encontro com outras e outros, e toda a restante criação, pedir juntos com esses e essas, a plena realização do seu ente (ser), se o reduzem a res (a coisa, ou mercadoria)?

Antes do Mundial de Futebol 2026, Roberto Martínez, selecionador de Portugal, numa entrevista à E – A Revista do Expresso (edição 2796, de 29 de maio de 2026), afirma que não controlamos o nosso destino e, por outro lado, precisamos de ser mais realistas. Em que ficamos – controlamos ou não controlamos? Será assim tão arbitrário assumir a vida nas nossas mãos, por mais que saibamos das nossas fragilidades, quer nas vitórias, quer nas derrotas?! Este linguajar, tão próprio do mundo do futebol, e tão consciente do aleatório do Jogo em si, é, igualmente, a sabedoria de saber que o treino, as capacidades, individuais e coletivas, são estritamente necessárias para alcançar os objetivos a que uma seleção se propõe. Uma espécie de superstição pagã e religiosa ocupa a mente e o coração dos dirigentes, dos atletas e dos adeptos. Contudo, como disse Roberto Martínez – “Só o talento não dá, porque há muitas, muitas equipas que têm o mesmo talento: é o espeto pessoal, de compromisso, de reagir bem aos momentos difíceis, que faz parte mais da pessoa do que do jogador”. E, mais à frente, é consciente que não basta escolher os melhores, mas “a seleção que ganha é um grupo dos melhores 26 para formar a melhor equipa e ter um convívio de valores pessoais muito, muito fortes, que ajudam a ganhar”. Não posso estar mais de acordo, e dito por um treinador odiado pelos comentadores portugueses, e por motivos que julgo saber, mas nem me atrevo a expressar, mostra como a pessoa (em toda a sua substância) deve contar mais que o atleta (a função que exerce no desporto). E aprecio muito a sua afirmação de que “não podemos procurar a preparação perfeita, precisamos de estar ao máximo nível com tudo aquilo que possa acontecer”. Sim, o jogo prepara-se, mas supera-nos sempre, e é na reação ao que sucede durante o mesmo que percebemos a nossas mais-valias naquilo que possa acontecer para além dos nossos cálculos. E, ao contrário da frase feita, percebemos que nem tudo é matemática. A única matemática que parece dominar este mundial é a do negócio e do dinheiro, que as pausas técnicas de hidratação, mesmo quando não faz calor, são por absurdo realizado a prova disso, dando 3 minutos para a publicidade que os ecrãs promovem. Afinal, tudo é negócio e tudo é vendável, eis a nova frase feita, para os encantados pelas somas de dinheiro e pelo poder que lhes concede.

 

Continua…

 

Guimarães, 03 de julho de 2026

Pe Doutor Francisco de Oliveira

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