António Lobo Antunes
Sentei-me para escrever. Procurei o isqueiro para acender o cigarro que não tinha e ouvi uma voz envergonhada de indesejada do fundo das entranhas:
– Deixaste de fumar.
Como se pudesse não saber depois de todas as vezes em que esta e outras se fizeram ouvir. Desta acendi-o na mesma e fumei-o como pude. Tinha o cigarro, a solidão e a folha em branco. O cigarro foi desaparecendo e a solidão reforçando-se; a folha já não estava mais em branco. Deixei nela uma ideia que me vinha a consumir como se eu precisasse de consumições: O Lobo Antunes devia ter ganho o Nobel.
Ainda fui confirmar se atribuíam prémios póstumos, como se aquilo valesse mesmo alguma coisa, mas não. Os sacanas não lho deram. Convenci-me que não valia nada. Lembrei-me que nunca fui ingénuo – como se o mérito fosse decisivo neste tipo de operações mediáticas. Como se o mundo não fosse estrutural, político, social e oportunista. Como se algo que não vale nada pudesse valer alguma coisa. Sempre me irritou a confusão do essencial com o acessório, sobretudo em mim. Ele morreu, mas não está morto, e o prémio é irrelevante. Deixou vida em abundância numa obra inestimável, fruto da coragem de um estilo único. Haverá lá coisa mais importante do que coragem; a recompensa é o estilo único. Nunca tratou o leitor como imbecil nem a literatura como entretenimento. Não facilitava a leitura para ser agradável, mas convidava ao mergulho no escuro que exigia devoção para se encontrar alguma coisa. Era confronto. Uma memória invasora e uma desordem de vozes. Humildade para escrever. Reescrever e reescrever. Abraçar a missão de deixar a vida entre capas de livros num processo onde o prazer era em grande parte esquivo, mas nasceu para ele. Num mundo de autores aos pontapés, mas de tão poucos bons escritores, fica um vazio que não poderá ser preenchido. Portugal dos poetas perdeu parte da pouca prosa que tinha sem nunca a ler verdadeiramente. Interrompe-se assim o fluxo contínuo da escrita de um grande, e não ganhar o Nobel diz mais sobre o prémio do que dele.
Enquanto estive por aqui a amansar esta consumição fez-se a crónica para este mês, que, bem ou mal, está praticamente pronta. Mais alguns caracteres e já a posso fechar. Fica assim: vou ter saudades das entrevistas. Ouvi-lo falar como se estivesse a escrever; a expor a vida sem clareza, sem se explicar, com o mesmo admirável desinteresse em ser entendido.