skipToMain
ASSINAR
LOJA ONLINE
SIGA-NOS
Guimarães
21 abril 2026
tempo
18˚C
Nuvens dispersas
Min: 17
Max: 19
20,376 km/h

A Wladimir Brito

Jordi Nieva-Fenoll
Opinião \ segunda-feira, abril 20, 2026
© Direitos reservados
Sempre me perguntei como era possível que tanta ciência e simpatia coubessem naquele homem. Tinha uma criatividade imensa que não se aplicava apenas à ciência, mas também à sua vida quotidiana.

Sempre me perguntei como era possível que tanta ciência e tanta simpatia coubessem naquele pequeno grande homem. Wladimir era um professor vivaz, que se fazia entender através da linguagem que só conhecem os seres humanos que compreendem e amam o povo, We, the people, quem mais ordena. Cada encontro com ele era uma oportunidade de aprender muito e de passar um bom momento cheio de sorrisos e ocorrências. Tinha uma criatividade imensa que não aplicava apenas à ciência, mas também à sua vida quotidiana, procurando em todos os momentos construir a anedota divertida que tornasse inesquecível qualquer instante.

Tinha muito orgulho da sua origem cabo-verdiana. Mantinha um vínculo emocional especial com aquele belíssimo arquipélago. Os olhos brilhavam-lhe ao falar dessas ilhas, das suas gentes, das paisagens e da comida. Sempre suspeitei que foi ali que conheceu tão bem as fraquezas do ser humano e, ao mesmo tempo, o seu enorme potencial para tornar o mundo um lugar melhor. Conhecia com grande detalhe a história universal e a política internacional, conhecimento que adquirira através de leituras nocturnas que, muitas vezes, se prolongavam até de madrugada, quando te enviava um email a partilhar alguma referência interessante ou simplesmente um pensamento breve que o tinha inspirado e que acreditava que compreenderias.

Quis, em todo o caso, ser um homem do seu tempo. Tinha uma grande afeição pela tecnologia, que identificava como o motor do mundo actual, e não havia engenho que não conhecesse ou até utilizasse com destreza. Gostava de navegar pelas redes sociais para ver o que o mundo dos lugares mais distantes estava a dizer. Embora estivesse consciente dos seus perigos, sabia também que só ao aproximares-te do que é mais arriscado, consegues compreender que o medo é irracional e que só enfrentando o pavor consegues eliminar essa tremenda ferramenta de controlo social.

Porque Wladimir queria ser livre. Amava a liberdade — a sua, a da sua adorada Sofia e a de todos os outros — como o valor mais precioso. Sabia quanto tinha custado conquistá-la e, com frequência, conversávamos sobre a importância de regressar a Locke, a Stuart Mill ou a Erich Fromm para compreender a sua essência. Falava a partir de um ponto de vista prático, nunca pedante nem absurdamente afectado. Quando citava o pensamento de um filósofo ou de um jurista, fazia-o normalmente ilustrando-o com um acontecimento histórico ou com uma situação da vida quotidiana, para que o seu interlocutor compreendesse a importância do que estava a ser dito.

Apreciei cada uma das suas conversas, das suas brincadeiras, sempre de um humor muito "blanco" mas nada ingénuo, que deixaram lembranças que evoco com muita frequência. Desfrutava de uma boa refeição, sempre tradicional, de um bom vinho e de algo que para ele era como um parque de diversões: uma livraria. Ali voltava a ser uma criança, brincando com os livros e folheando-os com uma reflexão paradoxal, que partilhava com quem o acompanhava. Tive a sorte de partilhar com ele alguns desses espectáculos em que até o livreiro, ou mesmo o empregado, se deleitava com ele. É impossível não recordar, neste momento, algumas das muitas leituras que me recomendou nos anos em que tive a sorte de desfrutar da sua companhia naquela cidade bela que é Guimarães. Mas também no Brasil, onde o conheci, enquanto ele, com paciência e ânimo, corrigia os meus primeiros balbucios em português.

Agora que se tornou realidade essa ideia, que ambos partilhávamos, de que um dia nunca mais nos voltaríamos a ver, lembro-me desses seus ensinamentos que o manterão vivo para sempre. Lê, aprende e desfruta, e não penses que não há futuro. Há-o sempre: o futuro é apenas o presente que estamos a viver agora.

Podcast Jornal de Guimarães
Episódio mais recente: #131 - O BRT e três projetos interrompidos pelo executivo de Ricardo Araújo