É preferível falar de Literatura
Volto à Literatura Portuguesa, certamente mais fecunda e lúcida do que as coisas que grassam pelo burgo, país e mundo. Ademais, pelo seu poder de verosimilhança e efabulação da espuma dos dias, a literatura dá-nos mais prazer do que ler e ouvir a realidade bruta do quotidiano das novelas da comunicação social, por vezes tendentes transmitir a voz o dono e da acriticidade.
É claro que seguramente poderia falar na passagem de testemunho entre Marcelo e Seguro e fazer balanços positivos e negativos da magistratura presidencial. É óbvio que podia falar nas guerras para a conquista do Nobel da Paz e subsequentemente na tomada das torres do petróleo, como dantes se conquistavam torres de castelos. É evidente que podia até falar no estado da saúde, sempre empurrado com a barriga e atestado sem alta à vista; ou na crise habitacional, agravada pelas tempestades que têm provocado algumas “telhas” entre poderes estabelecidos, que certamente mais falta fariam nos telhados.
Tudo isto para já não falar no Pacote Laboral, que não constava do programa eleitoral, mas que agora está patronalmente balizado de linhas vermelhas de um diálogo de surdos.
Bem, mas disso e outros temas e assuntos, já os caros leitores leram, ouviram e leram muita coisa, que não podem (nem devem) ignorar ...
Opto por isso, até porque o mês findo Março foi úbere em ocorrências, nem sempre pelas melhores razões, em falar de literatura portuguesa. Com efeito, Março é o mês de nascimento de Raul Brandão, que deixou marcas entre nós, em especial na temática sonho/realidade que continua politicamente presente entre nós; e também de Camilo Castelo Branco que por cá andou homiziado e noutras andanças e lembranças, deixando-nos nas “Novelas do Minho”, a bela narrativa “A Viúva do Enforcado”, que tem Guimarães por espaço da ação.
Ademais, Março é o mês da morte do poeta simbolista Camilo Pessanha (1867-1926), ocorrido há 100 anos, como também do Dia Mundial do Teatro (27 de Março), que este ano coincide com os centenários de nascimento dos escritores e dramaturgos José Cardoso Pires (1925-1998) e Luís de Sttau Monteiro (1926- 1993), ambos pioneiros do teatro épico em Portugal, assunto que a União de Freguesias da Cidade evocou oportunamente em opúsculo, no decurso da atribuição anual dos troféus Gil Vicente.
Mas recentemente e infelizmente, ressalta o falecimento de António Lobo Antunes (1942-2026) e Mário Zambujal (1936-2026), desparecidos, respetivamente, em 5 e 12 de Março último. Partidas que, apesar da evasão física do mundo dos vivos continuam emocionalmente vivos entre nós e entre “aqueles que por obras valorosas/se vão da lei da morte libertando” ...
De facto, dois bons malandros dos nossos tempos que passaram para a outra banda, legando-nos uma preciosa herança literária, digna de evocação e reconhecimento.
Com efeito, António Lobo Antunes (ALA), escritor e médico psiquiatra, foi um os mais prolíficos homens de letras nacionais. Nascido em Benfica, subúrbios de Lisboa, filho morgado duma família da alta burguesia e benfiquista de gema (segundo alguns o seu maior defeito), ALA queria “ser o José Águas da Literatura”, seu ídolo do futebol encarnado. E foi realmente um dos mais conceituados autores portugueses e “um dos escritores mais venerados da Europa”, como referiria “The New York Times”, que muito golo assinalaria. Na realidade, o único autor português que, após Pessoa integraria o catálogo da Pléiade, tornando-se um dos quatro escritores vivos, conjuntamente com Vargas Llosa, Kundera e Jaccottet, a figurar nesta respeitada coleção francesa. Realmente, um escritor a quem escapou apenas o Nobel da Literatura, mas que colecionaria imensas distinções a nível nacional e internacional, como o Prémio Camões (2007), dois grandes prémios de romance da Associação Portuguesa de Escritores (1985 e 1999), bem como Prémio da União Latina (2005), o Prémio France Culture de Literatura Estrangeira (1996) e Prémio o Melhor Livro Estrangeiro publicado em França (1997), entre outros galardões., condecorações e distinções honoris causa.
