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A gaiola de ferro: quando a biologia vira crime

Luís Lisboa
Opinião \ sexta-feira, fevereiro 06, 2026
© Direitos reservados
Hoje, somos a única espécie sobre a face da Terra que precisa de um papel carimbado para exercer o direito biológico de caminhar.

Se pudéssemos ver a Terra a partir do espaço, veríamos um organismo vivo, pulsante e em constante movimento. Veríamos nuvens de borboletas a cruzar continentes, cardumes a rasgar oceanos e manadas de gnus a desenhar caminhos nas poeiras da savana. Para todas essas espécies, o mundo é um convite. A migração não é uma escolha política, é o pulmão da vida. Se os animais param, morrem. Se não procuram o novo pasto ou o mar mais quente, a linhagem acaba. A natureza não sugere, ela obriga ao movimento.

​E, aí entramos nós. O paradoxo começa no nosso DNA: somos a espécie que mais se movimentou neste planeta. Saímos de um canto de África e, movidos por uma curiosidade inquieta e uma necessidade brutal de sobrevivência, conquistamos montanhas e glaciares. Aliás, o sucesso da humanidade é o resultado direto de não termos ficado parados. Somos, na essência, nómadas que aprenderam a construir casas.

Contudo, ao fixarmos raízes, decidimos riscar o chão. Criámos a propriedade, o Estado e a fronteira, ferramentas que, a princípio, serviam para nos organizar e proteger, mas que acabaram por se tornar muros morais. O que antes era um horizonte aberto virou uma linha burocrática. Hoje, somos a única espécie sobre a face da Terra que precisa de um papel carimbado para exercer o direito biológico de caminhar.

​Por um instante, imaginemos o absurdo: uma andorinha detida por voar sobre uma cerca, ou uma baleia interrogada por entrar em águas territoriais sem o visto adequado. Parece uma caricatura, mas é a realidade que impomos aos nossos semelhantes. Ao rotularmos migrantes como "ilegais", tentamos legislar contra a própria biologia, ignorando que ninguém deixa para trás a sua língua, a sua família e o seu chão por capricho. As migrações são o último recurso da sobrevivência.

​É aqui que a nossa modernidade revela o seu lado mais sombrio. Como sugeriu Max Weber, deixámo-nos enclausurar numa "gaiola de ferro": uma rede de lógicas impessoais e burocracias frias onde o regulamento vale mais do que a vida. Nesta estrutura, o migrante deixa de ser uma pessoa com esperança e medo para se tornar apenas num processo, um número, um problema logístico. Tentar travar o fluxo humano com carimbos é como querer proibir a maré de subir através de decretos, a diferença é que a maré é indiferente, enquanto o homem que bate à porta da gaiola sofre.

​Esta tensão entre o instinto de vida e o controlo das instituições define o abismo do nosso século. Arjun Appadurai explica que vivemos num mundo de fluxos globais, onde o capital e a informação viajam à velocidade da luz, mas onde o corpo humano é barrado por muros de betão. Essa ansiedade das nações em domesticar o inevitável alimenta o medo e corrói a ética. Nas palavras do próprio Appadurai: “A questão central dos nossos dias é se estaremos a assistir à rejeição mundial da democracia liberal e à sua substituição por algum tipo de autoritarismo populista.”

​No fim de contas, a nossa soberba é o que nos trai. Agimos como donos de um planeta onde somos apenas inquilinos passageiros, esquecendo que a nossa história foi escrita com pés no chão e olhos no horizonte. Se os nossos antepassados tivessem respeitado as fronteiras que hoje defendemos com violência, nenhum de nós estaria aqui para contar esta história. Criámos um mundo digitalmente sem limites, mas fisicamente implacável. Hoje, a pergunta que resta não é sobre quem tem o direito de entrar, mas sobre o que resta da nossa própria humanidade quando decidimos que o instinto de sobreviver é um crime.

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