skipToMain
ASSINAR
LOJA ONLINE
SIGA-NOS
Guimarães
20 março 2026
tempo
18˚C
Nuvens dispersas
Min: 17
Max: 19
20,376 km/h

Guerra Colonial: memórias de uma carta perdida

Francisco Brito
Opinião \ sexta-feira, março 20, 2026
© Direitos reservados
Através de um relato espontâneo é possível perceber a leveza e os requintes de malvadez com que os portugueses matavam em Angola em 1962.

Suponho que muito ainda estará por fazer (e por sistematizar) no que diz respeito à “pequena história” da Guerra Colonial, isto é, aquela história que trata de pequenos episódios marginais e de reflexões e de testemunhos individuais de figuras que não foram determinantes para os acontecimentos em análise.  É de notar que ainda hoje, mesmo alguns acontecimentos extremamente relevantes (como o Massacre da Baixa de Cassanje) são alvo de intenso debate entre académicos que enfrentam grandes dificuldades para fixação de uma narrativa histórica credível. Se mesmo ao nível dos grandes acontecimentos da Guerra se colocam tais dificuldades é certo que ainda haverá muito para descobrir no que diz respeito a testemunhos de outra natureza.

O que vos trago hoje, uma fracção da tal “pequena história”, é-nos contada através de uma carta que li recentemente. A missiva é escrita em 1962 por M., uma jovem da alta sociedade lisboeta, descendente de militares de alta patente e de antigos governadores coloniais, e é dirigida a F., um amigo de uma família burguesa e bem relacionada que então cumpria serviço militar.

M. escreve a F. de Luanda, para onde se tinha deslocado recentemente por motivos familiares. A carta trata essencialmente de uma série de assuntos particulares (impressões sobre um livro, perguntas sobre amigos e familiares, de preparativos para o Natal, etc.). Contudo, num dado momento, a autora da missiva não deixa de partilhar as suas impressões sobre Luanda e sobre o clima que então se vivia nessa capital pacificada de um país em guerra:

“ (…) odeio esta terra, que por sinal é linda, tem passeios maravilhosos, uma baía onde se reflecte à noite a cidade, mas que além de tudo isto, tem todos os defeitos das pequenas cidades, sobrecarregada ainda de tropas e de um pseudo ambiente de guerra. As pessoas são na realidade muito simpáticas, mas especializadas na crítica. É possível ouvir todos falar mal de todos.

As conversas são geralmente sobre matanças de pretos, e não escondem os requintes com que as fazem e acredita que isto é conversa de noite como de [dia]. Repousante!!! É realmente triste que as pessoas se deixem influenciar e se mostrem tão insensíveis. Claro que deveres são deveres, mas não compreendo como se pode falar de tudo isto com um ar tão de aventura, um ar tão leve…Enfim…”.

Conhecendo um pouco o contexto da Guerra Colonial e associando-o a esta carta, percebemos que o que ali se encontra descrito é fruto de um ambiente em que a violência é banalizada e justificada pela desumanização do outro. Daí a naturalidade com que se contavam os requintes de malvadez das matanças de negros, tratados com leveza e relatados como uma simples aventura. A autora, nascida num meio social e cultural privilegiado (possivelmente com ligações próximas ao regime) e conhecedora, por via familiar, da administração colonial, percebe claramente que as pessoas estão a ser influenciadas e manifesta o seu choque perante a insensibilidade demonstrada nas conversas e convívios em que participava, num ambiente que ironicamente classifica como “repousante”.

 A relevância deste testemunho reside na sua espontaneidade, permitindo aceder a perceções que dificilmente encontramos noutro tipo de fontes, sendo tanto mais significativo por poder constituir uma perceção crítica emergente no interior da própria elite colonial.

Serve também para refletirmos sobre as guerras que nos assolam e sobre aqueles que tantas vezes nos pretendem apresentar como sub-humanos para justificar as mais diversas atrocidades.  

Podcast Jornal de Guimarães
Episódio mais recente: #131 - O BRT e três projetos interrompidos pelo executivo de Ricardo Araújo