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1986 e 2026: Ecos de uma Eleição Dividida

Pedro Ferreira
Opinião \ quarta-feira, janeiro 14, 2026
© Direitos reservados
Cada eleitor deve escolher o candidato com o qual mais se identifica, aquele que melhor representa os valores, princípios e visão de país que considera essenciais.

As eleições presidenciais do próximo dia 18 de janeiro não se podem reduzir a um mero ato democrático rotineiro. Apesar do discurso institucional, há sinais de que estas se distinguem claramente das eleições anteriores, seja pelo maior número de candidaturas registadas até hoje em eleições presidenciais, ou pela fragmentação do espaço político. Não surpreende, por isso, que muitos façam o paralelismo com as presidenciais de 1986. Não se trata de uma comparação meramente histórica, mas sim, uma referência útil para compreender o momento político que o país atravessa.

Por mais que o debate político tenda a partidarizar estas eleições, a sua natureza constitucional é inequívoca: o Presidente da República é eleito num sistema uninominal, assente numa candidatura pessoal. Não elegem partidos, elegem uma pessoa. O Presidente da República não governa, não executa programas partidários nem responde a estruturas partidárias. Aliás, em teoria, trata-se do ato eleitoral menos partidário do sistema. Contudo, a prática tem vindo a afastar-se deste princípio. O número recorde de candidaturas (onze) não é apenas sinal de pluralismo, é também o reflexo de um sistema partidário que tem dificuldade em afirmar figuras verdadeiramente agregadoras. A dispersão do voto torna quase inevitável a realização de uma segunda volta, algo que aproxima, ainda mais, estas eleições presidenciais das eleições de 1986, quando Freitas do Amaral venceu a primeira volta, mas acabou por ser derrotado por Mário Soares na segunda volta, num contexto de convergência eleitoral à esquerda.

É neste enquadramento que deve ser lida a insistência, repetida por vários candidatos, de que estas são eleições “não partidárias”. A afirmação é correta e apelativa, mas dificilmente se sustenta numa análise séria. Com exceção de Gouveia e Melo, todos os principais candidatos têm percursos políticos longos e claramente identificados com estruturas partidárias. António José Seguro não foi apenas secretário-geral do Partido Socialista, foi dirigente da Juventude Socialista, deputado durante vários anos, líder parlamentar e figura central do PS em momentos marcantes da sua história. Cotrim de Figueiredo liderou a Iniciativa Liberal, foi deputado à Assembleia da República e é atualmente deputado ao Parlamento Europeu, pela Iniciativa Liberal. Luís Marques Mendes construiu praticamente toda a sua vida pública no seio do PSD, onde foi deputado, secretário de Estado, ministro, líder parlamentar e presidente do partido. André Ventura, desde a fundação do Chega em 2019, tem acumulado candidaturas, concorrendo a eleições legislativas, presidenciais e manifestado ambições tanto a Belém como a São Bento, num percurso em que as ambições institucionais surgem frequentemente sobrepostas.

Nada disto é ilegítimo. A política faz-se de percursos, experiência e ambição. O problema surge quando, perante este histórico evidente, se insiste numa narrativa de isenção partidária que não corresponde à realidade. Todos estes candidatos beneficiam, em maior ou menor grau, do trabalho das máquinas partidárias que os apoiam, organizam campanhas, mobilizam militantes e estruturam o discurso político. Isso pode ser visto como uma vantagem ou como uma limitação. O que não faz sentido é continuar a insistir na premissa de que estas candidaturas surgem acima dos partidos ou desligadas deles. Essa dissonância entre discurso e realidade não valoriza o debate democrático.

Essa contradição torna-se particularmente visível no caso de Luís Marques Mendes. O candidato tem recorrido com frequência ao apelo ao chamado “voto útil”, defendendo a concentração de apoios para evitar a dispersão do seu espaço político. O problema é que esse argumento colide com os dados atuais. As sondagens e as tracking pool diárias, que devem ser lidas com prudência, mas não ignoradas, colocam, ao dia em que escrevo este artigo, João Cotrim de Figueiredo à frente de Marques Mendes, com o último já fora da margem de erro e do cenário de empate técnico. À luz dos próprios critérios invocados por Marques Mendes, o apelo ao voto útil deixaria, neste momento, de fazer sentido em seu favor. Ademais, Cotrim, inicialmente visto como um outsider, surge hoje como um candidato que, sozinho, ultrapassa largamente a expressão eleitoral do partido que liderou. Comparando com os resultados das legislativas de 2025, as intenções de voto atuais indicam que recolhe um apoio claramente superior ao da Iniciativa Liberal, por si só. Este desfasamento entre o discurso e números fragiliza a narrativa do voto útil e expõe um problema: algumas candidaturas ainda tentam convencer os eleitores com argumentos que já não correspondem à realidade atual.