No fundo, uma obra traduzida em cerca de 30 línguas, constituída por 41 livros, entre os quais 32 romances, que iniciada com “Memória de Elefante”e “Os cus de Judas”, ambas de 1979, centradas no tema da guerra colonial - vivenciada em Angola entre 1971/1973- se prolongaria aos seus últimos livros como o “Dicionário da Linguagem das Flores” (2022) . De facto, a violência e o absurdo da guerra, o fracasso do sonho imperial e os traumas geracionais decorrentes, marcam significativamente uma fase importante da sua obra. Vertentes que perpassam também de forma (auto)-crítica no “Fado Alexandrino” (1983), mais tarde seria adaptado a teatro por Nuno Cardoso; e em “O Esplendor de Portugal” (1997) e de igual modo em “Cartas de Guerra”, (2015), obra epistolar coligida e publicada pelas suas filhas Maria José e Joana a partir de missivas de ALA à primeira esposa, que seriam alvo de adaptação cinematográfica por parte de Ivo Ferreira, enquanto histórias de amor e aerogramas do coro de um país.
Outrossim, ressalta na obra de ALA o retrato de Portugal do seu tempo, desencantado e deprimido, e das suas feridas mais profundas e esconsas, que posteriormente exploram temáticas como a Revolução de Abril e as transformações sociais resultantes. Narrativas que, como “O Auto do Dandos” (1985), aborda a vida de uma família portuguesa em 1975, ou “O Manual dos Inquisidores” (1996), dedicado a Melo Antunes, que retrata a sociedade portuguesa do pós-revolução; ainda, entre outros, “O Esplendor de Portugal” (1997) sobre o colapso do império colonial, com base numa família de colonos em Angola, ou “Exortação aos Crocodilos”, focalizada numa rede bombista de extrema-direita portuguesa. Obras que passam ainda, entre muitas outras, pela navegação às arrecuas d’ “As Naus” (1988), que parodiam os Descobrimentos Portugueses, à laia de farsa antiepopeica, narrando o regresso à pátria dos nossos míticos heróis como retornados. Um livro que críticos e especialistas consideram entre os mais inovadores, tanto no tema como na cronologia narrativa.
Com efeito, uma prosa que construiu e desconstruiu a literatura portuguesa, alicerçada na polifonia de vozes narrativas e frequentes monólogos interiores, que, como chegaria a confessar o faziam viver “numa permanente guerra civil interior”; ou, como aditaria o seu amigo e escritor José Cardoso Pires. tinha a capacidade de “fintar o real”. Curiosamente, uma escrita que rejeitava o computador, manuscrita como uma força torrencial impetuosa, cheia de frases longas, desvios e retomas, que nem sempre de fácil apreensão pelo leitor/narratário, frequentemente proporcionava autênticas dores de cabeça para os seus tradutores. Outrossim, uma escrita deambulatória entre razão, memória e deriva sobre a existência humana que o autor comanda com “mão autónoma”, profundamente caboucada na experiência da guerra, formação profissional e Revolução dos Cravos, que em tom intimista e psicológico revela os efeitos da ditadura e (des)colonização nos comportamentos humanos.
Porém, ALA além de romances escreveria ainda excelentes crónicas, em geral publicadas na revista Visão, todas reunidas em vários volumes e até um livro infantojuvenil intitulado “história do hidroavião” (1994), ilustrado plo músico e amigo Vitorino., mostrando a sua versatilidade.
E mesmo o seu lamento e amargura de não conseguir escrever poesia, a despeito da poeticidade de muitos dos seus livros, em especial “Não entres tão depressa nessa noite escura” (2008), vai ser superada. Com efeito, neste mês de Abril, para surpresa nossa, a editora Dom Quixote anuncia publicação a título póstumo de “Poemas”, de António Lobo Antunes.
Deveras, como dissera, “a morte pode destruir-me, mas não me mata “...
De facto, fica a obra como triunfo da vida!