Caturo cumpre o seu múnus (II)
Lamentávamos aqui, no mês passado, o laconismo de Mário Cardozo no que respeita à localização do achado de um grande vaso cerâmico do período romano, no qual se lê que o seu presumível fabricante, Caturo, filho de Maximino, cumpriu uma obrigação. Fraca ajuda porque, entre as diferentes campanhas que Cardozo coordenou na Citânia de Briteiros, há uma considerável variedade na informação publicada, desde logo nas áreas intervencionadas, que umas vezes nem sequer são referidas, outras chegam mesmo a ser cartografadas.
Da campanha realizada no longínquo Outono de 1951, apenas sabemos a localização aproximada dos dois sectores escavados, insuficiente para identificar as estruturas onde se recolheu o interessante espólio. Contudo, é possível concluir que o vaso com a inscrição figulina de que aqui falámos provém da zona da encosta nascente, área particularmente ativa na fase altoimperial da Citânia, depois do tempo de César Augusto. Conhecemos nessa zona várias casas habitadas por famílias indígenas que adaptaram o seu modo de construir à casa romana comum, e o seu modo de viver aos novos produtos, ideias, problemas e desafios colocados pela nova realidade que foi a administração imperial. É possível, portanto, que o oleiro Caturo, cujo pai ostentava o tão romanizado nome de Maximino, habitasse esta zona.
A zona da encosta nascente da Citânia de Briteiros, onde foi recolhido o vaso com inscrição
No entanto, dificilmente estaria este grande vaso localizado em casa do oleiro em questão. O que mais facilmente se extrai da inscrição latina, cuidadosamente incisa no barro fresco, é que ela foi escrita para ser lida e que o vaso foi feito para ser visto. É, portanto, pouco provável que Caturo o conservasse em casa, como é também pouco provável que o vaso tenha sido enterrado, no que normalmente chamamos um depósito ritual. Parece que o vistoso caldeirão cerâmico foi cuidadosamente fabricado pelo oleiro nativo para ser oferecido, como cumprimento de um voto ou de uma obrigação social. Este aspeto faz suspeitar que esta peça estaria visível num espaço público, ou seria regularmente utilizada em eventos públicos. Poder-se-á pensar num pequeno templo ou num espaço de reunião, mas é tudo muito especulativo.
Além das características da pasta cerâmica e da inscrição latina, a cronologia da peça foi reforçada pela recolha de uma moeda de bronze, um asse de Augusto cunhado em Ebora Liberalitas Iulia (Évora), entre os anos 12 e 11 antes de Cristo. Foi um dos raros momentos em que Cardozo mencionou camadas diferenciadas, ao escrever que a moeda estava no mesmo nível onde se identificou o vaso.
Reverso da moeda de Augusto, cunhada em Ebora, recolhida com o vaso epigrafado
Os fragmentos, parcialmente reconstituídos, deste grande vaso, estão expostos, juntamente com a moeda de Augusto, no Museu da Cultura Castreja, em São Salvador de Briteiros. A eventual associação entre o vaso e a moeda continuam em aberto, assim como o edifício onde estas curiosas peças seriam mantidas. O conjunto foi, provavelmente, dos achados mais interessantes atribuídos a Mário Cardozo.
Gonçalo Cruz