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Entre o troféu e a dívida: um Vitória sem rumo

Pedro Carvalho
Opinião \ quinta-feira, março 05, 2026
© Direitos reservados
Se esse financiamento vier acompanhado de taxas de juro semelhantes às de operações anteriores, o resultado será previsível — um agravamento significativo da dívida e um longo compromisso financeiro.

O Vitória Sport Clube atravessa um momento que exige lucidez e, sobretudo, memória. Ao longo dos últimos anos, a atual direção liderada por António Miguel Cardoso tem procurado sustentar a narrativa de uma gestão responsável, mas a realidade financeira e desportiva do clube conta uma história bem diferente.

Em quatro anos de mandato, não se conhece um verdadeiro plano de recuperação financeira. O passivo continua elevado e estrutural, e o único exercício apresentado como positivo assentou, em grande medida, em receitas extraordinárias. Esse resultado circunstancial foi apresentado como sinal de boa gestão, quando na verdade não traduziu qualquer transformação estrutural das contas do clube.

Mais preocupante ainda foi a política de alienação de ativos. Direitos desportivos de jogadores com peso desportivo e potencial financeiro foram vendidos por valores que dificilmente podem ser considerados vantajosos para o clube. Pior: essas vendas ocorreram muitas vezes em momentos desportivamente sensíveis, fragilizando o plantel sem que tenham sido garantidos substitutos à altura. O resultado é visível dentro de campo.

A época desportiva da equipa principal de futebol tem sido marcada por irregularidade e por um rendimento muito aquém das ambições históricas do Vitória. A vitória na Taça da Liga — conquista que naturalmente orgulha todos os vitorianos e que contribuiu com um troféu para o nosso ainda parco palmarés — acabou por salvar a honra do convento. Mas uma andorinha não faz a primavera. Um troféu, por mais significativo que seja, não apaga uma época marcada por falta de planeamento, decisões erráticas e uma estratégia desportiva que parece reagir aos acontecimentos em vez de os antecipar.

O problema maior, porém, permanece estrutural. O clube continua esmagado por um passivo elevado e, segundo dados conhecidos, enfrenta um passivo de curto prazo na ordem dos 35 milhões de euros. Sem vendas extraordinárias relevantes nesta época e sem receitas provenientes das competições da UEFA, o cenário torna-se inevitável: recorrer novamente ao endividamento.

Se esse financiamento vier acompanhado de taxas de juro semelhantes às de operações anteriores, o resultado será previsível — um agravamento significativo da dívida e um compromisso financeiro que poderá condicionar o futuro do clube durante pelo menos uma ou duas décadas.

Talvez o mais inquietante seja a aparente resignação de muitos sócios. As expectativas foram sendo progressivamente reduzidas, ao ponto de qualquer resultado positivo ou conquista pontual servir para suspender o escrutínio sobre o essencial. Mas o essencial permanece: o Vitória continua longe dos lugares cimeiros, continua sem uma estratégia financeira sólida e continua dependente da benevolência dos credores.

Um clube com a dimensão histórica e social do Vitória não pode viver de momentos. Precisa de rumo, de estratégia e de responsabilidade. Até agora, infelizmente, nada disso foi verdadeiramente apresentado.

Pedro Miguel Carvalho

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