Entre a herança e a falta de rumo
O Vitória mudou de presidente, mas continua, até à data, sem rumo e sem projeto. Rui Rodrigues apresentou-se aos sócios com a promessa de evolução, estabilidade financeira e maior competitividade desportiva. Porém, volvidos alguns meses, nada se vislumbra, nem sequer em termos embrionários. A única solução que apresenta, tal como fez António Miguel Cardoso, passa por devolver à V Sports uma posição acionista que perdeu no clube por força das regras da UEFA. É legítimo perguntar: onde está o projeto autónomo, financeiro e desportivo, que prometeu na sua candidatura?
A parceria com a V Sports pode trazer vantagens. Mas a que custos, se o Vitória perder o controlo efetivo da sociedade anónima? O problema está em saber se existe uma renegociação de facto ou se a recompra das ações constitui um mero formalismo para obter novo financiamento, como aconteceu inicialmente, antes mesmo de os sócios se pronunciarem. Se a parceria com a V Sports voltar a ter o mesmo papel e protagonismo, não nos será útil. O aumento da participação acionista exige um novo plano estratégico, consistente e credível. Acresce que esta venda dos 17% adicionais não surgiu explicitamente em qualquer proposta eleitoral de Rui Rodrigues. Se agora a alienação de mais capital é apresentada como caminho, os sócios merecem saber o que mudou, por que razão se tornou necessária e que contrapartidas concretas serão obtidas. Uma operação desta dimensão não substitui um projeto: torna ainda mais urgente demonstrar que ele existe.
É também difícil ignorar a semelhança com a estratégia de António Miguel Cardoso: perante problemas estruturais, procurar na V Sports uma resposta que não foi encontrada dentro do próprio modelo de gestão. Se a nova Direção precisa de recorrer a esta solução para garantir estabilidade, isso poderá representar o reconhecimento de que as respostas inicialmente apresentadas são insuficientes e de que esta Direção não tem soluções próprias. O que está a acontecer é termos tido uma mudança de presidente sem uma mudança efetiva de rumo.
E há uma questão prévia, elementar: por que razão se pretende votar a transmissão de 17% do capital da SAD antes de os sócios apreciarem e votarem as contas do último exercício?
A gestão de António Miguel Cardoso chegou ao fim, mas as consequências das suas decisões não desapareceram. Durante quatro anos foram definidas prioridades, realizados investimentos, assumidos compromissos e tomadas opções que importa avaliar. Não para alimentar uma disputa entre antigos e novos protagonistas, mas para perceber o que foi feito, em que situação ficou o Vitória e que mudanças, se existirem, vão ser introduzidas.
É neste contexto que o percurso de Rui Rodrigues merece também ser analisado, quer pela sua participação no caminho seguido por António Miguel Cardoso, quer pela sua capacidade para salvaguardar os interesses do Vitória. Integrou a lista eleita com António Miguel Cardoso, inicialmente como vice-presidente do Conselho Fiscal do Clube. Passou depois para o Conselho de Administração da SAD e assumiu funções de vice-presidente da Direção, com o pelouro financeiro. Não foi, portanto, um observador exterior ao ciclo que agora se encerra. A extensão das suas responsabilidades variou ao longo do tempo, mas a sua participação nos órgãos sociais torna legítimo pedir-lhe explicações sobre as decisões e os resultados do período em que interveio.
Na entrevista ao Desportivo de Guimarães, Rui Rodrigues procura demarcar-se do modelo de liderança de António Miguel Cardoso, descrevendo uma realidade em que as decisões seriam tomadas pelo então presidente, cabendo-lhe sobretudo intervir na fase da execução financeira. Se era esse o funcionamento, importa perguntar que papel desempenhava quem era administrador da SAD e responsável pela área financeira. Uma função desta natureza não implica decidir tudo, mas também não pode ser reduzida à de mero executor sem responsabilidade.
