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Geografia do Ódio: Do Parlamento a Guimarães

Luís Lisboa
Opinião \ sexta-feira, abril 24, 2026
© Direitos reservados
Entre o aumento de 2263% nos crimes de ódio e os episódios de intimidação em Guimarães, este é o relato de quem viveu na pele essa violência e da urgência de defender a Constituição.

Cinquenta anos depois do primeiro fôlego das nossas instituições democráticas, 2026 devia ser um ano de celebração plena da Constituição da República. O pacto de 1976 prometia uma sociedade mais justa, onde liberdade e igualdade caminhassem lado a lado. Mas o brilho das comemorações oficiais choca com a realidade: os dados contam uma história que o discurso institucional já não consegue esconder.

Escrevo como testemunha direta de uma realidade que os números do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) tendem a reduzir a métricas abstratas. O RASI de 2025 mostra uma tendência clara: o crime de ódio em Portugal está a disparar. O aumento de 6% no último ano importa. Mas o que realmente assusta é outra coisa: um salto de 2263% entre 2015 e 2025. Em dez anos, a violência alimentada pelo preconceito e pela radicalização multiplicou-se por mais de vinte vezes.

Estes números não são apenas pontos num gráfico. Para mim, eles têm rostos escondidos por balaclavas e nomes que chegam sob a forma de ameaças, insultos e e-mails intimidatórios. Ganham corpo na devassa da minha vida privada, na exposição pública sem consentimento e nas chamadas anónimas que irrompem a qualquer hora do dia.

O meu mapa pessoal de intimidação coincide, com uma precisão assustadora, com o mapa da radicalização do país. Em 2019, o ódio entrou formalmente no Parlamento; em 2024, ele já me batia à porta. O que muitos subestimaram na altura como mera retórica ou 'folclore' parlamentar era, na verdade, o início de uma estratégia aceleracionista desenhada para validar o preconceito e testar os limites da democracia. Hoje, torna-se dolorosamente claro que a normalização daquelas narrativas foi apenas o prefácio para a perseguição e para a violência física que se seguiram, agora sem máscara e sem filtros, nas ruas de Guimarães e do país.

Em 2020, num ano fustigado pela incerteza da pandemia, vi-me obrigado a viver sob proteção policial permanente durante semanas. O meu “crime”? Exercer a liberdade de expressão na defesa dos direitos humanos, da ciência e da dignidade. Fui um dos nomes visados num e-mail de ameaças de morte enviado a dez pessoas e às suas famílias — uma lista negra que incluía três deputadas à Assembleia da República e sete agentes políticos. Foi nesse isolamento forçado que compreendi a fragilidade do conceito de “segurança interna” perante uma extrema-direita que, por método, transforma opiniões em alvos e cidadãos em vítimas.

O ano de 2021 marcou uma nova e sórdida etapa na estratégia de intimidação. Na sequência da minha candidatura à Câmara Municipal de Guimarães, a minha imagem pública foi alvo de uma campanha de desumanização: fotos de campanha foram apropriadas ilicitamente para fins de humilhação sexual e LGBTQIA+fobia. A exposição não consentida de contactos privados e a criação de conteúdos grotescos serviram um único propósito: a morte civil do opositor. O caso seguiu o seu trâmite legal junto da Polícia Judiciária.

Em 2024, a barreira entre o ecrã e a calçada ruiu: o ódio digital transbordou, sem travão, para a vida real. Através do doxing, a minha intimidade foi mapeada e lançada em redes que funcionavam como centrais de vigilância. A estratégia seguiu uma progressão sinistra: primeiro, a marcação simbólica com autocolantes nas residências de opositores e de minorias; depois, a invasão despudorada da minha esfera profissional e de lazer. No “Grupo 1143 - Guimarães”, no Telegram, a minha rotina foi dissecada e os meus contactos partilhados como alvos. As chamadas tornaram-se um ritual sádico onde vozes anónimas recitavam a morada da minha casa e faziam referências diretas à minha família. Naquele momento percebi: a minha morada já não era um dado. Era uma ameaça. Era o fim do meu direito ao descanso e o sequestro da minha paz familiar. O objetivo era claro: mostrar que o ódio deles não conhecia limites éticos e que nenhum lugar, por mais privado que fosse, voltaria a ser seguro.

O RASI de 2025 deixa claro: o sentimento de impunidade cresceu ao ritmo acelerado das redes sociais, alimentando uma sucessão inevitável de acontecimentos que culminou na agressão física, tal como ocorreu em vários pontos do país e em Guimarães. Perante isto, compreendo que a única forma de proteger a mim e à minha família é recusar o medo. Exponho o que vivi para que o silêncio não seja cúmplice e para que, pelo menos, esta violência não se repita com mais ninguém.

A megaoperação “Irmandade” da Polícia Judiciária, em janeiro de 2026, com a detenção de 37 suspeitos ligados à rede neonazi do Grupo 1143, não foi apenas uma operação policial. Foi a confirmação de algo que já era evidente: não eram casos isolados. Enfrentávamos uma estrutura criminosa organizada, e não uma soma de episódios avulsos. Ficou provado que, na última década, a única estrutura que realmente prosperou foi a capacidade da extrema-direita se organizar para promover e normalizar práticas de intimidação e violência sistemática.

Celebrar os 50 anos da Constituição em 2026 exige mais do que cerimónias. Obriga a encarar o que está a crescer à margem dela. O crescimento abismal da violência radical é a prova de que a promessa de 1974 está sob cerco. Não haverá futuro democrático se o medo continuar a ditar as rotinas de quem ousa ser ou pensar de forma diferente. A liberdade não é um património herdado, mas uma conquista que se defende contra aqueles que usam as ferramentas da democracia para a aniquilar.  É precisamente por isto que tentam tanto mudar a Constituição: porque ela é, na sua essência, profundamente antifascista.

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