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A sensatez da sensibilidade

Diogo Nuno Mesquita
Opinião \ terça-feira, junho 16, 2026
© Direitos reservados
Mas na verdade, vejo agora, isto nem é sobre despedidas. Haverá com certeza outras formas de a compreender (a vida) e algumas certamente mais eficientes.

Há uma sabedoria na sensibilidade que empresta dignidade aos momentos em que tudo vai mudar e o que vem a seguir, que é desconhecido, não depende de nós. Nem sequer do que ou de quem nos despedimos. Mas de outras coisas. Podemos reduzi-las a sorte (azar) tendo em conta que não temos tempo nem caracteres para as esmiuçar agora. São essas coisas que acabam por ser a vida naquela conformada maneira de o dizer:

– É a vida.

E lá aparece a sensibilidade dos que a encaram da mais intensa forma de o fazer, com todo o admirável sentimento que só a eles permite antever a dura clareza do vazio de uma ausência. Essa emoção de quem se dedica a compreender o momento também o humaniza. Dá consciência do seu tempo limitado que permite, quase por obrigação, a coragem de ser verdadeiro; capaz de atribuir valor sem disfarçar a importância do que algo, ou alguém, tem para si. Vê-se bem o brilho de quem percebe a vida pela sensibilidade. Mas na verdade, vejo agora, isto nem é sobre despedidas. Haverá com certeza outras formas de a compreender (a vida) e algumas certamente mais eficientes. Em alguns casos, sobra ironia e desapego numa feroz dureza de papel que cria posturas distantes e desinteressadas com medo do que os outros, os sensíveis e os restantes, possam pensar. Minimizam o que sentem para não parecerem vulneráveis como se isso não fosse a inevitável consequência de valorizar alguma coisa. Como se a possibilidade de se despedirem fosse garantida e não um privilégio. A vida é finita. Os momentos são limitados. Só isso permite a sensatez de se expor para valorizar os outros, parecendo aos que se escondem atrás do cinismo que se trata de um ato de coragem ou estupidez que nunca fariam.

Entretanto corre mal e têm de viver com isso:

– Foi o que tinha de ser.

Às vezes não aguentam ter de lidar com o que ficou por dizer:

– Se o arrependimento matasse.

Mas outras corre bem, e aliviados:

– Maior sorte da minha vida.

Em todos os casos, haverá sempre mais ambiguidade humana.

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