A campanha de João Cotrim de Figueiredo tem revelado uma forma de fazer política pouco habitual em Portugal, mais próxima do digital e das estratégias de comunicação modernas. Esta opção tem contribuído para um crescimento assinalável da candidatura nas redes sociais, gerando elevados níveis de participação que, embora não se traduzam automaticamente em votos, aumentam a visibilidade e o alcance da mensagem. A aposta em influencers, a presença em contextos informais e o contacto direto com públicos mais jovens refletem uma tentativa clara de adaptar a campanha a novas formas de mobilização, para além dos círculos politicamente mais comuns. Contudo, as recentes declarações de Cotrim, segundo as quias não excluía apoiar qualquer candidato numa eventual segunda volta, trouxeram ruído numa fase decisiva.

Este episódio de ser “liberal até dizer chega” acabou por criar oportunidades para os adversários. A ténue associação a movimentos populistas como o Chega permite que Luís Marques Mendes “esfregue as mãos”, criticando Cotrim por imaturidade e precipitação, enquanto reforça a narrativa da experiência e estabilidade que a sua candidatura procura transmitir. Mesmo assim, acredito que Cotrim de Figueiredo terá um resultado superior ao de Marques Mendes, fruto de uma campanha moderna, adaptada aos novos públicos e capaz de mobilizar além dos círculos tradicionais. 

À esquerda, António José Seguro tem conseguido algo que parecia improvável num cenário tão fragmentado: crescer de forma consistente e manter o seu eleitorado. Aqui, a comparação com 1986 é particularmente elucidativa. Nesse ano, Mário Soares beneficiou, na segunda volta, da convergência de votos de outras candidaturas de esquerda, incluindo a de Maria de Lourdes Pintasilgo, cuja presença na primeira volta foi decisiva para impedir logo uma vitória da direita.  Em 2026, caso António José Seguro passe à segunda volta, poderá repetir-se a lógica de 1986, beneficiando da convergência de votos de outras candidaturas à esquerda. Aliás, se enfrentar André Ventura na segunda volta, a sua votação poderá ir além do eleitorado de esquerda, atraindo eleitores de direita, moderados ou centristas que procurem estabilidade e experiência.

Curiosamente, aquando do anúncio da candidatura de Seguro, o próprio Partido Socialista não manifestou um apoio claro e imediato. E aqui, realçar que o próprio candidato pareceu pouco preocupado com esta falta de apoio inicial. Porém, com o decorrer da campanha, o PS acabou por declarar o seu apoio formal e, nesta reta final, várias figuras de peso do partido, incluindo algumas da ala “Costista” manifestaram publicamente esse apoio.

Estas eleições evocam, em muitos aspetos, o clima de 1986. Naquele ano, a escolha presidencial ocorreu num país em construção democrática, hoje, ocorre num sistema consolidado, mas marcado pela fragmentação política e pelo cansaço do eleitorado. Em pouco mais de dois anos, os portugueses foram chamados a votar em duas eleições legislativas, europeias, autárquicas e agora presidenciais. Mais do que nomes, os portugueses enfrentam a decisão de procurar equilíbrio e estabilidade para a democracia.

No próximo domingo, escolhemos a figura máxima do país, o Chefe de Estado, responsável por garantir a independência nacional, assegurar o cumprimento da Constituição, garantir o equilíbrio institucional e atuar como uma espécie de árbitro político nos momentos chave. É, acima de tudo, uma função de estabilidade e mediação.

A decisão sobre quem ocupará Belém não se resume a nomes, trata-se de assegurar a coesão do sistema democrático, a legitimidade das instituições e a mensagem que Portugal envia a si próprio e ao mundo sobre os valores que quer defender. Os portugueses não podem reduzir o seu voto a uma opção tática ou a um chamado “voto útil”. Cada eleitor deve escolher o candidato com o qual mais se identifica, aquele que melhor representa os valores, princípios e visão de país que considera essenciais. Votar útil é votar naquilo em que se acredita.

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