Do Bizantino à "Arte Visigótica"
No pequeno texto que aqui publicámos, no mês passado, destacámos a inspiração neobizantina das semicúpulas, colunas e capiteis dos três varandins decorados da fachada do edifício sede da Sociedade Martins Sarmento. No entanto, o carácter revivalista desta obra tem também elementos usualmente denominados como visigóticos, nome sonante dos inícios da nossa Idade Média.
O termo, naturalmente cunhado pela historiografia – sintetizado numa conhecida obra de D. Fernando de Almeida, de 1962 – tem caído em desuso, quer pelo desfasamento cronológico entre a presença dos ditos cujos Visigodos na Península e o espectro temporal da "Arte Visigótica", quer pela pouca ou nenhuma influência que eles, os Visigodos, terão tido sobre as manifestações artísticas em questão. É sobretudo uma expressão que enquadra as produções artísticas de um determinado período, sem uma relação cultural direta com os míticos germanos.
Curioso é, no entanto, o facto de esta "Arte Visigótica" ter tido consideráveis influências bizantinas, que chegaram à Península Ibérica através das redes de contacto, particularmente comerciais, controladas por Constantinopla, a antiga Bizâncio. Ainda que essas influências sejam sobretudo visíveis nos motivos decorativos, são também evidentes na planta de algumas antiquíssimas igrejas desta região, em cruz grega, com uma cúpula central sobre uma construção quadrada. É o caso excecional do Mausoléu de São Frutuoso, em Real, mas possivelmente de várias outras, cuja configuração inicial foi profundamente alterada, ou mesmo destruída. De muitas apenas restaram alguns capiteis...
Um dos capiteis "visigóticos" que se guardam no Museu Martins Sarmento
Precisamente, em 2010, a investigadora Filomena Limão trabalhou sobre uma considerável quantidade de capiteis decorados de todo o país, incluindo 77 peças oriundas do Norte. Destaca-se deste estudo a ausência de influências bizantinas na morfologia e decoração deste grupo de peças do Norte de Portugal, revelando uma postura mais conservadora, mantendo uma tradição de influência clássica romana.
Infelizmente, o supra referido projeto de investigação não abrangeu os vinte e cinco capiteis avulsos que se conservam expostos no Museu Martins Sarmento, dos quais se destacam oito interessantes exemplares na escadaria entre os dois pisos do antigo claustro de São Domingos. Estas oito peças foram individualizadas por terem sido genericamente classificadas como tardoantigas e por se enquadrarem no conceito de "Arte Visigótica".
A proveniência desconhecida da maior parte deles – tida no entanto como sendo de Guimarães e das cercanias da cidade – dificulta uma datação mais clara. Sugerem, apesar do exposto, a monumentalidade e riqueza decorativa dos edifícios que integraram, na transição da Antiguidade para a Idade Média.