A Marco Aurélio e Cómodo
Pelo que consta na Historia Augusta, a 27 de novembro do ano 176 – fez ontem 1849 anos! – o imperador romano Lúcio Aurélio Cómodo era associado ao governo pelo seu pai biológico, o mais conhecido imperador Marco Aurélio. Desta forma, entre 176 e 180, ano da morte de Marco Aurélio, Roma teve dois imperadores, pai e filho, num episódio de partilha do poder que não era, então, totalmente incomum.
Cómodo, imperador desde os seus 15 anos, chegou até nós, muito por culpa do filme de 2000, Gladiador, de Ridley Scott, como o protótipo do velhaco, narcisista e sanguinário. Talvez isto não andasse longe da verdade, segundo a suprarreferida Historia Augusta, mas temos que ter em conta a diferença cronológica e cultural, que alterou muitos valores e princípios fundamentais, da Antiguidade para os dias de hoje. Já Marco Aurélio sempre foi descrito como o oposto: bondoso, magnânimo, moderado, culto, um exemplo de garantia da paz e da estabilidade. Características que quadram, aliás, com o seu estatuto de filósofo, cujas Meditações nos chegaram.
Pois bem, Guimarães guarda uma peça, no Museu Martins Sarmento, que vem dos tempos em que Marco Aurélio e Cómodo partilhavam o poder no Império Romano. É um elemento de alguma raridade, dada a sua associação direta a duas figuras históricas, que permite uma datação muito específica. É uma epígrafe que consiste numa dedicatória a ambos: “Ao século felicíssimo dos imperadores Augustos Marco Aurélio Antonino e Lúcio Aurélio Cómodo”, conforme ainda se lê em letras capitais, gravadas na superfície cilíndrica de um elemento em pedra. Está, portanto, datada esta peça entre os anos 176 e 180 da nossa era.

Quando Albano Belino a recolheu em Braga – não muito longe do Campo das Carvalheiras, mas já reutilizado, fora do seu contexto original – pensava estar diante de um dos vários marcos miliários que encontrou. No entanto, tal como caso de uma outra peça, que já aqui referimos, com uma dedicatória aos irmãos Valentiniano e Valente, trata-se mais provavelmente de parte de uma coluna. Este elemento parece ter encaixado, em cima e em baixo, em elementos similares. Pode ter sido uma coluna que integrava um edifício público – uma basílica, um templo, umas termas – mas pode ter sido apenas um fuste, um monumento honorífico levantado na via pública. O fragmento com a inscrição é, infelizmente, tudo o que resta.
Se assumirmos que o local onde Belino identificou esta peça não estaria muito longe da sua implantação original, podemos concluir que o edifício que a albergava estava no centro da cidade de Bracara Augusta, o que faria todo o sentido. Mas não temos como saber. O que sabemos é que ela foi esculpida em granito porfiroide “dente de cavalo”, um bom substituto local para o mais raro mármore, que a arquitetura monumental romana exigia.