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A nossa [C]idade

Filipe Fontes
Opinião \ terça-feira, maio 12, 2026
© Direitos reservados
Convém não ter medo de assumir, aceitar e praticar na Cidade a densidade populacional e a densidade construtiva, ou seja, absorver que a Cidade é feita e serve para receber e abrigar pessoas.

É recorrente, mas é inevitável: a Cidade como elemento central da nossa vida, a Cidade como atenção e foco constante porque suporte do nosso quotidiano, porque condição para o nosso conforto ou dificuldade.

A Cidade é determinante para todos nós, seja ela entendida mais como organização política, estrutura social e comunitária ou suporte físico. Reconhece-se a sua complexidade e dificuldade no domínio e entendimento das suas idiossincrasias, das suas características estruturais, do seu potencial e da sua restrição, da sua modernidade e do seu atavismo. Reconhece-se e compreende-se! Todavia, não há retorno, desvio ou alternativa: se ambicionamos qualidade de vida, à Cidade temos de prestar atenção, a Cidade temos de entender, à Cidade temos de nos dedicar e tratar.

Hoje, generaliza-se a sensação de que a Cidade vem sendo secundarizada e relativizada, sendo alvo de anátemas associados à dita [falta de] sustentabilidade [saberemos o que tal será?], às denominadas alterações climáticas [saberemos tipificar e classificar, nomear causas e efeitos?] e sujeita a críticas indexadas a densidades populacional e construtiva, a impermeabilização de solo e mobilidade, e outras mais, que a vai culpabilizando e responsabilizando sem norte ou sentido. Apenas [é convicção] pela sua fragilidade e inerência.

Porém, hoje, mais do que nunca, tal é injusto, porque, cada vez mais, se torna evidente que a Cidade é feita de diversidade e transformação, erro e correcção, acerto e reversão, num processo feito de camadas sedimentadas no tempo, competindo a todos nós, liderados por quem nos governa, melhor a entender e possibilitar que cresça e melhore, não caindo no populismo e facilitismo da crítica e da responsabilização sem nexo de causalidade ou real efeito territorial.

Por isso, convém não ter medo de assumir, aceitar e praticar na Cidade a densidade populacional e a densidade construtiva, ou seja, absorver que a Cidade é feita e serve para receber e abrigar pessoas, possibilitar trocas e relações, sendo inata à mesma a rentabilização do solo, dos usos e do investimento; a atractividade e polaridade urbana e o desenvolvimento económico, fomentando trocas comerciais, produção de bens e polaridade turística, num processo gerador de mais-valias económicas e, deseja-se ainda, culturais e sociais; a complexa mobilidade feita de um processo contínuo de tentativa, erro, correcção, melhoria, na certeza de que a complexidade é presente e continuidade, sendo prática e exigência melhorar e qualificar [resolver e eliminar os problemas será utopia…]; a transformação e a diversidade cultural e temporal como marca d’água do território, assumindo o contraste e o confronto entre diferentes tempos de construção, entre a modernidade e o património, na conjugação e visibilização da capacidade de cada tempo societal em se exprimir e afirmar. Na prática, aceitando que a Cidade é assim, corpo que se molda e transforma diariamente num tempo curto e imediato, num tempo longo e histórico, sem drama e sempre com esperança.

Tal exige atenção, carinho e acção, não deixando a mesma Cidade cair na letargia do seu passado e no expediente diário do seu presente.

Por isso é que tantas vezes se registam rupturas, reformas e mudanças, acredita-se, fundamentalmente, porque se deseja ajustar o caminho da “nossa cidade” a esta realidade evidente da Cidade, desejando que seja cada vez melhor e mais Cidade!

Tal exige determinação, coragem e assunção de risco. Exige ideias e acção. E exige compromisso e responsabilização. Não se aceita demissão nem omissão, quer-se evitar o silêncio ou a tergiversação. Afinal, o futuro faz-se de esperança. E se ela ainda existe, então saibamos alimentá-la, gerando crescimento e qualidade, fazendo da “nossa cidade” cada vez mais Cidade de todos nós!

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