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900 anos da Batalha de S. Mamede

Francisco Brito
Opinião \ domingo, julho 12, 2026
© Direitos reservados
As comemorações de S. Mamede não tem donos, tem servidores e todo o trabalho será feito com espírito de missão.

No passado dia 3, Guimarães viveu um momento histórico. Pela segunda vez em mais de 20 anos, realizou-se um Conselho de Ministros em Guimarães. Foram anunciados diversos investimentos importantes para o futuro do concelho e foram definitivamente assentes os moldes em que serão comemorados os 900 anos da Batalha de São Mamede.

O processo de comemoração dos 900 anos de S. Mamede, iniciado pelo anterior executivo (com o particular empenho de Domingos Bragança e da sua equipa), foi rapidamente posto em marcha por Ricardo Araújo que, para isso, contou com o Governo que, em boa hora, soube aceder as reivindicações vimaranenses e se deslocou a Guimarães para aprovar a criação da Comissão que irá coordenar as comemorações e formalizar o processo. A rapidez com se chegou a esta solução não é coisa de somenos, pois todos sabemos que, não raras vezes, o poder central é moroso (e incumpridor) no que diz respeito a promessas e compromissos assumidos com as estruturas locais e regionais. Embora tudo tenha sido feito de forma comedida, o que se conseguiu no dia 3 de Julho é, sem margem para dúvida, bastante importante para Guimarães e para as comemorações que se avizinham.

O que se pretende alcançar com a comemoração dos 900 anos da Batalha de São Mamede é claro: afirmar a dimensão nacional do dia 24 de Junho e comemorar a data. A escolha das palavras é objectiva: o que se vai fazer não é apenas assinalar a data ou recordar o episódio histórico. Trata-se de comemorar os 900 anos de uma das datas mais relevantes da História de Portugal.

Para tal, foi desenhada uma forma inteligente de celebrar a efeméride, que nos permite ir para além do momento festivo e isso foi feito através da divisão de responsabilidades em grupos de missão e de trabalho. Como cúpula da estrutura haverá uma Comissão de Honra, liderada pelo actual Presidente da República, a que naturalmente se juntará (no quadro das funções políticas e institucionais que lhe são atribuídas) o Governo e o Município. Haverá uma Comissão Científica e uma Comissão Artística que, tanto quanto sei, irão trabalhar de forma independente das outras estruturas. Para coordenar as comemorações foi escolhido Paulo Portas, um homem culto, cosmopolita e com grande visibilidade mediática, algo bastante importante para levar este projecto a bom porto. Sendo este um processo que envolve pessoas sensatas, cientes da sua responsabilidade institucional, política, científica e académica, não é de esperar que haja qualquer tipo de interferência de uns no trabalho dos outros. Se é certo que o nome de Paulo Portas trouxe alguma polémica, é seguro que qualquer nome escolhido para esta missão (fosse uma figura de relevância local ou nacional) nunca seria consensual. O importante, nesta matéria, é perceber que a causa de S. Mamede não tem donos, tem servidores. E estou certo de que todos os que se predispõem a trabalhar em prol das comemorações dos 900 anos da Batalha fazem-no com esse espírito de missão.

Numa conferência pronunciada no dia 24 de Junho de 1978, na Sociedade Martins Sarmento, José Mattoso terminou dirigindo-se ao público, não como historiador, mas apenas como cidadão, para dizer o seguinte:

“Encontro neste facto primordial da nossa História, como em muitos outros, a prova de que qualquer acção coletiva é mais fecunda e duradoura do que a mais espectacular realização messiânica por parte de figuras carismáticas e pseudo-salvadoras. (…) O essencial da mensagem que estas comemorações pretendem constituir para todos os portugueses: lembrar-lhes a sua responsabilidade comum na construção do futuro e incutir neles a fé naquilo mesmo que realizam por concertação e entendimento acerca dos interesses nacionais. Tenho a certeza de que, mesmo sabendo pouca história, há muitos portugueses com a mesma firme convicção, e de que, por isso mesmo, não é fácil abalar as raízes da Nacionalidade. Tenho a certeza de que a batalha de São Mamede não deixará nunca de se comemorar nesta terra de Guimarães e em todo o país que aqui nasceu.”

O que hoje, enquanto vimaranenses, podemos esperar e devemos exigir é que se reforce a mensagem de José Mattoso e que as Comemorações dos 900 anos da Batalha de S. Mamede assumam uma dimensão nacional e cheguem a todos os portugueses que querem comemorar ou apenas saber mais sobre “a primeira tarde portuguesa”.

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