Se discordava da concentração das decisões em António Miguel Cardoso, por que permaneceu ao seu lado até ao fim? Por que integrou novamente a sua lista no ato eleitoral do ano passado? Se apresentou alternativas que não foram acolhidas, quais eram essas propostas e que consequências retirou da sua rejeição? Não se pretende atribuir-lhe todas as decisões de uma gestão colegial, mas também não é aceitável que alguém com responsabilidades relevantes se apresente agora como se tivesse sido apenas chamado a executar opções alheias, sem qualquer responsabilidade por elas.
A resposta «Sinceramente, não sei», atribuída na entrevista à questão sobre o que António Miguel Cardoso pretendia da V Sports, suscita outra dúvida. Se a relação com o acionista era tão importante para o futuro da SAD, que conhecimento e participação teve o responsável financeiro nesse processo? E se não concordava com a forma como a relação era conduzida, por que razão essa discordância não teve consequências enquanto integrava a estrutura dirigente?
Estas perguntas ganham ainda mais importância perante a reaproximação à V Sports e a possibilidade de o acionista voltar a deter 46% da SAD, assegurando, através de um acordo parassocial, poder de veto sobre as decisões estruturantes da sociedade. Se o problema anterior era a concentração de poder num presidente, como garantirá Rui Rodrigues que um acionista com capacidade de decisão não ocupará esse mesmo espaço sem que o Vitória consiga fazer valer os seus próprios interesses? A mudança de protagonista só representará uma mudança de modelo se houver participação efetiva, transparência e capacidade para dizer não quando estiver em causa o interesse do clube. No passado, Rui Rodrigues foi, no mínimo, omisso e subserviente ao anterior presidente.
A questão financeira não pode ficar confinada a um único exercício. Tem de abranger os últimos quatro anos, distinguindo responsabilidades e períodos e envolvendo todos os que tiveram intervenção efetiva nas decisões. Existem informações não oficiais que apontam para um passivo superior a 80 milhões de euros, mas, sem contas atualizadas apresentadas e analisadas, esse valor não pode ser tratado como confirmado. Precisamente por isso, é urgente que os sócios tenham acesso à informação necessária para conhecer a situação real do clube e da SAD.
A sequência das Assembleias Gerais torna esta exigência ainda mais premente. A Assembleia Geral Extraordinária de 30 de outubro, destinada a discutir a transmissão de 17% do capital da SAD à V Sports, foi marcada antes da Assembleia Geral ordinária de 6 de novembro, convocada para apreciar e votar o Relatório e Contas de 2025/2026. Esta última reunião ultrapassa o prazo de 31 de outubro previsto nos Estatutos para a apreciação das contas do exercício anterior. Os documentos estarão disponíveis para consulta a partir de 29 de outubro, mas consultar documentos não é o mesmo que discutir e votar formalmente as contas em Assembleia Geral, nem permite, por si só, conhecer o rumo que a atual Direção pretende imprimir ao Vitória.
Por que razão se dá prioridade à discussão de uma operação acionista antes da reunião destinada à prestação de contas, ultrapassando o prazo estatutário? A Direção e a Mesa da Assembleia Geral devem esclarecer os sócios. Como podem estes avaliar plenamente uma nova operação sem conhecerem, com rigor, a situação financeira que lhe serve de enquadramento? A importância da relação com a V Sports não diminui esta exigência; reforça-a.
Uma auditoria independente ao período entre julho de 2022 e junho de 2026 pode contribuir para estabelecer factos, analisar decisões e identificar responsabilidades. Não para alimentar ajustes de contas, mas para que o Vitória avance sem ambiguidades sobre o caminho percorrido.
O clube não precisa de uma guerra permanente entre quem saiu e quem chegou. Precisa de transparência, responsabilidade e de um projeto financeiro e desportivo credível, que, até agora, esta Direção, tal como a anterior, não demonstrou ter. Acresce que quem exerceu funções nos órgãos sociais deve responder pelo que fez, na medida das responsabilidades que efetivamente assumiu. E quem agora dirige o Vitória tem de demonstrar que defenderá sempre os interesses do clube, perante quem quer que seja, nomeadamente perante qualquer acionista.
Mudar de presidente não chega. É preciso mudar de modelo, algo que, até agora, não vimos acontecer. Para além de um discurso redondo, cheio de lugares-comuns, nada de concreto foi apresentado aos sócios.
Pedro Miguel Carvalho